O estudo analisa a historicidade das desigualdades nas relações étnico-raciais da sociedade brasileira, notadamente entre brancos e negros, tomando como dimensão empírica o município de Carlos Barbosa no Rio Grande do Sul. A escolha do tema decorre da inserção da autora com atividades docentes e de pesquisa, da preocupação com os processos de discriminação pelos quais sofre o negro e pelo desafio de pensar em uma sociedade de maior igualdade. A investigação foi realizada mediante levantamentos bibliográficos e documentais, bem como de depoimentos de negros e brancos. As informações foram catalogadas e, posteriormente, analisadas mediante a técnica da análise de discurso. A reflexão em torno das manifestações discursivas e dos dados levantados nas pesquisas históricas, demonstra a permanência do preconceito étnico-racial nas práticas cotidianas na comunidade estudada, apontando para os desafios que cidadãos e cidadãs precisam enfrentar para a construção de uma sociedade de igualdade, respeito às diferenças e reconhecimento do outro. O negro libertou-se por suas lutas mas ingressa no Brasil República como páreas de uma sociedade que o rejeita. Proibidos de ir às escolas durante o Império e sem acesso à escola na República, permaneceram como “sobras” sobre as quais, o favor, por vezes a caridade e predominantemente a polícia e a violência se encarregava de tomar conta. A maioria dos escravos ficou ao léu, abandonada a sua própria sorte.
Nenhuma reforma agrária, nenhuma reforma urbana e as proibições de serem contratados inclusive por agricultores familiares e imigrantes serviram de lastro para o surgimento das favelas, dos cortiços das cidades da Velha República até a “Novíssima” de nossos dias e do aumento das distâncias econômicas e sociais do povo negro no “mundo dos brancos”.
Quando falamos em “mundo dos brancos”, temos diferentes “brancos” em posição de poder. Há que se diferenciar os descendentes de portugueses que receberam Sesmarias tornadas em estâncias no século XVIII e cafezais no século XIX dos imigrantes europeus trazidos no século XIX, muitos deles enganados pelos novos comerciantes e agenciadores de trabalhadores livres que eram predominantemente camponeses e operários pobres vindos da Alemanha no início do século, e da Itália na segunda metade, para tentar melhorar sua condição de vida no Novo Mundo.
No caso dos imigrantes italianos como apontado no estudo, uma parte foi contratada sob o sistema de colonato no Sudeste e outra, transformada em proprietários familiares de pequenos lotes como foi o caso daqueles que vão povoar a Serra Gaúcha.
Apontamos que os imigrantes passaram por muitas situações de violência e de sofrimento, mas analisando numa perspectiva histórica e tomando em conta que a ocupação do Brasil por parte dos setores dominantes tinha como fundamento ideológico desqualificar o povo negro e realizar um processo de branqueamento do país, vamos constatar que as inúmeras formas de violência e de crueldade às que foram submetidos o povo negro tenham sido infinitamente superiores.
No capítulo em que tratamos das relações étnico-raciais em Carlos Barbosa, foi possível constatar que hoje, em pleno século XXI, não mais com castigos físicos como no passado, mas sob formas sutis de violência simbólica permanece o povo negro, como seus antepassados, submetidos em grande medida à vontade dos brancos.
Viver, trabalhar, construir uma identidade positiva num diálogo inter-étnico, na região aqui estudada ainda se encontra distante das práticas cotidianas. Contribuir com a construção de práticas solidárias de respeito e de reconhecimento constituem necessidades urgentes de todo e qualquer cidadão e cidadã branco, negro, pardo ou de qualquer outra etnia. Educar para a convivência digna constitui desafio de todos os dias.
No início dos anos 1950, o sociólogo Guerreiro Ramos disse com todas as letras: “o Brasil é o país mais racista do mundo”. Estamos na segunda década de um novo milênio. Quantas décadas ou séculos serão necessários para tornar sem efeito a afirmação de Guerreiro Ramos?
Pensar e dialogar com Guerreiro Ramos de ontem e com os “guerreiros e guerreiras ramos” de hoje foi o que procurei fazer no estudo aqui apresentado.
Palavras-chave: relações étnico-raciais; processos de identidade; igualdade; reconhecimento; cidadania.