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Resumen de ponencia
Grafite e pixação: dissonâncias e diálogos na cidade de São Paulo.

*Bianca Fernandes Fasano



Tendo como referência a cidade de São Paulo sua paisagem e suportes urbanos, esta pesquisa tem como objeto duas intervenções cotidianamente presentes nesta metrópole, o grafite e a pixação¹. Pretende-se compreender o que motiva as variadas distinções entre o grafite e a pixação e alguns dos processos que enaltece o grafite em detrimento a pixação. A investigação propõe analisar os diálogos entre essas duas linguagens gráficas, com ênfase para as formas de ocupação dos espaços públicos na cidade de São Paulo.
A cidade é um produto da natureza e das particularidades das pessoas que nela vivem. Há forças que atuantes sobre ela que fazem com que pessoas se agrupem e deem ordem à população e às instituições. Costumes e hábitos de pessoas estão enraizados na cidade, ou seja, há uma organização moral e uma física, que se compreende como os espaços urbanos determinados. Essas duas organizações são interagidas e fazem com que uma se acomode à outra. O desenho da cidade se baseia em estrutura e sua ordem moral. (VELHO, 1967). Os significados atribuídos à cidade são frutos da relação entre sujeitos e personagens e das diversas produções de sentidos e diversidade que esses aplicam na metrópole. A aceleração generalizada dos tempos de giro do capital gerou consequências para a relação entre tempo e espaço vivenciado na cidade, a acentuação na volatilidade e na efemeridade dos produtos, modos, técnicas de produção, processo de trabalho, ideologias, ideias, valores, práticas, a instantaneidade tanto nas refeições quanto em outros serviços oferecidos e enfim a descartabilidade, mais do que jogar descartar bens produzidos, significa também ser capaz de atirar fora valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego a coisas, edifícios, lugares, pessoas e modos de agir e ser, todas essas ações mencionadas, são nada mais que frutos do tempo acelerado e generalizado do capital, (HARVEY, 1994). Desse modo podemos caracterizar o espaço da cidade em "espaço oficial", concebido pelos governantes, construtores, desenvolvedores e outro "espaço não-oficial" que seria o "diferencial", o "espaço transgredido" (SILVA, 2006) de forma que o território assume duas marcas: um oficial, visível e outra cultural, quase sempre invisível, imaginada, construída através da dinâmica dos cidadãos pela cidade. Isto significa que a cidade se move, transforma fala e faz alterações configuradas, não tanto por seus espaços físicos, tais como a seus habitantes. Portanto, devemos reconhecer que a cidade é também um cenário de linguagem, sonhos, imagens, esculturas e variada escrituras.
Grafite ou grafito é uma palavra de origem italiana “graffito” que significa “escrita feita com carvão”. São inscrições gravadas ou desenhadas pelos antigos nas paredes das cidades. As inscrições em grafite são conhecidas desde o Império Romano quando era utilizado o carvão para escrever palavras de protestos nas paredes dos monumentos. Nos anos 60, na cidade de Nova York, jovens provenientes do bairro do Bronx começaram a espalhar suas marcas nas paredes da cidade utilizando tinta em spray. Desenhavam imagens de protesto contra a ordem social, dando início a um grande movimento de arte urbana, torna-se impossível separar o grafite, como forma de expressão artística e humana, do princípio de liberdade de expressão. Já a pixação é um movimento resultante da escrita e prioriza a palavra e/ou a letra. Suas origens são remotas, já se encontrava paredes com xingamentos, anúncios e poesias na cidade de Pompeia nas primeiras décadas da era cristã. Usada como forma de combate e instrumento revolucionário esteve presente em diversas momentos de lutas ao longo da história, com a invenção da tinta spray após a Segunda Guerra Mundial tem um crescimento ainda maior dado a facilidade e agilidade de sua produção. Na cidade de São Paulo, o pixo se intensificou bem mais do que em outros lugares do mundo e tem atualmente uma definição diferente, desde os anos 80 até os dias atuais sofre constantes mudanças relativas à sua forma estética, de atuação e de seus adeptos. A distinção entre grafite e pixação é original do Brasil, o termo pichação provem de piche (mistura de petróleo utilizado para pavimentação) e era utilizado para escrever nos muros na época da ditadura, anos mais tarde a técnica de escrita começou a se utilizar dos sprays, porem manteve-se o nome, o uso da tinta em spray é o que faz em comum a pichação e o grafite. Ambas intervenções utilizam do mesmo suporte – a cidade- e o mesmo material (tintas), interferem no espaço, subvertem valores, são espontâneas, gratuitas e efêmeras, e tem uma de suas diferenças pautadas na circunstancia do grafite ser proveniente das artes plásticas e a pixação da escrita, ou seja, o primeiro privilegia a imagem enquanto o segundo a palavra e/ou a letra. (GITAHY, 1999)
Tomando por base que os significados atribuídos à cidade são frutos da relação entre sujeitos e personagens e das diversas produções de sentidos e diversidade que esses aplicam na metrópole e princípio do direito a cidade que é atingido a partir de sua prática transgressora ao fazer os diversos usos da mesma, se permitindo a apropriação e construindo imaginários em lugares que antes eram apenas locais sem identidade e pertencimento. Dessa forma constitui como campo desta pesquisa o mapeamento de eventos, intervenções e atuações onde há presença de grafiteiros como Crânio, Galo, Chivitz; e pixadores tais como Kripta, Iaco, Os Cururu. Ao mapear os fluxos de produção que estas intervenções promovem na cidade, por meio dessas ferramentas metodológicas procede um conjunto prévio de orientação da análise e da produção de resultados, organizado ao redor ações baseadas em conhecer e familiarizar-se com territórios e espaços reconhecidos pelos sujeitos, identificar, os modos de produção e a lógica dos usos dos espaços pelos mesmos; localizar dissonâncias nas produções culturais.

¹O uso correto da palavra na gramatica é com ch, a escolha da utilização com x parte da diferença que elas possuem não apenas pela grafia, mas por caracterizar praticas diferentes de intervenção na cidade. A pixação é uma forma de manifestação na qual possui um estilo caligráfico e de atuação especifico, proveniente da cidade de São Paulo.
Bibliografia
GITAHY, Celso. O que é grafite. São Paulo: Editora Brasiliense, 1999.
HARVEY, David. A compreensão do tempo-espaço e a condição pós-moderna. Condi-ção pós moderna. São Paulo, Loyola, 1994
SILVA, Armando, Imaginários urbanos. Bogotá y Sâo Paulo, Cultura y comunicación urbana em América Latina, Bogotá, Tercer Mundo Editores, 1992, p. 19.
_______________ Atmosferas urbanas: grafite, arte pública, nichos estéticos – São Paulo: Edições Sesc, 2014.
SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio G. (Org.). O fenô-meno urbano. Rio de Janeiro: Guanabara, 4a. ed., 1987.




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* Fernandes Fasano
Programa de Estudo Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia. Universidade Católica de São Paulo - PEPG/PUCSP. São Paulo, Brasil