Em nossa sociedade, com as rápidas transformações industriais e a revolução tecnológica, cada vez mais profissões e, principalmente, ofícios manuais vão se tornando obsoletos, sendo extintos ou estando em vias de desaparecer. Dessa forma, os trabalhadores que os exerceram têm um rico manancial de vivências, experiências e trajetórias ligadas a estes ofícios, que vão se perder paulatinamente com o desaparecimento destes. A maioria desses trabalhadores já se encontra retirada do mercado de trabalho, pelos motivos do esgotamento de sua força de trabalho, com o declínio natural da idade e também pelo avassalador efeito de novas técnicas, que tornaram alguns dos ofícios mais tradicionais até então, completamente ultrapassados, como é o caso das parteiras e lavadeiras, ocupações existentes desde o Brasil colônia, mas que hoje se encontram bastante transformadas. A questão mais relevante tem sido analisar, em um projeto de pesquisa, justamente as profissões antigas ou à beira da extinção, como estivadores, motorneiros, gráficos, sapateiros, alfaiates, ascensoristas, taquígrafos, afiadores de faca, fotógrafos de rua, pescadores artesanais, bem como benzedeiras e curandeiras, ofícios que insistem em se manter em um mundo que parece não querer mais lhes dar qualquer tipo de espaço, já que, muitas vezes, aquilo que oferecem se tornou descartável. A pesquisa, que está em execução desde o ano de 2009 e não tem prazo de finalização, tendo em vista as transformações tecnológicas constantes que tem acontecido, se propõe a apresentar algumas destas trajetórias de vida. A ideia inicial era fazer um estudo comparativo entre algumas cidades da Argentina e do Brasil, tendo em vista trabalhos em conjunto entre pesquisadores da Universidade de Buenos Aires (UBA) e da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Tal situação não se concretizou, mas abordagens sobre cada uma das regiões têm sido realizadas, separadamente. Na pesquisa faz-se uso de duas metodologias principais, a análise documental em um acervo da Justiça do Trabalho, que reúne mais de 105 mil processos trabalhistas, que estão salvaguardados pelo Núcleo de Documentação Histórica da UFPel, através de um acordo de comodato estabelecido com o Memorial da Justiça do Trabalho da 4º Região, sediado em Porto Alegre. Para a utilização do material foi construído um Banco de Dados, que possui acesso irrestrito na internet, através do qual se faz anotações sobre cada um dos processos, constando o demandante, o demandado, o motivo do pleito, se a ação é individual ou plúrima, o tempo de duração do processo, além do resultado da ação. Já foram digitados no Banco de Dados informações para os primeiros dez anos do acervo, ou seja, entre 1941 e 1951, embora existam processos anteriores à própria organização da Justiça do Trabalho no Brasil, que data de 1941. Uma outra metodologia utilizada para o projeto é a história oral, uma vez que um dos acervos mais importantes do NDH é justamente o Laboratório de História Oral, que reúne mais de 150 entrevistas transcritas e disponíveis para consulta. A história oral tem sido vista a partir de sua vertente temática, ou seja, são abordados, através de um roteiro básico de perguntas, questões que envolvem a trajetória dos narradores. Nesta comunicação serão enfocadas entrevistas com mulheres pescadoras artesanais de Pelotas, RS, cuja prática está sendo modificada, por alguns fatores, dentre eles a redução do pescado em lagoas existentes na região tendo em vista a poluição ambiental e, também, a atuação de empresas pesqueiras na atividade, que retiram o protagonismo dos pequenos produtores. As narrativas apresentam perguntas vinculadas à trajetória de vida de cada uma, com enfoque maior na constituição da família e, em uma segunda parte, revela aspectos da atividade laboral, explicitando ainda o cotidiano e as sociabilidades construídas. Trata-se de um texto inicial, que se propõe a construir um debate, tendo em vista que várias outras pescadoras e pescadores serão entrevistados no decorrer do projeto.