Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Formando operadores da heterossexualidade compulsória: das relações de gênero a uma sociologia da formação médica

*Rodrigo Otávio Moretti-Pires



A Medicina, mais do que um campo do saber em saúde, é a corporação profissional de maior prestigio social na sociedade brasileira contemporânea, observada sua ampla concorrência vestibular quando comparada com a de qualquer outra carreira. Tanto na conceituação de Eliot Freidson como de Michel Foucault, a partir do advento da Modernidade e de Epistemé Moderna é que esse ramo profissional conquistou legitimidade social e passou a estar em uma posição central para entender os mecanismos pelos quais o biopoder opera na Sociedade. As relações de gênero permeiam o mundo interno da profissão médica, sendo o objetivo do presente trabalho investigar as relações de gênero em termos de como o estatuto da Medicina constrói os futuros médicos, desenhando certa uma sociologia da profissão médica. Foram conduzidos três grupos focais com estudantes de um Curso de Medicina público. As categorias encontradas apontam que o curso de Medicina apresenta um currículo oculto que opera na lógica dos excessos, com um ideário médico conservador, masculinista e heteronormativo. Há constante prejuízo e práticas de submissão das mulheres no curso, tanto em termos das relações internas as disciplinas, como entre as estudantes e os estudantes. A violência contra a mulher é operada explícita e implicitamente. Pessoas LGBT são invisibilizadas, tanto em termos curriculares como em termos das relações sociais, em um processo de vigilância excessiva e constante dos estudantes para a adequação a um modelo que privilegia o homem heterossexual e os demais são abjetos. O papel do médico frente a saúde das pessoas é um fato inquestionável na Sociedade contemporânea – assim como em outras épocas. Constituído como um grupo de elite e privilégios, ao médico cabe o cuidado e a vida. No entanto, os significados desses termos – especialmente no que se refere a sua operação – são diversos e construídos através de feixes de relações que se sustentam na heteronormatividade, no patriarcado e no machismo. O interesse foucaultiano sobre os médicos apresenta inúmeros desdobramentos, entre os quais as relações entre corpo e as regulações da sexualidade. Da mesma forma, a corporação médica é foco de análise dos trabalhos de Eliot Freidson. O corpo também é tema de Butler e de outras autoras dos estudos feministas, das teorias queer, dos estudos de gênero. Corpo é domínio médico, é território da operação do biopoder. Em Foucault os sujeitos se constituem pelo corpo e pela sexualidade, assim como em Butler o corpo traduz ou o desejável/viável ou o abjeto/inviável, corpo aceito ou corpo descartado, mas sempre corpo. Em ambos autores, o sexo é como um lugar de verdade associado a dispositivo da sexualidade, um lugar crucial em que a verdade do sujeito será estabelecida/construída/moldada/formada/reproduzida. A Medicina está na vanguarda do biopoder, a serviço da biopolítica. Enquanto corpos docilizados, corpos disciplinados, permite-se ao médico a condução de frente das operações do biopoder nos corpos, já que a sexualidade é vetor de decisão e de intervenção (bio)política pela/para normalização e normatização dos corpos, comportamentos e, especialmente, produção de sujeitos assujeitados. Na vigência social da heteronormatividade compulsória, não seria de se esperar que fosse diferente justamente no curso de Medicina: o grupo de “heteros” é o mais valorado e, de certa forma, representado como o mais bem sucedido e detentor de privilégios. Não ficaram evidentes para mim quais seriam esses privilégios. Mas os estudantes entrevistados afirmam que eles existem. Especialmente aos Gays, também existe um lugar social reservado: enquanto úteis para ser foco de chacota, para serem filmados e ridicularizados, para darem instruções sobre sexo anal, opiniões sobre roupas e maquiarem suas amigas. Não se trata apenas de um curso universitário da saúde. Trata-se do curso de maior prestígio social e procura nos vestibulares. Em que medida, então, a identidade e a expressão de gêneros na Medicina podem ser pensadas como um marcador/preditor/traçador de trajetórias de gênero possíveis nesses jogos de relações de poderes da Sociedade? Quais são os espaços de resistência? Em que medida também a disciplinarização do ser humano, a fragmentação em disciplinas sustenta essas (im)possibilidades no âmbito da Medicina e de ser médica(o)?Por outro lado, nenhum dos relatos aponta para práticas sexuais e/ou orientação sexual, mas sim para as expressões e identidades de gênero em relação as pessoas LGBT, afinal de contas “tudo bem ser gay, só não seja afeminado”, conforme apontado em um dos grupos focais. Houve a percepção de que a trata-se de um curso de excessos: dedicação extrema, festas com casos extremos, violências extremas, vigilância extrema. Assim, a Medicina se refere à Medo, Poder e Violência, especialmente no que se refere à Gênero e Sexualidade. Quatro casos apresentados são emblemáticos: o rapaz que era “o açougueiro da Medicina” e se assumiu não heterossexual (nem como gay...); o rapaz trans que teve menos da metade de assinaturas de estudantes de sua turma em abaixo assinado para ter seus direitos garantidos; a moça que foi “a caloura mais puta” por que dançou quando e com quem quis; e as bruxas queimadas vivas, ou melhor, as moças que foram coagidas violentamente a dissolverem um coletivo de Mulheres da Medicina. Medo, Poder e Violência na docilização de corpos que produzem médicos-operadores do biopoder. Ao mesmo tempo em que os heteros são vigiados para apenas se relacionarem com “heteras” da Medicina, os gays se negam a esse comportamento.




......................

* Moretti-Pires
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA UFSC. Florianópolis, Brasil