Resumen de ponencia
ANÁLISE DA OBRA “ATITUDES RACIAIS DE PRETOS E MULATOS EM SÃO PAULO ” , DE VIRGÍNIA BICUDO, COM ÊNFASE NA FAMÍLIA E NA MULHER
*Marcela Regina Oliveira De Miranda
Tendo em vista o caráter revolucionário e pioneiro presente na obra Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo de Virgínia Leone Bicudo, que demonstra como o preconceito racial existe e opera nas relações sociais brasileiras sem a necessidade de estar atrelado ao preconceito de classe, intenciono a análise deste trabalho a partir da perspectiva dos processos de familiarização e, também, a partir da leitura de ausência da família.
Proponho um aprofundamento das questões levantadas pela autora, tal qual as formas e faces do racismo como ferramenta de exclusão, evidenciando as restrições sofridas pelos negros, além da imersão em questões que ficaram de fora da observação, como foi o caso das questões de gênero. Nesse sentido procurarei investigar o papel da mulher negra em nossa sociedade.
O presente paper tem como objetivo explanar a vida e obra, de uma grande socióloga e psicanalista negra que foi Virgínia Leone Bicudo. Com enfoque em sua tese de mestrado pretendo destacar os caminhos que a consagraram como pioneira, por trilhar diversos caminhos recém-abertos nas ciências sociais, como ser a única mulher na turma de graduação, participar de uma primeira turma de mestrado, revolucionar os estudos sociais ao apresentar o preconceito de cor como problema fundador da desigualdade social.
Graduada em Ciências Políticas e Sociais pela recém criada Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP), no ano de 1938 - sendo a única mulher da turma - tornou-se igualmente transformadora e pioneira na construção de pensamentos que inspiram as ciências sociais e humanas até os dias de hoje. Sob influência da Escola de Chicago (1920), que se caracterizava pelos estudos empíricos e interdisciplinares, sobretudo na área sociologia urbana - onde grandes nomes se consagraram, dentre eles Everett Stonequist, Ellworth Faris, Florian Znaniecki, Robert E. Park, Donald Pierson (seu orientador) -, a ELSP, criada em 1933, seguiu metodológica e teoricamente os passos norte-americanos. Adotando um pensamento interdisciplinar envolvendo Antropologia, Sociologia e Psicologia social, numa perspectiva empírica com tendência a desenvolver os estudos a partir dos eixos de problemas sociais urbanos e rurais.
Esse verdadeiro laboratório social conduziu Virgínia Bicudo a caminhos jamais percorridos e a resultados singulares, revolucionando o recente campo de estudos raciais brasileiros com constatações inéditas. É importante demarcar que Virgínia se posicionava com clareza e consciência sobre sua posição social como mulher e negra, tendo sua história pessoal grande importância e influxo sobre a interpretação e compreensão do problema racial, ao qual se dedicou com afinco ao longo de sua carreira.
Ao visitarmos sua obra intitulada Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos em São Paulo, desenvolvida ao longo do seu curso de mestrado durante os anos de 1941 e 1944, composta por análise documental, entrevistas e estudo de caso, podemos reconhecer a força em seguir uma postura contrária aos discurso preconizados em estudos tradicionais. Muitos dos quais apresentavam argumentos de que a heterogênea população brasileira seria harmônica no sentido das relações raciais, insinuando, por vezes, que a miscigenação era prova da inexistência do racismo, sugerindo ainda uma sociedade pautada na democracia racial.
ua análise atravessa trajetórias de vida próximas e distantes à sua, mas que dialogam e reforçam sua hipótese da existência do preconceito de cor, proposição que fundamenta sua pesquisa, sabendo que: “As atitudes sociais expressam o aspecto subjetivo da cultura e conduzem ao conhecimento das condições sociais que concorrem para sua formação.” (BICUDO, 2010, p.63).
É relevante mencionar que os relatos de pretos e mulatos sobre suas consciências e vivências nas relações entre pretos e brancos remete ao atualmente discutido ‘lugar de fala’. O trabalho, se pensado contemporaneamente, tem contornos que respeitam esse lugar, pois ao invés de dar voz para o problema do racismo garante e oferece o espaço para que muitas vozes, através de suas experiências cotidianas particulares e sociais, pontue o racismo como um problema social, como na canção de Mombaça (2016) intitulada lugar de fala: “Não quero saber de outra no nosso lugar de fala. Mulher preta no poder pra poder poder”.