A proposta deste colóquio tem origem na exposição de resultados parciais decorrentes de projeto extensionista e de pesquisa em curso, sob o título: Apoio às iniciativas de Economia Popular Solidária na Região Metropolitana de Belo Horizonte, cujo propósito é o de oferecer suporte técnico, jurídico e administrativo, no campo da gestão, em vários âmbitos, de empreendimentos econômicos solidários e seus espaços de formação, organização e articulação. Em decorrência, o esforço empreendido visa, em caráter processual e sistemático, maior capacitação técnica e social a grupos produtivos populares atuantes no campo da economia solidária. Prevê-se o fomento e o estímulo ao trabalho em redes, a participação em feiras de Economia Popular Solidária, eventos formativos e organizativos, visando o fortalecimento dessas iniciativas nos aspectos econômicos e sociopolíticos.
Implicado com as instituições UEMG/FaPP, PUCMG e FUNCESI que ofertam cursos de formação em nível de graduação e pós-graduação com ênfase na Gestão, as ações desenvolvidas no projeto contribuem para uma maior integração teórico-prática, bem como a indispensável interface entre o ensino, a pesquisa e a extensão, uma vez que a prática qualifica as ações junto à comunidade e não pode ser dissociada da teoria. Outro elemento importante do mesmo diz respeito ao papel social das Instituições de Ensino Superior - IES, pois que as ações extensionistas propostas oportunizam, no campo da gestão - e numa perspectiva inter/multidisciplinar - maior revigoramento desses empreendimentos solidários no enfrentamento dos desafios da gestão e da comercialização, como também a organização e articulação dos trabalhadores e trabalhadoras da economia solidária.
Os fundamentos norteadores podem ser sintetizados na busca da compreensão de que a Economia Solidária é um modo de produção de bens ou prestação de serviços, de comercialização e de consumo, cujo trabalho é realizado de forma coletiva e pautado nos princípios da autogestão, cooperação e sustentabilidade. Como se sabe, nessas iniciativas se fazem presentes uma diversidade de práticas econômicas e sociais, que oportuniza a democratização das relações sociais e considera o ser humano em sua integralidade, como sujeito e como finalidade da atividade econômica. As iniciativas da economia solidária são organizadas sob a forma de grupos produtivos, cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, produção de bens, prestação de serviços, finanças e/ou solidárias, comércio justo e consumo solidário. O trabalho é movido por uma forte consciência socioambiental em busca de um modelo de desenvolvimento sustentável e os resultados deste trabalho são compartilhados, sem distinção de gênero, raça ou idade.
Esta “outra economia”, de acordo com Singer (2004) representa uma importante estratégia no combate às desigualdades sociais produzidas pelo atual sistema capitalista. Nessas iniciativas, os trabalhadores e trabalhadoras buscam no trabalho coletivo e cooperado, novas alternativas de geração de renda, pautados por um conjunto de princípios e valeres, dentre os quais podemos destacar: a posse coletiva dos meios de produção e distribuição, a gestão democrática, a cooperação e autogestão, a valorização do trabalhado e dos trabalhadores.
Metodologicamente, numa perspectiva dialógica e participativa, o projeto está composto por ações extensionistas e de pesquisa-ação. As interações e as intervenções tomam espaço no próprio espaço nos quais os grupos se reúnem e articulam-se, quer em sua rotina cotidiana, quer na participação e engajamento em manifestações no espaço público ou locais de eventos formalmente estabelecidos, de modo a construir novos valores relacionados às relações de trabalho e práticas autogestionárias de empreendimentos econômicos solidários. A escuta ativa e a observação não participante incorporam demandas emergentes e deliberadas, as quais tem como objeto o alcance dos objetivos explícitos e implícitos dos empreendimentos acompanhados.
As ações propostas no plano de trabalho estão sendo desenvolvidas em dois empreendimentos econômicos solidários, desde abril de 2017, sendo um deles situado no Vale do Jatobá, Região do Barreiro, município de Belo Horizonte. O empreendimento é composto por mulheres catadoras de materiais recicláveis e denominado “Cooperativa dos Recicladores e Grupos Produtivos do Barreiro e Região” - COOPERSOLI. O outro empreendimento – o grupo “Mulheres Criativas” - tem a sua sede no Bairro Palmital, em Santa Luzia e, também, é composto por mulheres como evidentemente se observa no modo como se autointitulam. A produção se dá no campo do artesanato e confecção.
Incluíram-se, também, como ações do projeto acompanhamento das reuniões do Fórum Municipal de Economia Solidária de Belo Horizonte (FMEPS-BH) e do Fórum Regional de Economia Popular Solidária da Região Metropolitana de Belo Horizonte (FREPS-RMBH), buscando assim contribuir na construção de uma agenda positiva para o desenvolvimento dos empreendimentos econômicos solidários. É importante salientar que esses fóruns são espaços de formação, organização e articulação e neles participam lideranças dos empreendimentos solidários, Organizações não-governamentais, gestores públicos e Universidades. E mais, além do debate político e pedagógico acerca das demandas dos empreendimentos, ocorrem ações de formação de lideranças dos empreendimentos e construção de propostas para ações governamentais.
O colóquio se propõe, portanto, a compartilhar e pôr em discussão o percurso trilhado ao longo de um ano de trabalho junto aos empreendimentos em questão, no que têm de demanda e engajamento ao projeto de apoio, sabendo-se da parcialidade, mas também da consistência das descobertas auferidas até este ponto, condição indispensável para que se pense a continuidade e efetividade do mesmo.
Antecipando-se algumas reflexões, o grupo de acolhimento e apoio socioemocional a mulheres em situação de vulnerabilidade e violência, “Mulheres Criativas”, um dos empreendimentos incluso no projeto, nasce e é constantemente atravessado por questões ligadas à violência e ao trabalho, as quais são objetivadas e ganham visibilidade a partir de práticas cotidianas e de diferentes modos, em diferentes momentos e contextos. Assim, interpeladas por representações sociais em seu cotidiano, o processo de subjetivação transcorre como decorrência de imbricados intercruzamentos. Em tal dimensão compreensiva, a ação social assume relevância incomensurável, uma vez que constitui o tecido social forjado na experimentação de estados e da realidade concreta, que por sua vez se impõe imperativamente em ações sobre outras ações emergentes e necessárias ao enfrentamento do real. As relações sociais engendram modos de subjetivação e são, vale afirmar, perpassadas por suas relações de gênero, raça, classe social e sexo. Assim, são nos espaços do cotidiano de luta e resistência que travam, é que buscam se reconhecerem e ser reconhecidas nas diferenças e nas possibilidades de transformação de sentidos hegemônicos e das realidades de violência que lhes são próprias. No trabalho que realizam, se incluem, pois, o acolhimento de mulheres em situação de violência e no artesanato (como trabalho emancipador e reconstrutor de autoestima), o qual, por vezes, não somente assume representação de geração de renda, mas, sobretudo, um modo de recuperação do valor próprio e de sentido maior para a existência. Neste âmbito, o colóquio pretende pôr em debate, a partir de evidências empíricas, “Quais as representações sociais de violência e de trabalho consolidam-se no grupo “Mulheres Criativas”?
Por seu turno, o grupo de mulheres catadoras de material reciclável que constitui a COOPERSOLI, explicita a necessidade de apoio na disseminação e articulação de compromisso referente à incorporação de software específico de gestão integrada de empreendimentos cooperativos interligados em rede, capaz de suportar uma autogestão transparente, justa e equitativa dos benefícios decorrentes, na visão das principais lideranças do empreendimento. Nos embates técnico e sociopolítico, no âmbito do modo de gestão, que travam, acabam por reproduzir modelos reconhecidamente autoritários e distantes dos princípios cooperativistas. Resistem de um lado ao controle vertical, mas se ressentem quanto a falta de efetividade no trânsito na rede social construída e necessária à própria sustentabilidade institucional e de sua perpetuação. O empreendimento em si constitui uma alternativa de renda concreta, porém se junta a outras ocupações laborais individuais, as quais se vêm obrigadas a assumir como meio de complementação remuneratória. Os conflitos interfuncionais e de poder, naquele espaço, passam a tomar forma, pondo em dúvida o modelo cooperativo de articulação, mas não ao ponto de definitivamente romperem com o vínculo formalmente instituído. Aqui a questão que se coloca é: Como a demanda por informatização do processo produtivo reflete o modo como os princípios cooperativistas se inserem nas práticas cotidianas de autogestão de um empreendimento popular solidário de catadores de material reciclável?