Nos idos dos anos de 1970, grande parte dos clubes carnavalescos da cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, não permitia o ingresso de negros em seus bailes. Alguns clubes apostavam na proibição direta, enquanto outros o faziam de maneira velada, utilizando como instrumento de segregação o alto valor das entradas. Limitado também era o acesso dos negros aos chamados Blocos de Trio, que desfilavam pelas ruas da cidade durante o carnaval, formados basicamente por pessoas brancas de classe média. Apesar de estarem circunscritas ao universo carnavalesco, tais limitações eram representativas de toda a segregação a qual a população negra baiana estava submetida. Em resposta a esta crescente restrição, e influenciados pelas concepções então contemporâneas do Pan Africanismo e do Movimento Afro-Americano, incluindo aí desde os Black Panthers até Malcolm X, Martin Luther King Jr. e Angela Davis, bem como pelo movimento Black Soul norte-americano, um grupo de jovens negros residentes no bairro da Liberdade, organizou-se a partir do terreiro de candomblé Ilê Axé Jitolu, para poder viver o carnaval. Nascia assim, do ventre das periferias da cidade de Salvador, em plena ditadura militar, o bloco afro Ilê Aiyê, surgido com o objetivo de transformar o lazer em militância, ao propor a conversão do reino lúdico do carnaval em espaço de denúncia, luta e resistência negra, revivendo batalhas ancestrais sem deixar de mirar o futuro. A iniciativa despertou o interesse de jovens negros de toda a cidade, reverberando no surgimento de novas agremiações afrocarnavalescas como o Badauê, Malê Debalê e Olodum. Ao longo de sua trajetória, suas estratégias de atuação foram por diversas vezes questionadas, chegando a ser contestadas até mesmo por entidades do movimento negro brasileiro, que viam nessa atuação dos blocos afro um descompromisso com as questões que permeavam a realidade da população negra, omitindo-se de uma atuação política em prol de uma atuação meramente cultural, critica esta que ignorava toda a potencialidade das celebrações e festejos como elementos de atuação política. Alheios a seus opositores, os blocos afro engendraram mecanismos próprios de movimentação, capazes de utilizar a cultura negra como instrumento de mobilização, afirmação, politização e conscientização das massas. Nesse contexto, foi primordialmente através de sua música que tais agremiações transformaram as estruturas sociais da capital baiana, dando voz a coletivos historicamente excluídos, carnaval após carnaval. Passados mais de 40 anos, suas canções já não conseguem o mesmo sucesso comercial de outrora. Diante desse cenário, coube ao blocos a reinvenção de seus métodos, sem jamais deixar de terem a música como eixo. E foi justamente a partir do momento em que seus integrantes entenderam a música como elemento central de um projeto político-educacional mais amplo, que blocos como o Ilê Aiyê e o Olodum passaram a conceber a potencialidade de suas canções como instrumentos efetivamente pedagógicos, passíveis de serem convertidos em canais através dos quais seria possível transmitir às gerações vindouras, conteúdos e versões de uma História que a historiografia tradicional obscurece, travando uma verdadeira disputa pelo direito a uma narrativa do Brasil e, especificamente, do negro brasileiro. Tal opção acabou por ser materializada em instituições de ensino como a Escola Mãe Hilda, conduzida pelo Ilê Aiyê, e a Escola Olodum, capitaneada pelo bloco de mesmo nome, espaços criados para serem o lócus de efetivação do projetos político pedagógicos elaborados pelas agremiações. Sendo assim, o objetivo deste texto é refletir sobre o modo como os blocos afro Ilê Aiyê e Olodum fazem uso pedagógico de sua produção cultural como instrumento de conscientização, afirmação, contestação, resistência e aprendizado, tomando como unidade de análise seus projetos pedagógicos bem como o conteúdo de seus cadernos de educação e apostilas, publicações geralmente atreladas ao carnaval e que, por versar sobre os mais variados temas relacionados a afro-brasilidade, converteram-se em instrumentos fundamentais para os projetos pedagógicos levados a cabo pelos grupos, subsidiando aulas, ciclos de aprendizado, bem como a atuação de professores e coordenação escolar.