A proximidade histórica, cultural e política entre os Estados ibero-americanos caracterizou desde sempre, em níveis e ciclos diferenciados, a linha orientadora das respectivas políticas externas. Os temas como literatura, política, revolução, ciências sociais e identidade abrangem não só o universo da região latino-americana, mas também a portuguesa sendo que as ideias do chamado “Boom Latino-Americano” dos anos de 1960 e 1970 tiveram uma forte influência sobre determinados sectores da sociedade portuguesa e consequências para a vida política do país.
No caso de Portugal, as prioridades voltadas para a região latino-americana centram-se, tradicionalmente, na sua relação com o Brasil, não deixando outros Estados de exercer alguma influência determinante em períodos de transição política, como a verificada em 1974-1978, ou de crise política e económica (2009-2015), reflectindo-se esta em diversas formas de cooperação e estratégia governamental agora mais diversificada, incluindo países como a Venezuela, a Colômbia, o Peru, e o México, entre outros. Num universo onde a literatura e a política se entre-cruzam, encontramos em Portugal um conjunto de autores contemporâneos cujas estéticas ainda não foram sistematizadas criticamente, entre outros, José Saramago, Rogério Paulo, José Cardoso Pires, António Lobo Antunes, Almeida Faria, Mário de Carvalho e Alexandre Pinheiro Torres.
Com a consolidação democrática vivida após os anos 1980, a relação de Portugal com a América Latina é renovada num contexto decorrente da sua inserção no espaço da integração europeia - a criação do Grupo do Rio em 1986 e a institucionalização de um diálogo político, prosseguindo através de diversas cimeiras e acordos de associação estratégica -, e por meio de planos governamentais e relações bilaterais assentes em ideologias socialistas e social democratas.
No quadro das Cimeiras Ibero-Americanas, a dinâmica transformadora dos últimos anos favoreceu a aproximação estratégica, política e económica de Portugal aos países ibero-americanos com um interesse diferente daquele que os portugueses tinham em Guadalajara durante a primeira cimeira, em 1991.
Do contacto literário e cultural entre Portugal e a América Latina decorrem novas relações, novas perspectivas e novas obras, não numa cópia de modelos do boom – difícil, aliás, de concretizar, dada a heterogeneidade interna –, mas num renascer que parte simultaneamente da tradição literária portuguesa e das inovações do outro lado do Atlântico.
Com as eleições legislativas de 2015, o novo quadro político demonstrou a incapacidade de formação de um governo estável devido à ausência de maioria absoluta por parte do partido político vencedor, o Partido Social Democrata (PSD), e a rejeição do seu plano de governo. O apoio parlamentar de esquerda, através da Coligação Democrática Unitária (CDU) e do Bloco de Esquerda (BE), tornou-se, com efeito, a alternativa à formação de governo, desta vez liderado pelo Partido Socialista.
A presente comunicação pretende, assim, analisar o contexto político e ideológico que determinou as novas orientações do plano do governo para o período de 2015-2019, em que a identidade ibero-americana e lusófona assume um lugar de destaque na política externa portuguesa. Por outro lado, pretende-se identificar a capacidade de influência que os partidos de esquerda com assento no parlamento nacional têm exercido sobre o governo no sentido de assumirem posições políticas de apoio aos regimes latino-americanos actuais, mais especificamente, nos casos da Venezuela, de Cuba e do Brasil, países que, por diferentes razões, têm vivido transformações internas profundas, levando à adopção de tomadas de posição por parte dos seus parceiros internacionais.
O grupo de pesquisa, de acordo com o objectivo de estudo, desenvolverá o seu trabalho atendendo as linhas básicas de análise nas quais possui reconhecida experiência: sociologia da literatura, história política e relações internacionais, através da análise da bibliografia disponível, e a realização de entrevistas.