Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
EQUITY FOLLOWS TRADE: UMA ANÁLISE DE PROCESSOS GEOECONÔMICOS ENTRE CHINA E AMÉRICA DO SUL

*Alberto Nogueira



Neste início de século, o subcontinente sul-americano é marcado por um novo e impactante processo geoeconômico, representado pelo florescimento do intercâmbio comercial com a China e de um influxo de investimentos deste que se configura não apenas um novo, mas um importante parceiro. Após um período de lento e gradual estabelecimento de relações diplomáticas, que durou desde aproximadamente os anos 1970-80 até o fim do século passado, o chamado milagre chinês bate às portas da Região, ávido por seus mercados, pelas suas matérias primas e, na sequência, pelas suas oportunidades de investimento. Desse modo, antes de completar seu primeiro quintil, o século XXI já parece apresentar alguns dos principais contornos do quadro geoeconômico sul-americano, representados pelos relevantes fluxos econômicos que se consolidaram entre a Região e o gigante asiático.
As relações comerciais rapidamente evoluíram nos últimos dezesseis anos, de tal forma que a China figura, hoje, entre os principais - quando não, o principal - parceiros comerciais de quase todos os países do subcontinente. Nos países selecionados para o presente estudo, a saber, Argentina, Brasil, Equador, Peru e Venezuela, tanto as importações quanto as exportações passaram de aproximadamente USD 2 bilhões anuais para mais de USD 60 bilhões anuais no período. Os investimentos chineses na Região, por sua vez, vieram na esteira do comércio. O influxo anual se inicia com USD 3,4 bilhões, em 2005, e alcançou USD 16 bilhões em 2016.
Em relação ao comércio com a América Latina (e África), quatro são os objetivos principais da China: a obtenção de recursos naturais; uma posição mais favorável frente à questão de soberania sobre Taiwan; o apoio em foros e instituições multilaterais; e o acesso a mercados consumidores. Os investimentos chineses, por sua vez, estão ligados a cinco objetivos: recursos naturais, mercados, eficiência, acumulação de capital (principalmente em geração e transmissão elétrica) e aprendizagem tecnológica. Na perspectiva sul-americana, o impulso econômico decorrente do acoplamento à economia chinesa e o papel de destaque do Brasil nas relações da China com a Região são dois dos desdobramentos relevantes, decorrentes do aumento da presença econômica chinesa na Região.
A crescente presença da China na Região, primeiramente com o comércio e, na sequência, com o investimento, tem afetado a dinâmica geoeconômica regional em tal medida que pode, potencialmente, marcar o século XXI sul-americano. Fruto da ascensão de uma potência econômica de primeira grandeza, as relações sino-sul-americanas enquadram-se num amplo processo de mudanças nas posições dos países na divisão internacional do trabalho. Na perspectiva chinesa, o fornecimento das matérias primas à sua aparentemente inesgotável demanda e o acesso a mercados consumidores alternativos, em face da estagnação econômica dos mercados dos países desenvolvidos, parecem ser dois elementos de primeira ordem dos propósitos de desenvolvimento do país. Pelo lado sul-americano, não são visualizados com a mesma clareza nem os propósitos de desenvolvimento, nem tampouco de que modo a evolução dessas relações econômicas é canalizada para processos econômica e socialmente sustentáveis e capazes de superar a pobreza, as desigualdades e o subdesenvolvimento.
A história dos países sul-americanos mostra que o fornecimento de matérias primas está associado à trajetória de subdesenvolvimento, baixo nível de bem estar social e pobreza. A combinação de forte demanda por commodities com investimentos diretos na exploração das suas fontes sugere um longo ciclo de canalização destas para a Ásia, com a consequente consolidação do atrelamento à dinâmica econômica asiática. São questões de movimento de curto e de longo prazo colocadas a partir dessa nova relação econômica.
Devem ser avaliadas as potencialidades e os limites para o fornecimento de matérias primas financiar algum processo mais amplo e profundo de desenvolvimento das forças produtivas nacionais e ainda alavancar transformações no nível de renda e bem estar das populações e das regiões. Qualquer aceno nesse sentido passa por um conjunto abrangente e complexo de políticas públicas - comercial, industrial, regional e distributiva - que canalizem a riqueza gerada com as exportações primárias para setores econômicos, subregiões, grupos sociais e serviços públicos - infraestruturais e sociais - de modo a reorganizar a matriz produtiva, prover serviços públicos com qualidade e universalidade e reduzir desigualdades regionais e sociais.
Desse modo, a questão que se coloca é se os elementos de aprofundamento das relações econômicas - comércio e investimentos - entre a China e a América do Sul convergem para que propósitos de desenvolvimento econômico e para que posições na divisão internacional do trabalho? O presente estudo adota a hipótese de que os interesses chineses e sul-americanos são convergentes no curto e no médio prazos (comércio e capital). Porém, mantida a tendência, a consecução dos propósitos chineses para com a Região lhe colocará, no longo prazo, numa posição menos favorável à superação do subdesenvolvimento. Essa complexa dinâmica geoeconômica conforma as recentes mudanças nas posições dos países na divisão internacional do trabalho. Possivelmente conformará as posições que distinguirão os séculos XX e XXI.




......................

* Nogueira
Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul PPGEEI/UFRGS. Porto Alegre, Brasil