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Resumen de ponencia
As tensões da representação feminina no campo político

*Camila Kulkamp



Esse trabalho aborda a representação política das mulheres ou, mais especificamente, a não representação política das mulheres ou a exclusão das mulheres do campo político. Tal questão é tratada na academia pelo estudo do fenômeno da sub-representação política das mulheres (AVELAR, 1996; ARAÚJO, 1999; ÁLVARES, 2004; SACCHET,2008; MIGUEL, BIROLI, 2010). Mas é importante buscarmos um aprofundamento nessa discussão que se propaga. Seria uma sub-representação ou uma exclusão sistemática com esforços econômicos, políticos e simbólicos as causas pelas quais as mulheres não atingem uma paridade na representação política e os altos postos de decisão? Quem definiu o que seria e a quem interessa o fenômeno de uma “sub-representação” das mulheres do campo político?
Analisar a representação é entrar em um campo altamente complexo. O mapa semântico do conceito de representação abarca diversas línguas e gerou diferentes interpretações ao longo da história. Mas na contemporaneidade a ideia de representação é associada comumente a outros conceitos como democracia, liberdade e justiça (PITKIN, 2006). Temos o conceito moderno de representação, cunhado a partir do surgimento das instituições modernas, enquanto representação formal, no qual o representante possui a autorização para atuar em prol de interesses alheios, e com a perda e limitação da encarnação e da vontade, antes elementos presentes na ideia de representação difundida na antiguidade e no medievo (PITKIN, 1984).
Na modernidade, a partir da separação entre o corpo dos representantes e a vontade dos representados, e com a especialização profissional dos políticos, começa a aparecer uma crescente distância entre a massa da população e a elite política, distância essa que segue de perto as clivagens sociais. É possível, a partir desse fenômeno, observar a continuidade de um ciclo de realimentação onde “os prejudicados pelos padrões de desigualdade têm maior dificuldade de se fazer representar”, e que ao mesmo tempo, a ausência da minorias nos processos decisórios reforça a reprodução das desigualdades (MIGUEL, 2014, p. 301).
No debate acerca da representação política das denominadas minorias políticas, existe uma tensão levantada quanto à ausência do objeto representado, as minorias políticas, que salientam a realidade “inconveniente” de uma exclusão política histórica. A partir do delineamento de uma ordem política moderna liberal, pensar em políticas que visem implementar ou aumentar a presença de grupo excluídos nos espaço políticos soa como uma ruptura com a concepção moderna de representação política. A principal questão que ressoa é: como identificar e controlar a distância entre o princípio político da representação e a unidade e identidade de quem é representado? Pitkin (1967) critica a ideia da representação descritiva, a qual define como aquela que se preocupa com a composição e com as características dos representantes. Entende a autora que não há uma correlação exata entre a representação das características dos representados no representante, além de que este tipo de representação tende a reduzir a accountability e o foco nas atividades efetivas dos representantes.
Ocorre que, de fato, já existe um grupo de pessoas que ocupa o campo político e os postos mais elevados de decisão, e o “paradoxo da identidade” não é aplicado para questionar os corpos que representam esse grupo. Ou seja, já existe uma representação descritiva em curso ou um monopólio da função representativa. A lógica do campo já está encarnada em um corpo específico e o princípio representativo já é exacerbado em uma identidade específica. Dessa forma, questionamos o porquê de escamotear o fato de que existem alguns grupos já representados em corpo no campo político? Por conseguinte, a contraposição entre a representação descritiva e a representação substantiva de Pitkin (1967), ou política de presença e política de ideias de Phillips (1995) só se apresenta para quem não consegue se representar na luta social e para quem não tem chances de ocupar o campo político com seu corpo (corpos subalternos).
A diferença dos sujeitos subalternos, e, do sujeito subalterno feminino, marcado por uma estrutura da exploração a partir da divisão internacional do trabalho e pelas relações sociais patriarcais (SPIVAK, 2010) são importantes para entendermos qual a medida da incapacidade de fala e dos valores atribuídos às mulheres no campo político. O sujeito subalterno se coloca em oposição ao homem branco, esse entendido enquanto uma “metáfora do poder, do sujeito do privilégio, da figura autoritária alicerçada no acobertamento das relações que envolvem os aspectos gênero e raça, sexo e classe, idade e corporeidade” (TIBURI, 2018, p. 41)
Partindo do pressuposto que já existe um corpo encarnado no campo político, e que não existe uma independência entre o campo social e o campo político, o fenômeno da sub-representação das mulheres não pode ser entendido como um fenômeno autônomo ou de responsabilidade exclusiva de grupos específicos, como das qualificadas minorias políticas. As mulheres não são sub-representadas porque não possuem espaço no campo político profissional. A sub-representação é um efeito do processo que as mulheres vivenciam, de não possuírem voz e corpo no campo social e no campo político profissional. O fenômeno da sub-representação invisibiliza a questão central que é: as mulheres fazem parte de um grupo social que não tem voz e corpo. Que o corpo das mulheres não é representado, ou é representado como corpo subalterno. Como esperar, assim, que as mulheres consigam se representar na política?
Se na economia dos bens simbólicos a lógica que comanda é da distinção, a existência de um grupo não se dá apenas pela sua diferença, mas por ter reconhecimento legítimo entre seus pares, além de garantias jurídicas e políticas de existência (BOURDIEU, 1989), e na medida em que as mulheres, de forma persistente, não conseguem adentrar no campo político profissional, questionamos se existe uma tensão entre o campo político profissional e a existência social das mulheres profissionais da política? Ou seja, quanto mais seguem as diretrizes do jogo do campo político profissional, mais essas mulheres são obrigadas a se distanciar do lugar de subalternidade social para buscar a incorporação do perfil ideal no campo político.
Entretanto, no mesmo conjunto de mulheres políticas profissionais existem diferenças disposicionais (LAHIRE, 2017), a partir do que tais mulheres encarnaram nas suas trajetórias no campo político, definido pelo nomos ou perfil ideal do profissional que representa o campo. Com base na pressuposição de que o indivíduo é um produto complexo de múltiplos processos de socialização, queremos realizar um estudo da economia das lógicas sociais individualizadas em um grupo, para saber como as mulheres políticas incorporam as leis do campo, como resistem ao perfil ideal, quais os tipos de dificuldades que enfrentam para posicionar seus corpos no campo político, e quais as diferenças de seus procedimentos cognitivos.
Temos por hipótese que as disposições incorporadas a partir de experiências socializadoras, segundo Lahire (2017), vão formando corpos distintos que se aproximam mais ou menos das leis gerais que governam o campo político profissional e que são amparadas pelos agentes dominante do campo (nomos). Ou seja, as mulheres que tendem a assumir menos suas representações subalternas, a incorporar mais o habitus masculino (BOURDIEU, 2012), enquanto sujeito do privilégio, que se identifica com a masculinidade, branquitude, regionalidade, o pertencimento de classe, etc., tendem a adquirir mais capital ao aproximar-se do perfil ideal de político que o campo produz. E as que tendem a assumir e confrontar o tipo ideal que o campo requer, enfrentam mais obstáculos no campo político, ou quanto mais subalterno o corpo, mais difícil a representação devido a luta pelo poder político no campo.
Esse trabalho faz parte do projeto de pesquisa do mestrado em Ciência Política que realizo no momento. Para o estudo teórico e produção das perguntas das entrevistas que realizaremos com as políticas, utilizaremos as reflexões de Carole Pateman para compreender a inserção diferenciada das mulheres no campo político, a partir da conciliação entre patriarcalismo e liberalismo e as limitações da democracia representativa liberal, conjuntamente com os estudos de Silvia Federici sobre a representação da feminilidade enquanto uma relação de classe, uma função de trabalho exercida pelas mulheres para acumulação de capital.
E também partiremos das obras de Pierre Bourdieu e Bernad Lahire para fazer a análise dos dados coletados a partir das entrevistas, com o objetivo de entender como a posição das políticas, a partir de suas propriedades intrínsecas e relacionais, incide na compreensão da probabilidade de acesso a ganhos econômicos, políticos, simbólicos ou aos princípios de construção do espaço social destas agentes no campo político, a fim de perceber os dilemas e as dificuldades que as mulheres encontram neste campo, visto que, a partir da sociologia disposicional podemos encontrar as contradições, as negações e os sentidos fortes ou fracos das disposições (habitus) das “políticas profissionais” e mapear de que lugar falam e como esse lugar as coloca diante do universal sujeito político, cunhado na conciliação entre patriarcalismo e liberalismo.




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* Kulkamp
Universidade Federal do Pará UFPA. Belém, Brasil