A região Sudoeste do Paraná, ocupada historicamente por indígenas e caboclos possui um longo período de conflitos agrários, alguns deles perdurando até a atualidade. Essa história perpassa vários setores políticos, entre eles a educação, e o direito a uma educação vinculada a realidade camponesa. A ASSESOAR, Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural, enquanto uma associação de agricultores(as) é uma organização que se insere e escreve coletivamente essa história, procurando defender e ampliar os direitos da população do campo e da cidade.
A problemática de nosso trabalho percorre alguns fatos marcantes para discorrer a respeito da educação pública do/no campo. Em primeiro, o fato marcante é a partir do momento em que as companhias colonizadoras iniciam um processo de concessão de terras à empreiteiras e também da grilagem de terra que as companhias imobiliárias queriam consolidar no papel. Esses processos de grilagem envolveram o Estado, a sociedade civil e grupos privados nacionais e estrageiros (KOLING, 2018). A Revolta dos Posseiros, foi a resposta mobilizada à essas injustiças cometidas tanto pelo Estado quanto pelas companhias, que expulsavam as famílias de agricultores e agricultoras da região. Tal mobilização social sedimentou uma organização com capacidade capilarizada em diversos espaços da sociedade camponesa, seja na construção de estradas, construção de escolas, igrejas, chegando ao ponto de consolidarem uma proposta local de crédito rotativo entre as famílias agricultoras.
A partir de meados do século XX, intensifica-se a migração dos povos do campo para a cidade, provocada pelo modelo capitalista de agricultura, baseado na concentração da terra e no aumento da produção agrícola para exportação, servindo, ao mesmo tempo, para garantir a mão de obra para o projeto da expansão da industrialização nas cidades. Neste contexto, concebeu-se a Educação Rural com o objetivo de preparar a juventude para o projeto de modernização da agricultura, sob controle do capital industrial, parte dele organizado nas empresas rurais e para o trabalho fabril nas cidades, ou seja, a organização da educação rural assentava-se diretamente nas novas necessidades do desenvolvimento capitalista. Contudo, os sujeitos do campo não foram considerados na construção do projeto escolar, este era elaborado a partir do entendimento dos gestores, o que levou os sujeitos a reivindicar uma educação com e a partir dos sujeitos que vivem no campo, uma educação a partir da sua realidade. Uma educação no/do campo e não somente no campo. Educação com os sujeitos e não para os sujeitos.
A escola do campo, com um projeto pedagógico que considera as diferenças e as semelhanças nos aspectos sociais, culturais,econômicos, políticos se conecta às condições dos povos do campo na dinâmica geral do capitalismo. Essa conexão só é possível na relação com os movimentos sociais e a comunidade para entender a sua realidade e, a partir dela, buscar novas soluções para os problemas existentes nessa realidade.
A educação no/do campo é construída, como Caldart (2007) afirma: dos seus sujeitos e não para os sujeitos.
A educação do campo é um conceito cunhado com a preocupação de se delimitar um território teórico. Nosso pensamento é defender o direito que uma população tem de pensar o mundo a partir do lugar onde vive, ou seja, da terra em que pisa, melhor ainda: desde a sua realidade. Quando pensamos o mundo a partir de um lugar onde não vivemos, idealizamos um mundo, vivemos um não-lugar. Isso acontece com a população do campo quando pensa o mundo e, evidentemente, o seu próprio lugar a partir da cidade. Esse modo de pensar idealizado leva ao estranhamento de si mesmo, o que dificulta muito a construção da identidade, condição fundamental da formação cultural. (CALDART, 2002, p.97)
A educação popular que tomava corpo em vários rincões do Brasil, fazia ao mesmo tempo, a denúncia da realidade desigual e da prática alheia a realidade do campo, como também o anúncio de possibilidades do povo construir sua própria história (FREIRE, 1983). É a partir da metodologia da educação popular de valorização dos saberes e sua sistematização que nos movimentos sociais camponeses o surgimento da Articulação Nacional Por uma Educação do Campo, pois foi a partir alfabetização em EJA – Educação de Jovens e Adultos - promovida pelo MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que realizou-se o primeiro ENERA - I Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária, realizado em Brasília.1 Desse encontro, nasce o desafio de pensar a Educação do Campo. Assim, em 1997, com participação de vários movimentos e organizações populares, foi criado um grupo de trabalho que formulou as ações que iniciaram o caminho da Educação do Campo.
Em 1998, é instituída uma coordenação Nacional com cinco organizações: MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, UnB – Universidade de Brasília, UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância e a Juventude, e UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura, destinada a preparar a “Conferência Nacional Por Uma Educação do Campo”. Nessa conferência, foi criada a Articulação Nacional Por Uma Educação do Campo, manter a luta pelo direito à educação aos povos que vivem no campo, uma educação com qualidade, a partir de sua realidade, considerando a sua cultura, seus conhecimentos, enfim, os desafios e contradições da sua vida na sociedade capitalista.
Este ano está completando 20 anos de educação do campo, neste 20 anos foram conquistadas leis, elaboradas diretrizes, realizadas muitas experiências nas escolas no/do e elaborados vários materiais didáticos. A educação do campo trilhou um caminho pela defesa da educação pública do campo, pelo direito de estudar onde vive, a denúncia e reivindicação do direito a uma educação vinculada a realidade do campo. O contexto de fechamento das escolas do campo vem sendo nítido e a resistência das comunidades, organizações e movimentos dos setores camponeses, fruto das lutas de classe, têm o papel de ajudar a construir, fortalecer e sustentar a proposta da educação do campo encarando a escola como um lugar vivo e que deve ser construído coletivamente.
A Assesoar fez parte desta construção e ainda aponta que no plano pedagógico e político, a partir da relação das escolas do campo com a agricultura familiar e camponesa, um viés pela agroecologia pode anunciar que o direito de permanecer no campo é intrínseco ao direito à educação vinculada com a realidade e assim construir uma possibilidade de uma escola para a vida.
REFERÊNCIAS
KOLING, José Paulo. A luta pela terra no sudoeste do paraná: a revolta de 1957. In: MENDONÇA, Joseli; SOUZA, Jhonathan (orgs.) PARANÁ INSURGENTE: História e Lutas sociais. São Leopoldo: Casa Leiria, 2018
KOLLING, Edgar Jorge; CERIOLI, Paulo Ricardo; CALDART, Roseli Salete (orgs). Educação do Campo: identidade e políticas públicas/ Brasília, DF: Articulação Nacional Por Uma Educação do Campo, número 4. 2002.
FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação?. 8ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983