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Resumen de ponencia
E-diplomacy e imperialismo 4G: quais perspectivas para a América Latina?

*Vanessa De Souza Oliveira



O colapso financeiro de 2008 e a opção das elites políticas pelas chamadas medidas de austeridade econômica como forma de remendar o sistema financeiro acirraram a crise de representatividade das democracias liberais e desencadearam revoltas populares por todo o mundo. Ainda que revoltas espontâneas diante de crises político-econômicas profundas sejam comuns na história, os levantes pós-2008 seguiram a onda que se iniciou nos movimentos de Seattle, em 1999: foram permeados pelo – e em boa parte derivados do – uso internet, levantando inúmeros debates sobre o papel das redes sociais nas novas formas de se fazer política, protestar e gestar/organizar movimentos sociais (Cardon e Granjon, 2010; Castells, 2012; Harvey et al., 2013). Foram eles: os protestos contra o resultado eleitoral no Irã em 2009, que ganharam o apelido de "Revolução do Twitter/Facebook" (Morozov, 2009); os movimentos contra os regimes árabes que se espalharam como rastilho de pólvora, da Tunísia ao Egito, do Omã ao Cazaquistão, da Argélia à Jordânia e ao Djibuti (Faris, 2012).Enfim, da derrubada de Viktor Yanukovich na Ucrânia à escalada do autoproclamado Estado Islâmico (Guidère, 2016) pelas ruínas do Iraque e da Síria, a massificação do uso político das novas tecnologias e mídias seu protagonismo.
Tamanha movimentação na base da pirâmide não passaria ao largo dos órgãos governamentais encarregados das Relações Exteriores (McCarthy, 2015; Carr, 2012; Mueller, 2010; Rosenau e Singh, 2002; Choucri, 2012; Drezner 2004). Face ao grande fluxo de informação passando pela internet, o governo dos Estados Unidos começou um profundo processo de informatização do Departamento de Estado (Nocetti, 2012). A administração democrata de Barack Obama decidiu assumir a transformação da web em ferramenta de controle geopolítico, intensificando o processo de modernização das Relações Exteriores e disseminando amplamente o uso das novas tecnologias em seu modus operandi (Nocetti, 2011). Sugiram assim novos acordos com grandes empresas privadas do setor para colocar as novas mídias no epicentro da atividade política e diplomática (Rioux, 2014).
O alto poder de influência do capital privado na política e, principalmente, na política externa dos países, não é um fenômeno novo – pelo menos desde o surgimento das democracias burguesas, ele se traduz em lobbies, no financiamento privado da atividade política ou nas relações derivadas da simples proximidade de classe entre membros de governos e da elite econômica. Mas este fenômeno, ganha novos contornos com o aumento da importância das transnacionais de comunicação (Martin, 2013; Barber, 2013), já que elas deixam ainda mais tênues as fronteiras formais entre política de Estado e estratégia corporativa.
É neste contexto de debate sobre o papel das redes nas revoltas e movimentos populares das primeiras décadas do século XXI, que uma série de documentos vazada pelo Wikileaks revelou a influência de think tanks e empresas de tecnologia dos Estados Unidos durante tais acontecimentos políticos, levando a análise desse fenômeno a outro patamar. Twitter, Facebook, Google e Wikileaks, entre outros, consolidaram suas posições no centro das tensões diplomáticas e das disputas políticas internacionais (Morozov, 2009; Howard, 2015; Fuchs, 2014, Ezratty, 2017; Les Echos, 2017). Ficava claro assim, como o controle do espaço virtual se tornara parte vital do Soft Power (Nye, 2004-2008) da administração Obama.
Whistleblowers (termo em inglês para a pessoa que revela informações ou vaza documentos que atestam conduta ilegal ou criminosa de organizações públicas ou privadas) trouxeram à superfície o lado perverso da novidade tecnológica: as obscuras relações do Google com o Departamento de Estado estadunidense (Assange, 2014); o uso de computadores pessoais e smartphones para a vigilância de cidadãos comuns pela NSA, que escandalizou o mundo ao ser escancarado por Edward Snowden. Entendeu-se aí que os algoritmos não eram só ferramentas para contas e pesquisas como pensávamos, mas que suas combinações reforçavam preconceitos e a conseqüente exclusão de alguns grupos na sociedade (Ver estudos de Catherine O’Neil), além de ter o poder de influenciar campanhas políticas, como ficou comprovado mais tarde no escândalo dos dados vendidos pelo Facebook às campanhas de Donald Trump e pela saída da Inglaterra da União Europeia, o Brexit; o comando de voz dos celulares deixou de ser tão interessante e prático quando descobrimos que conversas pessoais – triviais ou não – são gravadas; na América Latina, por fim, redes organizadas por Facebook e Whatsapp tornaram-se grandes ferramentas de disseminação de fake news, impossibilitando muitas vezes o debate político e fomentando discursos fascistóides por todo o continente.
Como consequência, a academia passou a problematizar cada vez mais o que se convencionou chamar “internet das coisas” (Howard, 2015) e, finalmente, a devolver as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) ao debate marxista (Fuchs 2016; Srnicek, 2017; Laval e Dardot, 2015), em contraposição às análises que tendiam ao determinismo tecnológico.
Nosso trabalho, à luz deste debate crítico sobre a internet, analisa o lugar ocupado por estas empresas que se converteram em agentes diplomáticos, em lobistas do sistema financeiro internacional, em interventores geopolíticos – ou pseudo-promotores da democracia –, a partir da expansão do uso de suas ferramentas pela diplomacia estadunidense oficial.
Alinhamo-nos a Greg Elmer que, em 2012, elencou três pontos como necessários à categorização de um trabalho crítico sobre a internet:
1) refutação e questionamento das ideologias que afirmam que a internet é por si mesma revolucionária;
2) análise do “processo de corporativismo e portabilização da internet;
3) foco nas possibilidades radicais das comunidades que se formam na internet, no sentido de abrir brechas nas formas de dominação que caracterizam o uso capitalista da internet.
Christian Fuchs acrescenta que os estudos críticos e a crítica da economia política da internet são fruto principalmente da teoria crítica da Escola de Frankfurt e da crítica da economia política, de Karl Marx e não devem, portanto, se esquivar da teoria social geral, da análise do capitalismo e da análise crítica dos meios de comunicação, tecnologia e comunicação. (Fuchs, 2016, p. 72).
É importante atentar porém ao fato de que todos esses pensadores da tradição acadêmica ocidental tratam das implicações da internet em espaços no norte do planeta, com algumas exceções para a atenção que recebeu o Oriente Médio na chamada Primavera Árabe – lembrando que, dentro desses eventos, já temos informações sobre o papel que desempenharam importantes think tanks ligados a empresas estadunidenses com longa e sólida relação com o governo dos Estados Unidos. Esta reflexão nos leva a acrescentar aos pontos elencados por Elmer e Fuchs um outro ponto, específico do sul global: a identificação dos métodos usados pelas empresas de tecnologia do norte e a análise de possíveis ações imperialistas no campo das comunicações.
Uma vez que as plataformas e os hardwares disponibilizados pelas GAFAM (como são chamadas as empresas Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft) são facilmente absorvidos nas nossas sociedades, seja pela ausência crônica de espaços de expressão e intercambio, seja pela ausência de investimentos em inovação. Esses fatores, que chamaremos endógenos, foram muito estudados por Armand Mattelart nos anos 1970 durante sua estadia pela América Latina (Mattelart, 1965; 1983; 1982). Além de suas análises sobre o papel das elites locais na recepção de orgãos e empresas de comunicação, ele desenvolveu importantes análises acerca da natureza das empresas transnacionais do ramo e a carga ideológica trazida pelos seus conteúdos.
É com base nestes antecedentes históricos e nesta perspectiva crítica que pretendemos discutir o papel dos grandes conglomerados de comunicação no jogo geopolítico e, claro, avaliar quais desafios e ameaças à soberania tecnológica e comunicacional da América Latina podem ser vislumbrados quando a internet – até pouco, proto-bastião da democracia e da liberdade - vive seu momento mais monopolista e oligárquico. Quais são os grandes desafios para as frágeis democracias latino-americanas frente à investida das chamadas GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft) e o que suas atuações regionais podem significar para o continente no novo contexto de autoritarismo neoliberal que vem se configurando desde o início da década?




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* De Souza Oliveira
Universidade Federal do ABC / Université Paris VIII UFABC/ Paris VIII. São Paulo/ Paris, Brasil