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Resumen de ponencia
Redes de Formação Docente

*Sueli De Lima Moreira



O esforço de reconfiguração da formação de professores e pesquisadores no Brasil é marcado pelo desafio da aproximação entre os campos das ciências da educação e das ciências sociais. Para Gramsci (1978) cada grupo social cria para si seus intelectuais que atuam como “organizadores de homens”. Souza (2016) e Sousa Santos (2014) contribuem: para o primeiro maioritariamente os intelectuais brasileiros trabalham para justificar a concentração de riqueza. O segundo, compara o pensamento moderno ocidental a um pensamento abissal, se estrutura através de distinções visíveis e invisíveis que dividem a realidade social: dos colonizados e dos colonizadores. Se a produção intelectual oculta ideologias, as pesquisas participativas podem nos auxiliar a nos descobrir. Buscando colaborar com estes deafios um grupo de professores, de escolas e universidades públicas reuniram-se, se auto intitulando Coletivo Investigador num Projeto de Extensão. O fórum de relações entre escolas e universidade teve como objetivo articular pesquisa ao cotidiano escolar. A metodologia adotada foi a pesquisa-ação pedagógica (PAPe), (Franco, 2016) e os resultados indicam a necessidade de maior aprofundamento do conceitos de educação pública, democrática e laica na formação de professores.
A opção pela pesquisa-ação pedagógica como método de investigação expressa um posicionamento acerca da sociedade e da educação. Compreendendo a educação como prática social, que reúne saberes de distintos grupos, buscou-se a construção de um contexto colaborativo para a pesquisa, em que todos os participantes são ao mesmo tempo sujeitos e pesquisadores na produção de conhecimentos.
Para Franco (2016), pesquisar educação é atuar em meio a uma concepção metodológica que supera a concepção dualística que pensa o objeto em separado do sujeito. Essa concepção não corresponde a uma concepção subjetivista, mas a outra racionalidade para a pesquisa em educação. A autora afirma que a pesquisa em educação tem uma perspectiva eminentemente pedagógica, pois estuda as práticas educacionais por meio da participação dos próprios sujeitos, agindo também no campo da formação dos envolvidos, transformando-os. Essa opção pressupõe a integração dialética entre o sujeito e sua existência, entre fatos e valores, entre pensamento e ação e entre pesquisador e pesquisado. (FRANCO, 2016)
Para iniciar o trabalho foi necessário nos perguntarmos o que deveríamos fazer quando somos o que queremos interpretar e conhecer? Quando fazemos parte do que chamamos de “objeto de conhecimento”, ou seja, aquilo que queremos conhecer e interpretar?
A pesquisa foi desenvolvida buscando elaborar condições que nos permitissem que as relações entre universidade e escolas fossem experienciadas de forma horizontal, de modo que pudéssemos acessar os saberes que nascem dessa reunião. Queríamos a emancipação e o empoderamento de professores através de processos de investigação partilhada, um trabalho com professores e não para professores pois sabemos que quando compreendemos nossa prática temos mais poder para transformá-la.
A pesquisa-ação voltada para a formação contínua de professores foi denominada por Franco (2016) de pesquisa-ação-pedagógica, pois tem a formação como objetivo principal.
A dinâmica de um processo formativo centrado na escola, como propomos, vincula o ensino à pesquisa e a pesquisa à extensão, objetivando formar o professor, como profissional, capaz de compreender e atuar na realidade educacional contemporânea; da mesma forma que cria condições para a universidade expandir seu papel social. A pesquisa configura-se espaço de formação articulado à extensão universitária, como “braços” da universidade que, através do diálogo e compromissos pactuados, ampliam a ação universitária para estar em algumas escolas do município. Por outro lado, busca, também, trazer para dentro da universidade o que Sousa Santos (2010) propõe como “extensão às avessas”, quando se constrói condições de outros saberes e atores atuarem no interior da universidade, convidando os professores das escolas a refletirem juntos com os estudantes universitários em espaços de formação continuada.

Algumas contribuições formuladas a partir da investigação
Destacamos a seguir aspectos comuns nas falas de todos que nos ajudam a compreender, na perspectiva de futuros e atuais professores, a formação docente no Município de São Gonçalo:
- Trabalhando em condições precárias, professores muito rapidamente se tornam insatisfeitos com suas carreiras profissionais e, o que nos parece mais grave, com pouco instrumental para ressignificar os sentidos da prática cristalizados no seu cotidiano escolar. O que, afirmam, geralmente implica em mais vulnerabilidade do fazer docente, instaurando um ciclo negativo de trabalho, que, acreditam, pode ser rompido através da instauração de espaços de trabalho reflexivos nas escolas e nas universidades públicas.
- As escolas são caracterizadas como espaços de muita contradição: se por um lado há no cotidiano escolar saberes e potenciais que precisam ser valorizados, revelados e amplificados, por outro, afirmam que há também muita improvisação, pouca reflexão e muita precarização de processos das condições de trabalho.
- Para o grupo, nós professores precisamos compreender mais detalhadamente as dimensões a dimensão pública do trabalho escolar, pois afirmam que estas ainda são um desafio enorme nas redes escolares públicas. Muitos professores, não compreendem a escola como um espaço de garantia de direitos, de produção da diversidade, de conquista da justiça social. Nesta perspectiva, assumem, constantemente, uma perspectiva privada, baseada em seus credos e valores, desconhecendo as dimensões públicas que devem marcar sua atuação quando atuando nas escolas públicas.
- Admitem que há muitas práticas pedagógicas perpetuadoras de preconceitos e desigualdades por não estarem fundamentadas nas dimensões públicas das escolas. Por outro lado, o grupo afirma que há muita resistência entre os estudantes que, cada vez mais, cobram de professores que tornem as escolas um espaço de todos, querendo ser respeitados em suas diferenças. Estas cobranças de estudantes se manifestam tanto nas ocupações realizadas pelos estudantes nos espaços físicos da escola, como na própria violência cotidiana que promovem em comunidades escolares muito autoritárias.
- A tensão entre autonomia escolar e a gestão promovida pelos sistemas de ensino sobre as escolas é outro ponto do debate em torno dos desafios para a conquista da dimensão pública na educação. A tensão entre a necessidade das escolas de viverem processos independentes e os sistemas que dizem precisar avaliá-las continuamente é grande. A construção conjunta do Plano Municipal de Educação de São Gonçalo, realizado em 2015/16, é apontado como uma experiência ação pedagógica democrática que, apesar das contradições que absorveu na sua forma final, se constituí numa conquista compartilhada entre escolas/secretarias e universidade pública.
Considerações e perspectivas
O exercício investigativo de repensar a formação de professores em São Gonçalo/RJ, exigiu que nos posicionássemos acerca de nossa concepção de professores e de formação. Para o desenvolvimento de parcerias entre escolas e universidade, voltada para a formação docente, achamos necessário reunir diferentes pontos de vista num trabalho em grupo. Queremos avançar coletivamente em relação às posições teóricas que através de uma racionalidade técnica externa a nossa realidade nos formata previamente, impedindo o desenvolvimento de nossa autonomia docente. Nós, professores atuantes em áreas periféricas, em continentes também periféricos, buscamos superar a distância entre teoria e prática, tão comum em nosso campo de trabalho, experienciando um processo de formação que nos permita ir além dos processos pedagógicos colonizados, aqueles construídos por outros a partir de realidades distintas das nossas.
A experiência que vivenciamos em conjunto nos mostrou que a pesquisa-ação pedagógica (PAPe) é importante ferramenta de formação para nós, pois se move numa racionalidade diferente da que vem orientando a formação profissional de professores. Através dela nos aproximamos de metodologia que nos respeita como sujeitos de nossas próprias circunstâncias, propiciando-nos a oportunidade de elaborarmos nossos saberes de forma emancipatória. (Franco, 2016)
Nesta primeira fase então, organizando o curso de extensão para professores de São Gonçalo, escolas e universidade públicas instauraram este campo de pesquisa, com professores distintos exercendo um trabalho intelectual em conjunto, investigando as condições capazes de nos emancipar individual e socialmente. Até o momento podemos afirmar a importância deste trabalho para os esforços que promovem a formação de professores na perspectiva da escola pública, democrática e laica.
Utilizo não o ponto de vista do autor, mas o nosso, de país colonizado, como referência.
Referências
FRANCO, Maria Amélia S. Pesquisa Ação-pedagógica: práticas de empoderamento e participação. In Revista de Educação Temática. Campinas, v.18. n. 2, 2016, (p. 511-513)
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira. São Paulo: LEYA, 2015.
SOUZA SANTOS, Boaventura. Para além do pensamento abissal – das linhas globais e uma ecologia dos saberes. Novos Estudos – Cebrap, n. 79, nov. 2007. Disponível em: . Acesso em: 23 abr 2014.
_________. A universidade do século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade. São Paulo: Cortez, 2010.




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* Moreira
Faculdade de Formação de Professores na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil