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Resumen de ponencia
As ocupações escolares no Brasil e o conceito de autonomia

*Daniel Scheren Da Cruz



Este trabalho pretende analisar as ocupações escolares no Brasil, colocadas em curso pelo movimento secundarista, a partir do debate em torno do conceito de autonomia. Com isto pergunta-se: qual é a relação entre as ocupações escolares e a autonomia? Podemos observar a relevância da temática por conta do tamanho que o movimento tomou, do debate promovido em escala ampla pelas ocupações, e pela ruptura criativa no repertório de mobilização do movimento secundarista brasileiro.
A pesquisa aqui relatada traz informações parciais. Isto ocorre pois ela faz parte da dissertação que está em fase de desenvolvimento para o Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, pela Universidade Federal da Fronteira Sul. Contudo pode-se apresentar alguns elementos que estarão, ou serão desenvolvidos, no trabalho final.
Para tentar compreender a presença da autonomia nas ocupações escolares, e como se refletem nas identidades juvenis, está sendo pesquisado algumas questões objetivas relativas ao processo. Primeiramente está sendo realizado um resgate referente as ocupações escolares desde o caso chileno, da revolta dos pinguins, até as ocupações brasileiras contra a reforma do ensino médio, entre outras reivindicações. Em seguida será relatado sobre a experiência da ocupação ocorrida em uma escola indígena, no interior de Chapecó/SC, com estudantes da etnia Kaingang e Guarani. O relato tem como foco a organização do espaço escolar gestionado pelos educandos, além do comprometimento dos mesmos neste contexto reivindicatório. Paralelamente serão observadas outras duas questões. Uma delas é referente as produções realizadas sobre a temática, desde o ano de 2015 até o presente momento. Outra é questão está relacionada com o debate em torno do conceito de autonomia. Traçando assim possíveis relações entre as ocupações escolares, com seu conteúdo e forma organizacional, e a autonomia como identidade política dos sujeitos envolvidos diretamente com a mobilização.
Para o desenvolvimento de tal pesquisa será utilizada os seguintes processos, e/ou recursos, metodológicos. Um deles é a pesquisa de cunho bibliográfico com o intuito de resgatar o contexto das ocupações escolares na América do Sul, conforme recorte de espaço e tempo. A pesquisa bibliográfica também servirá para um levantamento referente as produções acadêmicas que versam sobre as ocupações escolares, principalmente os diversos casos brasileiros. Além de servir para realizar a discussão sobre autonomia e, em segundo plano, rebeldia/revolta. Contudo, para o desenvolvimento do relato do caso da escola indígena foi realizada uma observação de campo. Tal observação foi desenvolvida, seguidamente relatada, durante a ocupação que ocorreu na Escola Indígena Fen`nó ao final do ano letivo de 2016. Por último, pode-se dizer que as análises serão realizadas a partir do materialismo científico. Ou seja, considerando a base material/concreta dos sujeitos envolvidos com o processo de ocupação para entender os mesmos de uma maneira mais ampla.
Alguns apontamentos parciais podem ser levantados aqui. Em relação ao levantamento das produções acadêmicas referentes a temática, pode-se afirmar que a maioria teve um cunho descritivo do processo. Somente alguns poucos tentaram interpretar as ocupações a partir de algum nível de teorização. É claro que isto pode ser explicado pela proximidade temporal dos escritos sobre as ocupações com as mesmas. Os trabalhos que tentam teorizar sobre a temática são mais recentes. Dentre estes, a dissertação na qual este trabalho se inscreve tem a ambição de procurar teorizar sobre as recentes ocupações.
Com este intuito, também está sendo realizado um levantamento referente as ocupações. A partir deste, pode-se dizer que foi em São Paulo que ocorre a ruptura criativa no repertório de mobilização do movimento secundarista brasileiro. Posteriormente, tal repertório foi disseminado sendo utilizado pelos estudantes secundaristas nos estados de Goiás, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, entre outros. Pode-se afirmar, também, que a influência dos secundaristas paulista está diretamente ligada com as ocupações escolares da revolta dos pinguins no Chile.
No caso do estado de Santa Catarina, destaca-se neste trabalho a ocupação na Escola Indígena Fen`nó. Houve ali um levante autônomo dos estudantes, inicialmente do ensino fundamental e em seguida apoiado pelos demais educandos do ensino fundamental e médio. A mobilização foi praticamente unânime, tanto entre os estudantes como entre os professores e pais. Os professores, sem interferir na dinâmica organizacional dos estudantes, apoiaram massivamente os estudantes. Os pais também demonstraram apoio ao participarem de vários momentos educativos, e/ou lúdicos, organizados pelos estudantes. Diversos debates, com variados temas, foram desenvolvidos em forma de oficinas e rodas de conversa. Toda a organização do espaço escolar foi autogestionada pelos estudantes, desenvolvendo um poder horizontal que reforça a identidade de autonomia dos sujeitos envolvidos. E consequentemente do coletivo.
Com relação ao conceito de autonomia, e rebeldia/revolta, estão sendo realizadas algumas leituras de autores como Castoriadis, Camus, Bakunin, entre outros. Contudo, estas leituras ainda são iniciais. Mesmo assim, pode-se observar certa conexão entre o conceito e as experiências das ocupações escolares. Um exemplo disto é a questão referente a retroalimentação entre sujeitos autônomos e coletividade autônoma. Esta ideia que aparece, de certa forma em Castoriadis, pode nos remeter ao exemplo relatado no final do parágrafo anterior. Como supracitado, este trabalho ainda está em desenvolvimento para obtenção do título de mestre. Sendo assim encontra-se aberto a sugestões para que a pesquisa seja bem sucedida, podendo contribuir para o debate e entendimento da temática estudada.




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* Scheren Da Cruz
Universidade Federal da Fronteira Sul UFFS. Erechim, Brasil