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Resumen de ponencia
Maternidade: miséria e dor como temas da pintura, da literatura e da ciência.

*Anunciata Sawada
*Lucia Rodriguez De La Rocque
*Marli B. M. Albuquerque Navarro



As telas produzidas por Cândido Portinari que compõem a série “Os Retirantes” de 1944, remete o observador ao amplo contexto que associa imediatamente a seca, a fome, a miséria, a morte, a dor, em especial a dor da mãe, da mulher, na tela intitulada “Criança Morta”. Embora na tela todos sofram, é na figura que mãe que a dor é contundente, ela é o centro da tragédia causada pela miséria.
Não há como refletir a representação elaborada pelo artista sem buscar o aprofundamento do contexto da fome e do abandono das populações sertanejas do nordeste brasileiro como realidade estrutural, destacando-se, sobretudo, que “a fome, no Brasil, é consequência, antes de tudo, do seu passado histórico, com os seus grupos humanos sempre em lula e quase nunca em harmonia com os quadros naturais. Luta, em certos casos, provocada, e, por culpa, portanto da agressividade do meio, que iniciou abertamente as hostilidades, mas quase sempre por inabilidade do elemento colonizador, indiferente a tudo que não significasse vantagem direta e imediata para os seus planos de aventura mercantil” (Castro J, 1980, pág. 293.). Esta trágica herança colonial perpetuou-se no país, cristalizando a mentalidade da fatalidade ambiental, da fatalidade da fome e da morte provocada, especialmente pela desnutrição e suas sequelas.
Vasconcelos (2008, p. 2716) ao analisar a obra de Josué de Castro, Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço), cuja primeira edição data de 1946, destaca que, segundo o médico e pesquisador da realidade fome no Brasil, “a área do Sertão do Nordeste caracterizava-se pela atuação de um tipo de fome diferente, aquela que se apresentava em surtos epidêmicos ou agudos nos períodos de seca ou estiagem. Eram epidemias de fome global quantitativa e qualitativa que afetavam de forma bastante violenta e sem discriminação todos os habitantes da região. Apresentava como formas endêmicas: carências proteicas, de vitaminas A, B1, B2, C e niacina e dos minerais cálcio, ferro e cloreto de sódio. A carência de iodo (bócio) apresentava-se em sua forma subclínica”
Josué de Castro atribui grande importância ao livro de Rachel de Queiroz, “O Quinze” que situa a grande seca de 1915. O romance trata muito mais do que “a miséria orgânica dos sertanejos esfomeados, é retratada em traços seguros a miséria moral a que ficam eles reduzidos durante esse período de privações extremas. Poucos livros se prestarão tão bem para uma interpretação científica das influências psicológicas do fenômeno coletivo, sobre a conduta moral de um povo, do que este romance”. Rachel de Queiroz como observadora sensível da dura realidade do sertão nordestino, descreveu cenas da seca e de suas vítimas, dando as crianças e as mulheres uma aura de profunda tristeza, tal como podemos sentir contemplando a tela de Portinari, o Menino Morto.
Diante das trágicas estatísticas, Rachel de Queiroz, em artigo publicado no Diário de Notícias, revela que por traz dos espantosos números “a gente vê logo o morticínio desadorado das criancinhas pobres que se acabam como pinto quando dá um ar na criadeira. A frutificação inútil das mulheres, os penosos meses de gestação sofridos à-toa, as dores do parto, as noites de insônia com o menino doente que chora, a caminhada sem fim para os raros ambulatórios de socorro — e tudo isso só para dar de comer à terra do cemitério. Há dessas cidades em que as meninas já têm um vestido branco separado para acompanharem enterro de anjinho. E uma senhora conheci — também numa cidade dessas — que fizera promessa aos Santos Inocentes de só usar flores do seu grande jardim para enfeitar caixão de anjo”.
Em Josué de Castro temos a abordagem da questão da terra, da fome e do impacto moral sobre a sociedade e os indivíduos: “o latifúndio decorre também a existência das grandes massas dos sem-terra, dos que trabalham na terra alheia, como assalariados ou servos explorados por esta engrenagem economia de tipo feudal (...)” (1986, p 286). Ao tratar da questão da fome e da “desumanidade” nos diz que: “A fome não age apenas sobre os corpos das vítimas da seca, consumindo sua carne, corroendo seus órgãos e abrindo feridas em sua pele, mas também age sobre seu espírito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta moral” (Castro, 1967)
A morte dos “anjinhos”, tal como é expressada a morte de crianças no nordeste brasileiro está associada a ideia da redenção, pois ao morrer na infância, não se carrega o peso do pecado e, assim sendo, encontra a recompensa do “céu”. Deve-se acentuar que a população sertaneja nordestina é extremamente religiosa. Foi esta população que legitimou o mito do padre Cícero como santo bastante venerado. A seca, a fome e a morte como fatalidade foi construída pela religião e pelo imaginário cristão, que atribui ao sofrimento, a dor e a morte à vontade divina. O sofrimento da mulher, da mãe está associado ao arquétipo de Maria, a mãe sofrida, mas resignada diante da morte de seu filho. A mentalidade cristã impôs a mulher que se tornou mãe, a resignação, quase um simulacro de santidade. No prefácio do livro de Badinter (1985, p. 9), afirma-se que “ a maternidade é, ainda hoje, um tema sagrado. Continua difícil questionar o amor materno, e a mãe permanece, em nosso inconsciente coletivo, identificada a Maria, símbolo do indefectível amor oblativo”.
Vários e amplos estudos, mostram que o amor materno e a infância são fenômenos históricos, socialmente construídos e vinculados a formulação de valores. Badinter (1985, p 87), afirma que, embora tenhamos hoje a convicção de que a “morte de um filho deixa marca indelével no coração da mãe. Mesmo aquela que perde prematuramente seu feto conserva a lembrança dessa morte quando desejava a criança (...). Era a mentalidade inversa que dominava outrora” Ao citar F. Lebrun (1971, p 423), a autora revela que “no plano humano, a morte da criança é sentida como um acidente banal que um nascimento posterior reparar”.
A maternidade frustrada, a mãe que perde sua prole traduz a humilhação e a dor feminina, uma vez que na mentalidade ocidental moderna, mesmo considerando situações e as pré-condições de risco, mesmo quando a sobrevivência é pouco provável, a morte dos filhos representa a desordem natural e quebra a expectativa do futuro, pois a vida nova traz o sentimento e a esperança da mudança, da transformação.
Silva (2010), ao analisar a série “Os Retirantes” de Portinari, destaca a tela “Menino Morto”, buscando no próprio artista a intenção do discurso: “fiz nesta composição a minha mais verdadeira Piedade. Pintei uma mãe desesperada, curvada à dor, em sua marcha indescritível de retirante, trazendo no colo o filhinho prematuramente vítima pela fome” (Portinari, C. apud Bento. A. 2003. Apud Silva, 2010, p. 130)
Ainda a análise de Silva (2010), Portinari traz para dramática realidade da seca e da fome, a denúncia social e a sensibilidade das mães, das mulheres diante da morte do filho, da criança, da vítima inocente.
As lágrimas da dor das mulheres representadas na tela de Portinari são as lágrimas duras, petrificadas, são lágrimas áridas, não são líquidas, são as lágrimas que expressam a lancinante amargura da perda, da seca, do destino trágico das crianças mortas de fome, de sede, de doença, são lágrimas da humilhação da fome, do abandono. “Portinari quis deliberadamente dar um sentido figurado, uma nova acepção visual às lágrimas. Não as figurou por intermédio de sua representação líquida. Transformou aquela água amarga em pedras que tombam dos olhos. Quis, assim, mostrar que aquelas não eram lágrimas comuns ou triviais. Vinham de prantos inenarráveis, que não podiam ser expressos de forma naturalista; as lágrimas dos retirantes eram eternas” (BENTO, A. Op. cit., p. 180 apud Silva 2010.p 131). O mesmo sofrimento nos é transmitido na literatura de Rachel de Queiroz em “O Quinze”, em “Vidas Secas de Graciliano Ramos, no poema João Cabral de Mello Neto, “Morte e Vida Severina” e outros que situam a dramaticidade da sobrevivência no semiárido brasileiro. Nos estudos de Josué de Castro, em especial, seu mais famoso livro “Geografia da fome, o dilema brasileiro: pão ou aço”, publicado em 1946. Nesta obra Castro empreende um extenso estudo sobre a história da fome no mundo e destaca a fome e a desnutrição no Brasil como problema estrutural, dando importante ênfase as recorrentes secas no Nordeste e sua dramática consequência, a mortalidade infantil e o abando da população, colocando como ponto central a questão fundiária.
Conclusão
Tendo como ponto de partida a tela de Cândido Portinari, “Menino Morto”, pertencente a série “Os Retirantes”, buscamos também na produção literária e científica, mais pontualmente nos estudos e pesquisas de Josué de Castro e na literatura de Rachel de Queiroz, discutir uma dramática questão fundiária brasileira, a seca como tema estrutural, da exclusão e da humilhação da população vitimada pela fome e pela doença, acentuando a representação do sofrimento da mulher, da mãe que perde seus filhos que já nascem socialmente excluídos.
Consideramos que a arte estende, complementa, sensibiliza a percepções do mundo. Qualquer inteiração com a arte amplia e enriquece a perspectiva humana no sentido mesmo de existência, da possiblidade de refletir sobre o mundo, sobre o outro, sobre nós mesmos. A arte é capaz nos revelar experiências sensoriais pelas suas formas e seus conteúdos.
Buscamos atribuir neste ensaio uma interpretação do feminino e da maternidade diante da dor, diante da perda, diante do irreparável. A dor feminina na arte e sua capacidade de transmitir e validar sentimentos e realidades: a compaixão, a exclusão, o sofrimento, a resignação, a humilhação e o amor. Sublinhamos ainda que valorizamos a relação entre linguagens e contextos históricos, apresentando as subjetividades dos discursos e a realidade contida no tema.





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* Sawada
Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ. Rio de Janeiro, Brasil

* De La Rocque
Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ. Rio de Janeiro, Brasil

* Navarro
Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ. Rio de Janeiro, Brasil