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Resumen de ponencia
A América-Latina no centro: uma perspectiva não-eurocêntrica sobre a construção da Modernidade

*Amanda Moreno Medina



O presente ensaio busca apresentar os debates acerca da construção do que é chamado de Modernidade a partir de uma perspectiva latino-americana, por meio de pesquisa bibliográfica, baseando-se nos textos compilados na obra "La Colonialidad Del Saber: Eurocentrismo Y Ciencias Sociales: Perspectivas Latinoamericanas", do sociólogo venezuelano Edgardo Lander, e na obra “O Roubo da História”, do antropólogo Jack Goody. O objetivo do ensaio é repensar o conceito de modernidade, questionando as narrativas europeias e colocando a América-Latina - o subalterno colonizado - no centro, de forma que seu papel nesse processo histórico seja desconstruído e recriado.
Jack Goody, nascido em 1919 em Londres, foi um dos maiores antropólogos do século XX. Em "O roubo da história", discute o eurocentrismo e questiona a validade das invenções do Ocidente, apontando as formas em que o Oriente foi roubado e apropriado. Neste trabalho, as ideias apresentadas por Goody encontram o pensamento dos autores latino-americanos do grupo Modernidade/Colonialidade, um coletivo de estudos formado em 2002 com o objetivo de oferecer alternativas epistemológicas ao projeto da Modernidade eurocêntrica, partindo de uma perspectiva decolonial. Entre seus integrantes estão os sociólogos Aníbal Quijano, Edgardo Lander e o filósofo Enrique Dussel. Tanto nas obras de Goody quanto no pensamento decolonial aparece o conceito de eurocentrismo, definido pelo sociólogo e historiador Muryatan Santana Barbosa como uma "crença generalizada de que o modelo de desenvolvimento europeu-ocidental seja uma fatalidade (desejável) para todas as sociedades e nações. (BARBOSA, 2008, p. 2)"
Como afirma Enrique Dussel (2005, p. 30) em seu artigo intitulado Europa, Modernidade e Eurocentrismo, toda cultura é, em certa medida, etnocêntrica, atribuindo a si mesma a condição de superioridade. Goody (2008, p. 21) aponta que a história de toda nação é parcial, pois cada grupo cultural enxerga o mundo através de sua perspectiva. Porém, a história da Europa possui a particularidade de ter sido vinculada com o passado de outras civilizações e, a partir disso, imposta como universal. O sociólogo Aníbal Quijano (2005, p. 11), em seu artigo intitulado “Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina”, trata dos mitos essenciais para a criação e sustentação do eurocentrismo como verdade universal. Em primeiro lugar - e como alicerce principal - a (re)criação da história da civilização como um processo linear que culmina na Europa. Em segundo lugar, a ideia de que as diferenças entre os mundos europeu e não-europeu partem de diferenças raciais, portanto biológicas, e não de processos históricos de conquista e poder. Por fim, é possível adicionar aos mitos a ideia de dualismo que divide o mundo entre civilizado/primitivo e moderno/tradicional, sendo o europeu o civilizado, restando as demais civilizações o lugar de barbárie. Em síntese, o mito que fundamenta o eurocentrismo é a ideia de que a civilização partiu de um estado de natureza e encontrou seu ápice na Europa. Essa perspectiva foi articulada com a divisão e classificação racial do mundo - com origem no processo de colonização da América -, na qual os não-europeus foram realocados no novo tempo histórico como povos primitivos e do tempo passado, tendo sua história, cultura e descobrimentos apagados.
Logo, para que a Europa se tornasse o centro da história mundial foi preciso criar uma narrativa que a posicionasse também no ápice da evolução humana. Uma das formas de tornar isso possível foi reescrever a história, apropriando-se de ideias e invenções de outros povos - especialmente Orientais - como aponta Jack Goody. A fim de alimentar a narrativa estado de natureza-Europa, foi preciso reinventar a história da Antiguidade Clássica, que compreende o período greco-romano (Goody, 2008, p. 44). Em primeiro lugar, a relação entre a Antiguidade e seus predecessores da Idade do Bronze - período marcado por sociedades asiáticas de grande importância - foi deixada para cair no esquecimento. Para que a Antiguidade Clássica fosse vista como o início de um novo mundo - um mundo europeu - foi preciso ocultar da História as influências materiais e intelectuais de povos asiáticos e africanos que formaram o mundo grego. Dessa forma, são atribuídos somente aos gregos as invenções e ideias que resultaram desse intercâmbio de culturas e saberes. O simples ato de estabelecer esse período como "antiguidade clássica" revela a ideia de que o anterior é arcaico, alimentando também a narrativa da história como linear.
A questão da Antiguidade também é abordada por Enrique Dussel, que expõe a forma na qual a Europa foi edificada sobre essa construção. Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que a Europa moderna, como filha da linha evolutiva Grécia-Roma-Europa, é uma invenção ideológica do século XVIII, fruto do romantismo alemão (Dussel, 2005, p. 25). A Antiguidade Clássica é filha de fenícios e semitas tanto quanto é filha do mundo egípcio e dos povos do Norte. Além do mais, o conhecimento do mundo helênico-romano foi levado ao mundo europeu feudal pelos povos islâmicos, os mesmo que, juntamente com os povos judaicos, foram responsáveis pelos conhecimentos mais avançados da região mediterrânea.
Em síntese, a Europa moderna ocidental não possui ligação direta com o mundo grego. Durante o Renascimento Italiano o mundo ocidental latino se une ao mundo grego oriental, ocultando a origem helenística-bizantina do mundo muçulmano e criando a narrativa de que o Ocidente é formado pelos mundos Helenístico, Romano e Cristão. Assim nasce a ideologia eurocêntrica que coloca a cultura grega clássica como algo exclusivamente europeu, além de criar a narrativa de que as culturas grega e romana sempre foram o centro da história mundial.
A Modernidade, como projeto civilizatório, é produto do eurocentrismo, idealizado e posto em prática pelas grandes potências europeias. Segundo Dussel (Ibid., p. 28), podemos falar de dois conceitos de Modernidade: o atualmente aceito e o que parte de uma perspectiva mundial. O primeiro é a da Modernidade como uma emancipação "da imaturidade por um esforço da razão como um processo crítico (Ibid., p. 45)". O filósofo e sociólogo alemão Jurgen Habermas aponta como eventos chaves desse processo a Reforma Protestante, o Iluminismo e a Revolução Francesa. A filósofa alemã Hannah Arendt, por sua vez, aponta como eventos que iniciaram a era moderna a "descoberta" da América e a exploração de toda a Terra; a Reforma Protestante e a invenção do telescópio. Ambas visões são eurocêntricas, pois assumem que a Modernidade partiu de eventos intra-europeus. O autor propõe, então, uma segunda visão da Modernidade, partindo de um sentido mundial. Dessa forma, antes de 1542 existiam sistemas e histórias locais que coexistiam entre si e apenas com as grandes navegações nasce uma História mundial, sendo a etapa Moderna iniciada com o mercantilismo mundial espanhol. Mais tarde, com a Revolução Industrial, a Inglaterra se torna o centro do sistema-mundo e constitui como periféricas todas as demais culturas. A América-Latina entra no período moderno como o Outro, que é dominado e explorado pelo Eu europeu. A Modernidade, segundo o filósofo Walter Mignolo, constrói o mundo Ocidental enaltecendo seus triunfos na medida que esconde sua face oculta, a colonialidade - que a constitui de forma que uma não existe sem a outra.
O projeto da Modernidade se justifica por ser movido pela Razão, mas o mito que a sustenta oculta uma práxis irracional e violenta: uma civilização, a que se toma como moderna, identifica-se como mais desenvolvida em relação aos povos “primitivos”, e por isso sua missão moral é agir para o desenvolvimento dos bárbaros. Se o povo primitivo resistir - e irá resistir - a práxis moderna deve usar da violência pelo bem maior. Essa práxis produz vítimas, mas seu ator toma o papel de herói-colonizador e impõe aos colonizados a culpa pela violência infligida, tornando o processo civilizatório inocente e a violência necessária, pois é preciso que os povos atrasados façam sacrifícios em prol da Modernidade. Dussel aponta a importância da superação da Modernidade, e para que isso seja possível é necessário, em primeiro lugar, negar o Mito que a justifica. É preciso que o Outro, negado e vitimado, descubra-se como inocente, para poder reconhecer a culpa no processo conquistador e civilizatório da Modernidade. Ao negar a inocência da violência moderna, ao reconhecer a Alteridade do Outro, é possível enxergar as vítimas desse processo - "el mundo periférico colonial, el indio sacrificado, el negro esclavizado, la mujer oprimida, el niño y la cultura popular alienadas (Ibid., p. 49)" - como vítimas de uma violência irracional e injustificável.

DUSSEL, Enrique. Europa, Modernidad y Eurocentrismo. In: LANDER, Edgardo. La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales: Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, 2000. p. 41-54.
GOODY, Jack. O roubo da história: Como os europeus se apropriaram das ideias e invenções do Oriente. São Paulo: Editora Contexto, 2008. 164 p.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgardo. La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales: Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, 2000. p. 122-151.
ARENDT, Hannah. A vida activa e a era moderna. In: ARENDT, Hannah. A condição humana. 11. ed. Chicago: Forense, 2010. Cap. 6. p. 309-321.
BARBOSA, Muryatan Santana. Eurocentrismo, História e História da África. Sankofa: Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana, São Paulo, v. 1, n. 1, p.46-63, jun. 2008. Disponível em: .
MIGNOLO, Walter. Colonialidade: O lado mais escuro da Modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulos, v. 32, n. 94, p.1-18, 22 jun. 2017. Disponível em: .




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* Moreno Medina
Universidade Federal da Integração Latino-Americana UNILA. Foz do Iguaçu, Brasil