O presente trabalho pretende analisar o aumento dos índices de suicídio no mundo sob a perspectiva de dois aspectos da globalização: os movimentos migratórios e o rápido crescimento de informações disponíveis na rede mundial de computadores. Fenômeno recente na história do desenvolvimento humano, a internet tem se mostrado um vetor no crescimento dos índices de suicídio globais, facilitado o acesso a meios efetivos de morte voluntária. Sob outro ponto de vista, a prática antiga das sociabilidades humanas, a migração, é causa frequente de elaboração da ideação suicida e a quantidade de imigrantes que cometem o auto sacrifício costuma ser bastante relevante em qualquer parte do mundo. Quais as especificidades que fazem com que o suicídio entre imigrantes seja comum? Por quais motivos o fácil acesso ao conteúdo na web faz crescer o índice de suicídios? O ponto de convergência dessas dúvidas está no questionamento: como duas faces tão opostas da globalização, uma de afastamento (da identidade cultural nativa) e outra de aproximação (de múltiplas identidades culturais), podem levar ao mesmo resultado? Nossa hipótese é a de que a fragilidade psicossocial dos segmentos envolvidos em ambos os processos os coloca em situação em que necessitam maior atenção dos atores sociais, particularmente da intervenção do poder público local ou de ações de entidades supranacionais, tal qual a OMS. Iniciamos por dois pressupostos. O primeiro deles se constrói a partir do grande número de imigrantes dos mais diversos países, mas, principalmente, das nações em desenvolvimento, que ao deixar suas terras nativas em busca de melhores condições econômicas de vida, deixam também para trás seu suporte sociocultural, acabando por cometer o suicídio em razão das dificuldades encontradas, em particular da resistência em serem aceitos pelos nativos. São grupos de migrantes que vão fincar suas bases em solo distante e resistente à sua presença. Ali formam famílias, geram filhos, multiplicando as possibilidades de suicídio, uma vez que, de acordo com diversos estudos, a geração a qual pertence o migrante pode potencializar o aparecimento de transtornos mentais e, consequentemente, da ideação suicida. A outra vertente observada da globalização diz respeito à explosão e difusão sem controle dos canais de internet que orientam e estimulam pessoas debilitadas a cometerem a morte voluntária. Centenas de sites e fóruns virtuais, em múltiplos idiomas, se aproveitam do parco controle da rede e ausência de legislação reguladora do setor para agir criminosamente no induzimento do auto sacrifício. Com a popularização das redes sociais, multiplicaram-se os eventos em que os suicídios, de jovens em sua maioria, ocorrem com transmissões ao vivo, acompanhados por milhares de pessoas, sejam apenas espectadores curiosos ou mesmo quem esteja disposto a interagir para auxiliar no intento de dar cabo da vida. Na falta de leis específicas e diante de uma realidade crescente e assustadora, muitas empresas que atuam na área têm feito esforços para identificar e inibir esse tipo de comportamento, mas ainda de forma experimental, sem resultados efetivos. São duas realidades latentes e que têm se intensificado. Ainda assim, a exploração dessas temáticas focada no auto sacrifício costuma ser bastante negligenciada, tanto pela academia, quanto pelo poder público. Utilizamos as teorias de migração diaspórica de Stuart Hall (2003), de alcance da internet de Manuel Castells (2003), de anomia de Durkheim (2014), de globalização de Thompson e Hirst (1998), entre outras fontes bibliográficas, como a pesquisa das estatísticas gerais de suicídio de imigrantes pelo mundo de De Leo e Ratkowska (2013) e do levantamento feito por Biddle (2008) de sites que concedem assessoramento a quem pretende se matar. A partir dessa análise revelou-se a necessidade de maior controle do setor administrativo dos países em criar políticas públicas de suporte econômico e social para migrantes e de elaborar leis mais rígidas para acompanhar e fiscalizar o conteúdo disponibilizado na rede mundial de computadores, estabelecendo punições rígidas para os infratores.