Os processos sociais e políticos do século XXI na América Latina, especialmente a presença dos movimentos indígenas nos governos do Equador e da Bolívia, marcaram uma ruptura nas ideais tradicionais para entender o desenvolvimento e a cultura na região. Ambos os governos modificaram os paradigmas culturais e os horizontes políticos do desenvolvimento desses países mediante o reconhecimento e a incorporação da visão cósmica indígena de suas populações. A inclusão de termos como “Sumak Kawsay” em idioma kichwa no Equador e “Suma Qamaña” em aimará na Bolívia, entendidos como novos pilares ontológicos, epistemológicos e éticos do desenvolvimento, tem visibilizado os saberes tradicionais dos povos indígenas da America Latina com propostas para superar os paradoxos do mundo global, que se debruçam nos dilemas entre desenvolvimento econômico, bem estar social e equilíbrio ambiental.
No campo científico das Ciências Sociais, vivemos décadas de acumulação teórica com estudos sobre a crise da modernidade. Um estudo que abriu a porta para novas interpretações sobre a natureza e possibilidade dos estudos latino-americanos foi o Informe da Comissão Gulbenkian: Abrir as Ciências Sociais (WALLERSTEIN, 1996). Este texto sistematiza a crítica ao conhecimento “eurocêntrico” das Ciências Sociais, sustentado na hegemonia do saber cientifico frente à inferiorização de outras formas de saber. Para Walter Mignolo, consta na diferença entre episteme e doxa, respectivamente (MIGNOLO, 2000). Em diálogo com esta crítica sobre a natureza eurocêntrica das ciências sociais, ganha visibilidade o aporte de um grupo de cientistas sociais da América Latina identificados com os questionamentos e reflexões do denominado Giro Decolonial (CASTO-GÓMEZ e GROSFOGUEL, 2007) e com as pesquisas sobre Colonialidade do Poder (LANDER, 2000).
Os processos políticos contemporâneos e a emergência de novos paradigmas teóricos nas Ciências Sociais latino-americanas são o reflexo regional das transformações da sociedade global no final do século XX e começo do século XXI. Fazemos referência às mudanças decorrentes da revolução tecnológica das comunicações, do fortalecimento do capital financeiro e da emergência de sujeitos sociais subalternos como o movimento de mulheres, os grupos ambientalistas e os movimentos indígenas (QUIJANO, 2014).
Essas transformações acontecem também no campo das Teorias sobre Desenvolvimento. Os paradigmas que iniciaram o debate sobre “desenvolvimento” na América Latina no início do século XX se focavam na primazia do crescimento econômico e, com o decorrer dos anos, não cumpriram as expectativas de progresso que anteciparam para a região. Frente às limitações do crescimento econômico, surgiram novos enfoques sobre outras dimensões do desenvolvimento como o “desenvolvimento humano, social e ambiental”. Estas transformações constituem os dilemas atuais entre desenvolvimento econômico, bem-estar social e sustentabilidade ambiental (GUDYNAS, 2004).
A forma de vida teorizada com a denominação de “bom viver” é um conceito em construção (GUDYNAS e ACOSTA, 2011) que faz referência a uma relação recíproca e complementária que o homem andino estabelece com a madre terra, denominada em quéchua como pachamama (HUANACUNI, 2010). Nesse sentido, apresenta uma matriz indígena andina, mas recebe valiosos aportes elaborados em outros lugares do mundo que permaneceram subordinadas durante muito tempo.
Em novembro de 2007 se instalou uma Assembleia Constituinte no Equador que aprova, em 2008, uma nova Carta Constitucional onde se introduzem os termos de bom viver ou sumak kawsay como objetivo de ação pública e se estabelece o “regime do bom viver” como um sistema de proteção social baseado em uma articulação alternativa entre política, economia, questão social, cultura e médio ambiente (MANOSALVAS, 2014).
Na experiência boliviana, a ideia de “bom viver” é uma expressão associada às palavras em língua aimará suma qamaña ou “bom conviver”. Segundo Gudynas (2011), trata-se de um termo criado por intelectuais aimarás que não forma parte da linguagem cotidiana ou das representações locais das comunidades indígenas (Uzeda, 2009 apud Gudynas, 2001). Nesse sentido tratamos de um conceito em construção que resgata as tradições culturais indígenas andinas a partir dos dilemas atuais da modernidade global, em diálogo com algumas tradições teóricas que vêm questionando há décadas os limites da modernidade e do crescimento econômico dominante. Recorremos ao conceito postulado por Eric Hobsbawn (2002) como invenção da tradição para afirmar que não tratamos de uma forma de vida arcaica, paralisada no tempo messiânico da vida andina. Fazemos referência a um conceito dinâmico que fala de uma prática social ancestral e cósmica reelaborada cotidianamente a partir dos questionamentos do pressente. (HOBSBAWM e RANGER, 2002).
No entanto, existe um paradoxo entre a diversidade étnica de grupos andinos no território peruano, sejam quéchuas, huancas, chancas, aimarás, etc. que mantém uma acumulação histórica de saberes originários, com a irrelevância desses conhecimentos na política nacional peruana e a débil presença dos aportes peruanos para a teoria do “bom viver” na America Latina. Nesse sentido, consideramos importante focar a reflexão no intuito de aproximar as características gerais do significado, dilemas e aspirações do “bom viver” na vida dos povoadores indígenas dos Andes peruanos. Pretendemos resgatar os saberes indígenas em diálogo com as teorias do desenvolvimento sustentável, que a partir de outro horizonte de sentido apresenta preocupações similares sobre a relação entre o homem e a natureza.
Não aspiramos a um conhecimento sacralizado sobre o “bom viver” no Peru; pretendemos apenas uma aproximação da cotidianidade e do ethos da vida indígena andina nas comunidades rurais dos Andes peruanos. A partir de um debate com as teorias de desenvolvimento sustentável frente as interpelações das crises da modernidade globalizada, propomos alimentar visiones outras de desenvolvimento social, econômico, cultural e ambiental desde uma matriz ontológica e ética indígena.