A palavra cimarrón foi utilizada em toda a América Colonial para referir-se aos escravos, índios ou negros que, individual ou coletivamente, rebelaram-se contra a servidão dos seus “senhores”. A rebeldia foi um recurso, sem dúvida dramático, no qual o escravo expressou rechaço à ordem social estabelecida utilizando-se da fuga para garantir a liberdade. Entretanto, o status de foragidos situou-os como cimarrones em locus marginalizados obrigando-os a viver em áreas distantes e isoladas.
Ao longo do processo de formação das sociedades da América Latina a cimarronaje fez com que o negro permanecesse, junto com suas história e tradições, isolado em espaços periféricos. Com o passar do tempo o africano deixa de ser estrangeiro e integra uma nova realidade e, com ela, o sentido de resistência assume outras nuances ao reivindicar legitimidades distantes da resistência e fuga e mais integrada ao processo de participação e reconhecimento social. Para o desenvolvimento do presente estudo o conceito de cimarronaje deixa de estar relacionado aos negros que resistem e fogem para referir-se aos negros que resistem porque pensam; aos intelectuais afro-hispano-americanos que investiram análise e prospecção em estudos voltados para o desenvolvimento das contribuições africanas e outras versões dos fatos oficialmente narrados pela América Espanhola.
A pesquisadora chilena Elena Oliva, no artigo “Intelectuales Afrodescendientes: apuntes para una Genealogía en América Latina” (2017) lembra que no início dos anos 90, nos marcos das repercussões do V Centenário surgiu, com força, a necessidade de inclusão do que chamou tercera raíz; alusão à presença e contribuição dos descendentes africanos na América. A preocupação estaria disposta a analisar as populações afrodescendentes além da perspectiva econômica que resultou na escravização e considerar contribuições subjetivas, materiais e, até, genéticas e apresentá-las ao lado da presença parcialmente consolidada dos indígenas e as já consolidadas contribuições europeias que, juntas, constituiriam a base das raízes culturais da América Latina.
Nota-se que o projeto fundamenta-se a partir da emergência de uma produção acadêmica interessada no fortalecimento de um diálogo Sul-Sul, entre América e África, mediado por uma Literatura de Língua Espanhola. A ideia consistiria em investir na visibilidade de projetos críticos e criativos afro-hispano-americanos formulados a partir de seus próprios anseios e sujeitos. Vislumbrar-se-ia, como objetivo, reconhecer nas aproximações políticas, estéticas e culturais entre os dois espaços, hispano-americano e africano, a oportunidade de (re) pensar epistemologias a partir de suas próprias experiências históricas. De acordo com a professora Adélia Miglievich-Ribeiro há uma
“(...) urgência do diálogo a partir do Sul entre as distintas esferas culturais envolvendo a ação descolonizadora das subalternidades mediante a ênfase nas experiências singulares, na tradução e na articulação das diferenças em torno de projetos plurais de reconhecimento de sujeitos e suas vozes para a ampliação do universal como diversalidade” (2014, p.66).
De acordo com Boaventura de Sousa Santos (2014) a revisão de epistemologias modernas apresenta-se como desafio teórico para dar inteligibilidade a um mundo que, apesar de diverso, ainda possui dificuldades em articular-se como tal. A intenção do projeto afirma-se na busca pelo reconhecimento de contribuições culturais africanas com vistas a dar uma maior visibilidade ao negro e a negritude no processo de formação social e literária das sociedades. Trata-se de um desafio ético na medida em que se observa o silenciamento de ancestralidades por condutas politicamente questionáveis que até os dias de hoje esvaziam, gradativamente, a noção do particular em detrimento de vias que uniformizam o entendimento do diverso.
Uma perspectiva que não se apresenta como novidade mas (re)atualiza-se na medida em que persiste o desequílibrio e as desigualdades humanas que afetam a atuação e legado do pensamento crítico latino-americano. Um desses exemplos é a obra que se apresenta com o sugestivo título “Qué significa Pensar desde América Latina?” (2014), do filósofo e sociólogo indo-boliviano Juan José Bautista. Bautista propõe a retomada da perspectiva transmoderna (DUSSEL, 1992) centrada no processo de construção de um pensamento crítico original latino-americano que, por essa razão, aproxima-se do que também motiva a busca dos intelectuais afro-hispano-americanos: uma “Ética da Libertação”.
Assim como as premissas de Walter Mignolo (2010) e Nelson Maldonado-Torres (2008) Bautista compreende que tanto a criação quanto a admissão na América Latina de uma Filosofia Moderna e essencialmente ocidental contribuiu para a desvalorização das origens e estruturas formais do pensamento que conformam as particularidades do povo latino-americano. A pretensa ideia de universalidade somada a uma ideia (parcial) de racionalidade podem ser compreendidos como a consolidação do sistema e cultura capitalista que aperfeiçoa mecanismos de dominação subjetiva dos povos, instaura ideias hierarquizadoras e, com isso, contribui para o aumento da desigualdade, pobreza, exclusão e racismo dentro de um sistema-mundo distante da realidade periférica e que com base na subserviência das margens.
Desse modo, a legitimidade da posição dos intelectuais negros situa-se na condição de problematizarem-se como categoria de análise específica. Apresentar-se-iam como sujeitos cientes de suas descendências e desse lugar enunciativo, ao elaborarem discursos e epistemologias ambivalentes sobre a África e América Latina, cumpririam a função de integrar novos dispositivos de reflexão individual e coletiva. Historicamente excluídos dos espaços de livre enunciação na América ao autodescreverem-se assumiriam, deste modo, uma posição crítica e política no espaço público ainda que ocupando espaços e posições periféricos mas de todo modo reflexivos e atentos a respeito da responsabilidade de autodescreverem-se. Assim como a América Latina e África não poderiam apresentar-se como unidade homogênea em razão da sua diversidade e relações internas a maneira de entender e situar-se em cada um desses espaços não poderia apresentar-se de maneira diferente. Há os que se consideram negros; outros, afrodescendentes e ainda os mulatos.
As matrizes de natureza política e subjetiva, como a Literatura, por exemplo, na conjuntura global também possuem raízes históricas que contribuem para compreender as tensões e distensões de um sujeito que não pode, em absoluto, dar conta isoladamente de sua totalidade. Por meio de narrativas a noção de colonialidade – do imaginário – ainda se faz presente e, inevitavelmente, relaciona-se a uma diplomacia perversa que aproxima territórios mas incute violências ao não reconhecer, ou reconhecer parcialmente, valores e tradições culturais distintos. Tomando-se como referencial o interesse pela contribuição epistemológica de “afro-saberes”, considerando-os nas realidades hispano-americanas de suma importância, principalmente se enunciados a partir de seus próprios sujeitos e produções, oportuniza-se valores e representações ignoradas por muitos. É dessa maneira que se perfazem pertinentes os questionamentos feitos por Mignolo (2003) sobre a importância de revisar, e reavivar, histórica e epistemologicamente, as disposições sobre o patrimônio crítico e criativo que tornam invisíveis autonomias de vozes culturais independentes por meio do debate e fissura de críticos da cultura e literatura latinoamericana sobre a contribuição africana na América Latina.