No discurso apregoado pelos governos petistas, o projeto político e econômico do governo Lula, bem como de sua sucessora Dilma Rousseff, consistia em reativar a ação do Estado no que concerne ao crescimento sustentado do Brasil, visando favorecer os grupos econômicos brasileiros definidos como estratégicos. Ao mesmo tempo, objetivava o estabelecimento da justiça social para as classes populares brasileiras por meio da ampliação da política de distribuição de renda. Durante o governo Lula houve a melhora gradual e progressiva do salário mínimo, a redução do índice de desemprego no país, a facilitação do crédito aos setores populares, de modo que estes fatores contemplaram os interesses imediatos das classes dominadas como um todo. Ademais, a existência de uma melhora em termos de distribuição de renda e qualidade de vida das frações de classe mais pauperizadas é inegável devido ao impacto mostrado pelo programa Bolsa Família.
No que concerne ao favorecimento dos grupos econômicos brasileiros, é possível dizer que houve a valorização de setores da burguesia vinculados à produção de commodities, fato que foi responsável por alterar a relação do Estado para com a burguesia brasileira, sobretudo ao melhorar a posição da grande burguesia interna de caráter industrial e agrário no interior do bloco no poder, sendo esta a grande novidade do governo Lula (BOITO JR., 2006).
Antes de avançar nesta exposição, se faz necessário realizar um pequeno parêntese para expor como o conceito poulantziano de burguesia interna é operacionalizado nesta análise. De acordo com Poulantzas (1977), a relação existente entre os países dependentes – como o caso do Brasil – e os centros imperialistas, sobretudo no contexto correspondente à internacionalização do capital, é o que possibilita a emergência da burguesia interna. Esta fração burguesa é, via de regra, uma intermediária entre a burguesia compradora e a burguesia nacional. Sua posição de meio termo é expressa, primeiramente, por seus interesses não serem inteiramente subordinados ao capital estrangeiro, como no caso da burguesia compradora. Em segundo lugar, pelo fato de que se mantém dependente do capital estrangeiro, não se posicionando determinantemente contra o imperialismo, como o faria a burguesia nacional. A dependência da burguesia interna com o capital estrangeiro se dá no âmbito do processo tecnológico e na produtividade do trabalho, além de se estabelecer no âmbito comercial. Entretanto, apesar da existência deste vínculo de dependência, há também uma significativa contradição nesta relação, sobretudo pelo fato de que a maior parte da mais-valia é destinada ao capital estrangeiro às expensas da burguesia interna. Assim, a burguesia interna anseia que o Estado intervenha junto aos seus interesses, viabilizando um posicionamento mais competitivo diante do capital forâneo.
No Brasil, no início dos anos 2000, era latente a contradição dos grupos burgueses de acumulação interna com o capital internacional devido à agudização da política neoliberal estabelecida pelo governo Cardoso, que priorizou os interesses correspondentes aos setores do capital financeiro e grupos transnacionais. Assim, o programa político proposto pelo governo Lula representou para a burguesia interna a possibilidade de ter seus interesses contemplados, vindo a apoiar sua candidatura em 2002, assim como desferindo apoio diante da crise política gerada pelo escândalo do “mensalão” em 2005. Neste contexto, constitui-se a heterogênea “frente neodesenvolvimentista”, composta pela burguesia interna, pelos movimentos sociais e, posteriormente, pelos setores populares beneficiários das políticas sociais deste governo. Agregando amplos setores, o objetivo desta frente seria vencer certos limites impostos pelo modelo neoliberal periférico (BOITO JR., 2012).
Durante o primeiro governo Dilma, o modelo de desenvolvimento iniciado pelo governo Lula foi mantido com políticas que favoreceram a burguesia interna. Interpretações a respeito do governo Rousseff convergem para o fato de que as políticas implementadas pela presidenta denotaram um viés mais incisivo no atendimento das reivindicações das empresas nacionais, principalmente dos setores vinculados ao capital produtivo, buscando alavancar o crescimento interno da economia, num contexto onde a conjuntural internacional não era tão favorável se comparada ao período dos governos Lula (Bresser-Pereira, 2013; Singer, 2015; Boito, 2016).
Assim, é possível notar que, durante os governos Lula e Dilma, buscou-se reestabelecer o compromisso existente entre o Estado brasileiro e os grupos econômicos nativos, ainda que nos limites impostos pelo modelo neoliberal periférico. Todavia, a crise econômica mundial atingiu o Brasil em meados do primeiro governo Dilma, estagnando a economia nacional. Num primeiro momento, o governo Dilma optou por um neodesenvolvimentismo mais incisivo, a fim de minimizar a crise, focando nos setores burgueses vinculados ao capital produtivo em detrimento dos setores ligados ao capital financeiro (Boito Jr, 2016, Farias e Pereira, 2017, Singer, 2015).
A inflexão dos governos do PT na implantação de políticas favoráveis à burguesia nativa, cuja acumulação se dá no âmbito nacional, resultou num crescente descontentamento por parte das frações burguesas atreladas ao grande capital estrangeiro, ávidas por recuperarem o leme hegemônico do bloco no poder brasileiro. Devido ao baixo crescimento da economia durante os anos iniciais do governo Dilma, estes setores burgueses sentiram-se mais confortáveis para desferirem críticas às políticas “irresponsáveis” que os governos petistas vinham tomando. Esta oposição aos governos Lula e Dilma tiveram como base de apoio a classe média – vociferando contra as políticas sociais dos governos citados. Deste modo, manifestações massivas de oposição ao governo Rousseff ganharam corpo no final de seu primeiro mandado, atingindo as ruas e pedindo o impeachment da presidenta após sua reeleição em 2014 (BOITO JR., 2016).
Com a crise econômica instaurada no Brasil abriu-se caminho para uma crise política conduzida pelo capital internacional e seus representantes burgueses em território nacional, amparados pelo conservadorismo político da classe média. Dilma resolve, então, recuar para o campo neoliberal no intuito de mostrar credibilidade aos mercados. Este recuo não surtiu o efeito desejado e incertezas político-econômicas passaram a assombrar seu segundo mandato. Neste contexto, identifica-se também o rompimento da inicialmente profícua, e posteriormente catastrófica, relação existente entre frações da burguesia brasileira e os governos do PT, de modo que estes setores burgueses suprimiram seu apoio de outrora, passando a fazer coro com os demais opositores. Desta crise política resultou o impeachment de Dilma Rousseff, depois de transcorrido um ano e oito meses de seu segundo mandato.