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Resumen de ponencia
Da vergonha ao reconhecimento: o artesanato como forma de resistência das quilombolas do Buriti do Meio

*Ana Carolina Radd Lima



Os potes de barros produzidos artesanalmente pelas mulheres do Quilombo Buriti do Meio, comunidade rural situado no Semiárido do Norte de Minas Gerais, que antes eram usados como utensílios doméstico, principalmente para armazenar água, começou a ser comercializado nas fazendas próximas ou mercados das cidades vizinhas e hoje se tornou a principal atividade produtiva da comunidade e ferramenta para as mulheres quilombolas em busca de reconhecimento.
É possível que o desenvolvimento do artesanato para além de sua função material, como atividade econômica, tenha contribuído não só para o processo de reconhecimento da comunidade como Quilombola, perante o estado, como no aspecto subjetivo, das mulheres que agora, se sentem reconhecidas como artesãs, e como cidadãs.
Com o objetivo de estudar o trabalho desempenhado pelas mulheres artesãs do Quilombo Buriti do Meio que dotadas de conhecimentos tradicionais transformam o barro em arte e fonte de subsistência, debruço-me então sobre a sociologia das emoções, por meio da díade de emoções, vergonha/orgulho.
Busco nesse trabalho pensar as emoções como uma categoria analítica importante nos estudos das relações sociais. É possível que o estudo das emoções abra uma perspectiva complementar ao acervo teórico e empírico que vem sendo desenvolvido na pesquisa que estamos realizando com as mulheres artesãs do Quilombo Buriti do Meio, situado no Município de São Francisco.
Segunda Gonzales, “Las emociones desempeñan un papel transcendental en la comprensión sobre la manera como se estructura la vida social”. De acordo com Le Breton (2013) estamos conectados com o mundo por uma rede continua de emoções. Dito de outro modo, por meio das emoções é que se constituem as relações sociais que estabelecemos cotidianamente com os outros.
O conjunto de emoções que emergem em determinadas situações se torna nesse sentido, uma ferramenta de auxilio que nos permite estudar a estruturação da vida laboral. Dito de outro modo, penso em como as emoções podem contribuir para a compreensão do trabalho desempenhado e de sua relação com quem o executa.
A pesquisa, de natureza qualitativa foi realizada através de narrativas biográficas (Santos, 2014) por meio de entrevistas abertas aplicadas as mulheres artesãs, observação direta e diversas conversas que ocorreram informalmente com a população local durante os meses em que estive como pesquisadora, na Comunidade acompanhando o trabalho desenvolvido pelas artesãs.
Por meio das emoções apresentadas nas interações com as mulheres artesãs é possível compreender um pouco mais sobre as relações entre elas – as mulheres quilombolas artesãs –, o artesanato e a comunidade. Na narrativa das mulheres, o ser artesão sofreu uma transformação, se no passado era motivo de vergonha, pois contam que “ficam sujas” e sofriam discriminação quando precisavam ir a cidade trocar por algum alimento, para dar o que comer a suas famílias, agora, após o reconhecimento como quilombolas, se tornou motivo de orgulho. Essa passagem fica bem clara no relato da artesã AL, “a gente era muito discriminada, quando a gente ia vender, a gente sofría muito, aqueles que não conheciam a gente, que não reconhece nada, acreditava que nós eram uma qualquer ... Fazia piada da gente…. Hoje não (...) A gente caminha mais sem dicrimanação, sente mais a vontade, qualquer lugar que a gente chega é reconochecido”.
As artesãs contam ainda que hoje não precisam levar suas peças a pé como era de costume para fazer as trocas, após o reconhecimento como quilombola, ganharam um caminhão, por meio de um projeto, para distribuição das peças e são convidadas para participar de feiras de economia solidária e expor suas peças. Vendem hoje, sobretudo, por encomenda.
Desta forma, partindo de uma sociologia das emoções, busco nessa pesquisa analisar as estratégias adaptativas desenvolvidas pelas mulheres artesãs da Comunidade Rural Quilombola Buriti do Meio. Procuro pensar na relação das mulheres com o trabalho, com o território e com os conhecimentos tradicionais e assim compreender o panorama das formas de trabalho desenvolvidas pelas mulheres. Em que medida o trabalho contribui para o fortalecimento da autonomia individual feminina – dentro e/ou fora da família – e para a manutenção da família e desenvolvimento da comunidade. A partir da experiência dessas mulheres busco compreender como o trabalho artesanal contribuiu para a permanência dessas mulheres no campo com uma vida digna e sustentável.




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* Radd Lima
Pontificia Universidad Católica do Río de Janeiro Puc Rio. RIO DE JANEIRO, Brasil