O trabalho é resultado de um esforço, dentre muitos empreendidos no âmbito de nosso grupo de pesquisa, de buscar uma articulação entre pesquisas individuais, para que proporcionem, continuamente, uma reelaboração teórica em novos patamares. Além disso, a dificuldade de falar sobre o próprio trabalho – seja pela complexidade do fenômeno, seja pela dificuldade que o sujeito tem de reconhecer sua relevância – reforçam a demanda por novas metodologias de investigação dos saberes do trabalho, sem o uso exclusivo da linguagem verbal. Destaca-se a importância de criar estratégias e instrumentos metodológicos para conhecer os saberes do trabalho e a experiência em geral que possibilitem tomar o saber como objeto de reflexão coletiva (CUNHA, 2010). Nesse esforço, o grupo de pesquisa Trabalho, Educação e Conhecimento vem buscando contribuir, através do estudo de metodologias e de investigações que recorrem à fotografia (MARTINS 2010, AUTORA b, 2011), vídeo (GODINHO, 2010), autobiografia (AUTORA c, 2010), entre outros, como estratégia para conhecer os saberes experienciais dos alunos. (AUTORA a et al, 2012)
Apresentam-se, pois, dois estudos de caso realizados isoladamente e que, neste artigo, ganham organicidade: um, com trabalhadores de um engenho de cana-de-açúcar, em uma cidade do nordeste brasileiro; e, outro, com fumicultores gaúchos.
Ambos os estudos tratam da produção de saberes em situação de trabalho, pelos trabalhadores, e sua articulação com a escola – matéria-prima teórica de todas as pesquisas desenvolvidas por nosso grupo. Os dois estudos foram analisados em conjunto porque, dentro deste espectro mais amplo, abordam a problemática do desenvolvimento local. Ambos têm também em comum o universo dos trabalhadores rurais, em municípios pequenos, ainda que em dois extremos do Brasil: no nordeste e no sul. Esta análise em conjunto torna-se possível porque, embora as realidades econômico-sociais das duas regiões possam ser consideradas muito distintas, a situação de exploração a que estão submetidos os trabalhadores do campo, nas feições que o capitalismo assume no Brasil, é uma só.
Fica evidente o desequilíbrio entre um e outro estudo: enquanto o estudo com os trabalhadores do sul abrange diferentes estratégias para acercar-se do objeto, o estudo com os trabalhadores nordestinos limitou-se às autofotografias e entrevistas com os sujeitos em torno das mesmas, Isto ocorreu pelo acesso que se teve a um e a outro grupo estudado . Ainda assim, acredita-se que é válida a análise conjunta dos dois estudos, pois, se por um lado não nos possibilita comparações e conclusões mais categóricas, por outro fornece pistas a outros pesquisadores quanto a potências e fragilidades das estratégias metodológicas utilizadas.
Tem-se como suposto que o sujeito está ‘engajado’ em um mundo que compartilha com outros, histórica e espacialmente situados (CHARLOT, 2000). Outro suposto é a tese defendida especialmente por Schwartz, dentre outros, sobre a atividade de trabalho, segundo a qual toda situação de trabalho implica experiência, reencontro com um patrimônio herdado (SCHWARTZ, ADRIANO, ABDERRAHMANE, 2008). A partir de tais supostos, entende-se que os saberes e experiências dos sujeitos estão vinculados ao espaço local em que vivem, o que impõe a necessidade de buscar aportes teóricos relativos ao desenvolvimento local.
Considera-se local como sinônimo de território, tal qual definido por Milton Santos: “[...] o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais da vida, sobre os quais ele influi” (SANTOS, 1997, p. 96). A compreensão sobre desenvolvimento local, que se ancora principalmente em Oliveira (2001), é de que este não é um espaço fechado em si e harmônico, mas, ao contrário, é constituído de embates e negociações, atravessado pelas mesmas contradições do global.
Por fim, dão suporte a nossas análises, os aportes da ergologia (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007), que, endossando as teses de Canguilhem, ajudam a entender o sujeito em atividade de trabalho.
Sem pretender estabelecer uma comparação direta entre os dois estudos de caso, dado o já referido aprofundamento desigual de ambos, a análise conjunta nos permite ver semelhanças e especificidades.
Em primeiro lugar, no que concerne à metodologia, quando se trata de dar visibilidade ao próprio trabalho, reforça-se a importância de lançar-se mão de diferentes estratégias. A autofotografia pode ser mais bem explorada. Em estudos recentes (autora a et al.) temos recorrido à confrontação cruzada – instrumento da clínica da atividade –, que consiste no diálogo entre os diferentes sujeitos produtores das fotografias acerca da produção fotográfica, o que expande as possibilidades de visibilização (CLOT, 2007).
Quanto aos resultados, uma das possíveis aproximações entre os estudos é o fato de que os jovens do primeiro estudo e os do segundo não são diferentes no que concerne às suas potências. Conhecem e elaboram saberes no seu trabalho, descobrindo nele a “ciência” que ele contém, recriando-o e extraindo dele, ao limite das possibilidades, seu vigor, vitalidade e motivo de orgulho, para dar-lhe algum significado.
Propusemo-nos, com o primeiro estudo de caso, a contribuir com a discussão acerca da noção de desenvolvimento local, a partir do posicionamento e da reflexão dos/das trabalhadores/as-estudantes, enquanto protagonistas do seu próprio destino, conhecedores e construtores dos saberes sobre o lugar onde vivem.
Embora os limites do estudo não nos permitam conclusões em uma só direção, foi possível perceber a ausência da escola e, quando presente, um total desconhecimento da realidade dos estudantes por parte da mesma. A ausência da escola e de qualquer oportunidade de ir além de sua realidade, e a invisibilidade desses jovens são evidentes.
Uma pergunta que permaneceu sem resposta foi se a escola teria potência para intervir em uma realidade tão adversa, tornando-se um espaço de reflexão sobre o desenvolvimento que se deseja, para os/as trabalhadores/as-estudantes que se percebem como protagonistas do desenvolvimento.
No segundo estudo, há possíveis respostas a essa indagação. Aqui se percebe as possibilidades abertas pela educação escolar. Nessa perspectiva, não se constata simplesmente o papel da escola, mas afirma-se que ela só tem sentido e é capaz de fazer a diferença se os processos educativos forem pensados de forma articulada à realidade histórica e social em que os sujeitos estão inseridos, com suas tensões e contradições. Isso significa uma ruptura da mera transmissão de conhecimentos e abre espaço para que os estudantes trabalhadores também produzam saberes, a partir de suas experiências, fazendo com que a escola assuma o seu sentido educativo. Nessa formação, o trabalhador deverá estar no centro do processo de ensino-aprendizagem, em que o trabalho é eixo articulador, para que a formação integrada se torne um espaço privilegiado para conferir ao trabalho um lugar de dignidade.
Os alunos e a professora destacam, para além da formação e da construção de saberes, a transformação pessoal e social pela qual todos passaram, inclusive a professora. Esse é o objetivo maior da educação, contribuir para que haja um crescimento pessoal para além da profissionalização. No entanto, apesar do conflito, da contradição e da condição de opressão vivida pelos alunos trabalhadores na fumicultura, os saberes e os valores do/no trabalho na agricultura contribuíram para a reflexão e o desvelamento dessa mesma realidade. O desenvolvimento da capacidade crítica e reflexiva desses alunos apontou para a importância de que a escola promova um espaço de valorização dessas experiências de vida e trabalho. Essas experiências dos alunos têm um grande potencial a ser descoberto e valorizado, não só pela escola e pelos professores, mas pelos próprios trabalhadores, para que essa (re)significação da experiência e do saber faça brotar e “florescer” novas alternativas de vida e trabalho.