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Resumen de ponencia
Neoextrativismo, conflitos e resistências: Contribuições desde uma perspectiva latino-americana

*Gabriela Blanco



Atualmente, observa-se na América Latina um processo de reprimarização das economias, que se une a um modelo de desenvolvimento neoextrativista, contemplando não somente as atividades consideradas tipicamente como extrativistas, como a mineração, mas também o agronegócio e a produção de biocombustíveis (Merchand Rojas, 2016; Svampa, 2012). No caso brasileiro, as articulações existentes entre o setor da mineração e do agronegócio se evidenciam na atividade de extração mineral voltada à produção de fertilizantes. Sendo o Brasil um dos maiores mercados de agronegócio do mundo, ele é, igualmente, o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, atrás somente da China, Índia e Estados Unidos. Contudo, do total que consome para a agricultura, o país importa cerca de 75% de seus insumos. Um dos caminhos para diminuir esta dependência é a intensificação das atividades de extração de minérios para fertilizantes. Como consequências deste processo há um aprofundamento da dinâmica de espoliação de terras, recursos e territórios (Svampa, 2012; Harvey, 2004), além do fortalecimento de um modelo de monocultivo, que desestrutura e reordena os territórios (Gudynas, 2010). Ademais, destaca-se que o aprofundamento da dinâmica de espoliação evidencia-se não apenas nos processos primários de produção de commodities, mas em toda uma cadeia que se conecta a etapas de maior industrialização, articulando distintos setores da economia. Segundo o Atlas de Justiça Ambiental, que desde 2014 mapeia os conflitos ambientais em todo o mundo, o Brasil está em terceiro lugar em número de conflitos e uma empresa como a Vale S.A, central na extração mineral no país, é indicada como a quinta companhia mundial mais envolvida em conflitos ambientais. O presente trabalho, que parte de um projeto de doutorado em sua fase inicial, propõe-se a apresentar algumas das principais contribuições do campo de estudos da ecologia política e das análises sociológicas latino-americanas sobre conflitos ambientais, com o intuito de fornecer subsídios para a análise de conflitos territoriais engendrados, especialmente, pelos setores da mineração e do agronegócio nas localidades onde mantêm suas atividades. Os principais conceitos que serão analisados, de modo relacional, são os de modelo de desenvolvimento neoextrativista (Merchand Rojas, 2016; Svampa, 2012), território (Haesbaert, 2004; Machado Aráoz, 2015) e conflitos ambientais/territoriais (Zhouri; Laschefski e Pereira, 2005; Acselrad, 2004). Como pano de fundo, há os seguintes questionamentos que a pesquisa de doutorado se propõe a responder: Como se relacionam as práticas territoriais das grandes empresas às práticas dos membros das comunidades locais, que, na maioria das vezes, tornam-se trabalhadores destas empresas? De que modo os conflitos territoriais se engendram e se evidenciam, considerando-se a existência de formas diversas de resistência cotidiana (Scott, 2002) para além do conflito organizado? Ao final do trabalho, tecem-se algumas considerações, ainda que incipientes, sobre potencialidades e limitações observadas no uso deste referencial teórico para a análise do objeto empírico pesquisado. Particularmente, aponta-se a necessidade de aprofundar as análises deste campo de estudo, uma vez que há especificidades entre os países latino-americanos, assim como formas de resistência na (re)construção e (re)significação dos territórios, por parte das comunidades locais e trabalhadores diretamente imbricados nas atividades extrativistas, que não emergem em certos estudos que, por vezes, simplificam a realidade por meio de dicotomias como racionalidade econômica/ecológica, território mercadoria/território lugar de viver, territorialização/desterritorialização, ou que não complexificam as configurações e consequências de processos fortalecidos pela exportação de commodities, mas não limitados a ela. Assim, o trabalho pretende avançar nos estudos sociológicos e interdisciplinares sobre sociedade e ambiente, focando nas particularidades presentes na associação entre as práticas dos setores da mineração e do agronegócio, no que se refere à produção de conflitos territoriais dentro de um modelo de desenvolvimento neoextrativista.




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* Blanco
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas. Universidade Federal de Rio Grande do Sul - PPS/UFRGS. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil