Trata-se de tese de doutorado em andamento, junto ao Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Unisinos, que objetiva analisar e compreender a problemática existente em torno da atuação transnacional do contrabando de migrantes, considerada prática criminosa e altamente lucrativa, em relação àqueles fluxos migratórios indocumentados em direção ao Brasil e Argentina, entre o período de 2010 a 2018. A abordagem na esfera social é fundamental, vez que permitirá vislumbrar o problema como fator social, e por sua vez facilitar diagnósticos. Para tanto será realizada pesquisa bibliográfica nacional e internacional, e entrevistas semi-estruturadas, com agentes sociais vinculados a órgãos públicos, a Sociedade Civil dos países mencionados e das Organizações Internacionais que tratam do tema. Muito embora, a pesquisa encontrar-se em estágio inicial, é possível perceber que as bases políticas e jurídicas migratórias do Brasil e Argentina podem ser consideradas restritivas, visto corroborarem, sobretudo, a partir de 2010, com a diminuição das possibilidades de uma migração regular, legal e segura através do mundo, o que resulta no aumento de um regime de migração clandestina.A temática em questão se justifica por sua relevância social, por tratar-se de um fenômeno complexo com implicações no cenário brasileiro e argentino, pela carência de estudos relacionados ao tema e seus desdobramentos, assim como a incidência direta de temas correlatos, a exemplo: globalização, fronteira, cooperação internacional, entre outros. O fato é que, desde o ano de 2010, ambos os países passaram a ser destino do significativo fluxo de deslocamentos de migrantes, sobretudo de haitianos que se deslocam de forma indocumentada ou irregular, acentuando a atuação dos coiotes. Compreender as políticas internas adotadas pelo Brasil e Argentina voltadas ao enfrentamento do contrabando transnacional de migrantes, bem como averiguar se há cooperação entre ambos os países, no intuito de enfraquecer a rede criminosa dos coiotes, contribuirá para o fortalecimento de mecanismos de prevenção e proteção daqueles que migram, e que são os principais atores sociais no cenário desolador da maior crise migratória existente no cenário internacional. O objeto de estudo, ancorado nas questões de mobilidade humana e suas implicações no cenário global, está amparado pelo referencial teórico dos sociólogos Immanuel Wallerstein, que auxiliará na análise de sistemas-mundo não limitado a nações ou a determinadas regiões, sendo o único sistema-mundo existente até o período moderno, e nesse contexto se torna importante entender o funcionamento da rede criminosa dos contrabandistas envolvida com os deslocamentos forçados, assim como em qual sistema-mundo “econômico” está inserido o resultado de tal atividade, pois se trata de uma rede mundial, altamente estruturada e organizada, e com livre trânsito nas fronteiras do Brasil e Argentina; Manuel Castells, sendo possível pensar a influência dos sistemas de redes interligados na atividade desempenhada pelos coiotes, ou seja, a expansão e diversificação do cometimento desta prática criminosa transnacional em prol das redes de contrabando de migrantes, integradas ao sistema- mundo e vinculadas a organizações e associações criminosas internacionais; Zygmunt Bauman, que por sua vez auxiliará na compreensão dos deslocamentos forçados e seus reflexos na sociedade transnacional, sobretudo no tocante as fronteiras do Brasil e Argentina. Somado a isso relevante averiguar o papel dos atores sociais envolvidos neste processo; e do filósofo Giorgio Agamben, visto relevante compreender a ideia de estado de exceção, na medida em que o migrante não documentado ou irregular recorre ou é aliciado pelos coiotes, o que de certo modo os coloca em situação de estado de exceção, onde a vontade soberana da rede dos contrabandistas passa a controlá-los e regulá-los, reduzindo suas vidas em condição de mera vida nua, pois estão desprovidos de direitos políticos advindos do Estado-nação. No mesmo sentido, o sistema político-jurídico, através do controle biopolítico acaba por manipular as questões relacionadas à migração e a excluí-los, como atores sociais das decisões políticas e jurídicas que lhe dizem respeito. Da mesma forma, se utilizará dos dados e das pesquisas realizadas pela Organização Internacional para as Migrações, com escritórios em Brasília e Buenos Aires, e do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos do Mercosul, que preocupa-se, por meio de políticas, com a prevenção e proteção dos migrantes face a atuação dos contrabandistas.