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Resumen de ponencia
Comunicação em rede, diferenças e interculturalidade em redes sociais de migrantes senegaleses no Sul do Brasil

*Liliane Dutra Brignol



O trabalho proposto integra pesquisa sobre novos fluxos de migrações transnacionais para o Sul do Brasil, cujo objetivo foi investigar as redes sociais migratórias de senegaleses (com foco nos municípios de Porto Alegre, Caxias do Sul e Santa Maria, estado do Rio Grande do Sul). Neste trabalho, buscamos discutir como as mediações das identidades e tecnicidades (MARTÍN BARBERO, 2006) atravessam as experiências migrantes de usos sociais das mídias, especialmente das mídias digitais e em rede por sujeitos nascidos no Senegal, África Ocidental.
Nesta trajetória de investigação, nos valemos de uma aproximação à perspectiva interdisciplinar dos estudos culturais, tanto a partir de sua dimensão teórica quanto através de algumas de suas premissas metodológicas. Teoricamente, pensar a comunicação em rede de migrantes senegaleses implica em refletir sobre a própria compreensão das migrações transnacionais como produtoras de sentidos de deslocamentos que vão muito além dos geográficos, mas implicam em processos de ressiginificação simbólica através dos quais as identidades, as diversidades e as diferenças são colocadas em contato de maneira muito mais dinâmica e desafiadora.
Para isto, partimos de uma revisão teórica sobre as noções de identidades em diáspora (HALL, 2003; GILROY, 2007 e 2012) e da perspectiva das mediações (MARTÍN-BARBERO, 2001) para fundamentar a análise sobre apropriações midiáticas por migrantes senegaleses residentes no Rio Grande do Sul. As estratégias metodológicas foram construídas a partir de uma perspectiva etnográfica (GUBER, 2001), com a inserção em um campo de investigação amplo, complexo e multisituado (MARCUS, 1995), por abarcar dinâmicas de comunicação em rede (CASTELLS, 2015) que se constroem de modo transnacional (PORTES, 1997), em práticas e processos de comunicação que se dão entre as instâncias online e off-line (HINE, 2015).
Através das técnicas da observação simples, observação participante, de conversas informais e entrevistas semi-estruturadas, buscamos conhecer o contexto das redes sociais migratórias de senegaleses nos municípios de Santa Maria, Caxias do Sul e Porto Alegre. A partir do trabalho de campo, chegamos a um conjunto de percepções sobre as apropriações das tecnologias da informação e da comunicação pelos sujeitos migrantes em sua experiência de deslocamento, o que sistematizamos em oito dimensões de usos sociais das mídias por migrantes senegaleses: apropriações relacionadas às famílias e relações transnacionais; redes de apoio intra e interculturais; associativismo migrante; vivência religiosa trasnacional; empreendedorismo social e cultural; aprendizado formal e informal; comunicação em rede e mídia migrante; cidadania migrante e políticas de posição anti racismo.
Estes múltiplos usos sociais das mídias por migrantes senegaleses assumem sentidos táticos de participação social, de construção de narrativas de si, de manutenção de vínculos, de construção de redes de apoio, de ressignificação da experiência diaspórica e de cidadania migrante. A dinâmica transnacional, própria das migrações contemporâneas, atravessa as vivências religiosas, além de fundar a conformação de relações familiares que se mantém e se ressignificam à distância, pela mediação tecnológica. Neste processo, as identidades migrantes são reconfiguradas, exigindo novos posicionamentos dos sujeitos a partir das experiências no contexto local em que estão inseridos. Neste contexto, as identidades são vividas enquanto narrativas atravessadas pela condição migrante e pelas múltiplas apropriações das tecnologias das mídias – sobretudo mídias digitais móveis.
A mediação tecnológica na experiência migratória pode ser pensada, também, em termos de competências e de constituição de modos de viver as identidades em diáspora, quer seja nas mídias de migração, na organização de redes de apoio, no aprendizado formal e informal de idiomas e na disputa por políticas de posição que buscam recolocar o migrante na condição de sujeito. Os casos observados ao longo da pesquisa indicam, ainda, a situação da migração como possibilidade de colocar em contato diferenças, evidenciar conflitos e, até mesmo, promover encontros que levam a um possível diálogo entre culturas.





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* Dutra Brignol
Universidade Federal de Santa Maria UFSM. Santa Maria - RS, Brasil