O objetivo central do presente trabalho é analisar como um grupo de adolescentes internados em uma Unidade Socioeducativa na cidade de Porto Alegre-RS articula as comparações entre o trabalho lícito e o tráfico de drogas. Mais especificamente, questiona-se quais são as diferenças e semelhanças mobilizadas pelos adolescentes entre o aprendizado da profissão e o "treinamento" para o tráfico de drogas. Tal problemática foi desenvolvida em razão da hipótese de que a adesão por adolescentes a essa atividade ilícita pode ser mais bem compreendida através de uma aproximação à noção de trabalho. Metodologicamente, realizaram-se grupos focais com dez adolescentes, os quais foram orientados a discutir sobre trabalho, profissionalização e tráfico de drogas. Dentre diversas possibilidades de análise dos dados empíricos produzidos, este trabalho enfoca sua análise nos processos de aprendizagem vivenciados pelos adolescentes no decorrer do curso profissionalizante que faziam parte no momento da pesquisa em comparação com aqueles experienciados em sua vivência ou em suas percepções sobre o mercado ilícito de drogas. A análise das interações produzidas pelos grupos focais possibilitaram a sistematização dos resultados da pesquisa, os quais serão a seguir apresentados de forma resumida.
Em relação às formas de aprendizagem dos trabalhos lícitos, a escola e o ensino de modo geral foram indicados, não apenas como o local do “começo”, mas como essenciais para a conquista de melhores trabalhos. Ao contrário do que normalmente se acredita sobre as marcas da escola na vida de jovens delinquentes, a instituição e os professores foram extremamente valorizados pelos adolescentes: “o professor é a base né”. Ao relacionarem a temática com o trabalho, os adolescentes acabaram por reafirmar as conclusões de Lyra sobre o papel da escola na vida dos “meninos do morro”, cuja imagem é mais positiva do que normalmente se entende (2013, p. 79). Assim, reforçou-se a ideia de que a escola, bem como o trabalho, não são categorias rejeitadas por tais sujeitos.
Entretanto, também houve uma relativização da essencialidade absoluta do estudo para o aprendizado de um trabalho, na medida em que esse poderia ser substituído pelo esforço e pela observação dos demais. Essa ideia de “observação” foi considerada pelos grupos como sendo a disposição mais importante para o aprendizado, seja no trabalho, na profissionalização ou no tráfico. Em relação a este último, contudo, ela foi vinculada à necessidade de possuir paciência para alcançar a compreensão total das operações específicas dessa atividade e, principalmente, para a aquisição da confiança dos demais. Essa observação é, tanto no trabalho como no tráfico, direcionada aos mais antigos, somada, no caso desse último, ao auxílio direto por parte destes conselheiros.
Segundo os jovens, parecem ser esses guias os portadores do “espírito de liderança”. Todavia, há diversas formas para adquirir esse espírito: a) hereditariedade (“muitos já vem de sangue”); b) o aprendizado com os antigos líderes (“tu vai aprendendo sendo mandado”) e; c) o capital econômico anterior (“não adianta só o espírito”). A extrema importância desses sujeitos guias para inserção dos adolescentes no tráfico de drogas também foi indicada por Rolim (2016). O autor apontou o “treinamento violento” como a principal potência causal para a constituição nos jovens possuidores da “disposicionalidade violenta”, a qual é definida como “a propensão variável de legitimar ações ilegais de punição física - entre as quais o resultado morte - e de agredir fisicamente independente de provocação” (2016, p. 213).
Assim, ao basear-se na Teoria da Violentização de Athens, na qual o processo de constituição do ser violento se daria nas etapas da subjugação violenta, horrorificação e treinamento violento (ROLIM, 2016, p. 215), o autor identificou em pesquisa com adolescentes considerados violentos uma extrema relevância da terceira etapa na sua formação. As experiências vividas e os modelos sociais oferecidos na comunidade, ou simplesmente a socialização comunitária, seriam, para Rolim, os principais fatores causais da disposicionalidade violenta desses jovens, o que, em certo sentido, também pode ser identificado na presente pesquisa, na medida em que os adolescentes descreveram o processo de aprendizado do tráfico como resultado da observação daqueles já inseridos na atividade. O processo se constitui em ciclos não muito longos, talvez em razão da alta taxa de mortalidade desses sujeitos. Então, em um dado momento, chega-se a um patamar em que basta o “teu nome” que os demais irão trabalhar pra ti, em um ciclo de substituição dos antes líderes por aqueles agora já possuidores da “confiança” e do respeito dos demais. Para tanto, contudo, “tem que ter sangue”.
Ressalva-se que, conforme pesquisa que procurou desvendar os mecanismos de ascensão econômica no interior do mercado ilícito de drogas no Rio de Janeiro, “ter que ter sangue” não parece ser apenas uma metáfora utilizada pelos adolescentes para indicar a necessidade de esforço e dedicação, mas condiz com uma realidade em que o principal fator que permite a conquista de cargos superiores e de melhores salários dentro do tráfico está relacionado ao envolvimento nas disputas violentas entre gangues (CARVALHO; SOARES, 2013, p. 2). Assim, para Carvalho e Soares há um forte retorno financeiro à experiência, lealdade e bravura. Os autores conseguiram isolar tais indicativos e demonstraram que cada ano a mais de trabalho do sujeito para um grupo do tráfico de drogas gera em torno de 10% de aumento nos ganhos, enquanto a participação em conflitos armados adiciona 5% e a punição por falhas no cumprimento de regras chega a reduzir até 17% nos ganhos com a atividade (CARVALHO; SOARES, 2013, p. 2-3).
De todo modo, os adolescentes indicaram que, tanto na atividade do trabalho lícito como naquela do tráfico de drogas, não é possível “nascer sabendo”. Em ambas, portanto, há um processo de aquisição dos conhecimentos necessários, ao passo que a diferença reside nas formas de aquisição: enquanto no trabalho o estudo é operado como fator importante, podendo ser substituído pelo esforço; no tráfico a paciência no aprendizado, somada à observação contínua são as principais ferramentas desse processo. Nesse ponto, portanto, a pesquisa se aproxima das noções da Teoria da Associação Diferencial, calcada pela primeira vez por Sutherland (1949, p. 13).
A partir do conceito de “crime profissional” calcado por essa teoria (SUTHERLAND, 1949, p. 32), além de aproximar a ideia da participação no tráfico da noção de profissão, conforme o faz o autor, é possível ainda extrair desses casos a ideia da racionalização e do compartilhamento entre os participantes das técnicas delituosas do grupo. Assim, em relação à atividade ilícita, os adolescentes relataram operações internas do tráfico que são possíveis de serem compreendidas a partir da ideia de Sutherland de que o aprendizado das técnicas criminosas decorre do comportamento sistemático oriundo de um conflito social (1949, p. 16)
Em suma, os grupos focais realizados demonstraram que, enquanto a escola e o esforço pessoal são relevantes na aprendizagem do trabalho lícito, a paciência é mais necessária no tráfico de drogas. Há, entretanto, a coexistência de uma disposição em específico: a observação. Assim, a etapa da observação ocorre em ambas as atividades, mas ganha contornos mais significativos no caso do tráfico, pois, em relação a ele, o treinamento por parte de “guias” já integrados e o consequente ganho de confiança diante dos demais é crucial para qualquer tipo de ascensão interna na organização.
De qualquer modo, se no caso da profissionalização os adolescentes entendem que o esforço pode acabar substituindo o estudo, quando se referem ao tráfico de drogas esse esforço ganha contornos mais literais e passa a ser apresentado pela expressão “tem que ter sangue”, cuja significação vai além de uma simples metáfora com a necessidade de dedicação e parece representar a imprescindibilidade da participação em conflitos armados para almejar posições de maior poder dentro dos grupos criminais. Por fim, se a comunicação entre os pares se apresentou como um obstáculo para os adolescentes tanto no caso do tráfico de drogas, quanto em outras experiências de trabalho, ela apareceu como fator de maior valorização do curso profissionalizante, tido como um local de aprendizado - e não de trabalho - cujo principal ponto positivo reside na possibilidade de auxílio mútuo entre os participantes.
Referências:
CARVALHO, Leandro; SOARES, Rodrigo R. Living on the Edge: Youth Entry, Career and Exit in Drug-Selling Gangs. Journal of Economic Behavior & Organization, v. 121, 2016, p. 77-98.
LYRA, Diogo. A República dos Meninos: juventude, tráfico e virtude. Rio de Janeiro: Mauad X: FAPERJ, 2013.
ROLIM, Marcos. A formação de jovens violentos: estudo sobre a etiologia da violência extrema. Curitiba: Appris, 2016.
SUTHERLAND, Edwin H. Princípios de Criminologia. São Paulo: Livraria Martins, 1949.