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Resumen de ponencia
Coletivos na cidade de São Paulo: práticas políticas de ação coletiva contemporânea

*Caio Valiengo
*Marilia Jahnel De Oliveira



Estudos recentes sobre movimentos sociais e ação coletiva apontam aspectos como a renovação dos atores sociais e a emergência de novas práticas como demonstrações da dinâmica constante dos movimentos sociais e de espaços coletivos de organização política. Em São Paulo, grupos que se identificam como “coletivos” apontam para a diversidade do atual cenário de atuação e mobilização política contemporânea. Por meio da análise de questionários respondidos por integrantes de 18 Coletivos que atuam na cidade, o objetivo deste artigo é analisar elementos como suas estruturas organizativas e práticas decisórias, tipos de ações realizadas, relação com movimentos sociais tradicionais, partidos políticos e espaços institucionais de participação social, mobilização e aspectos relacionados à internet, permitindo caracterizar os repertórios e experiências dos coletivos mapeados a partir de um conjunto de práticas e fazeres.

Ao considerarmos ações coletivas e movimentos sociais como fenômenos históricos decorrentes de lutas sociais que se transformam com as mudanças estruturais e conjunturais da sociedade, estes são objetos de estudo permanente (Gohn, 2014a). Estudos recentes sobre sociedade civil e ação coletiva contemporânea apontam aspectos como a internacionalização do ativismo, a renovação dos atores sociais e a emergência de práticas políticas que incorporam novas temáticas e formas de organização, bem como a ampliação das possibilidades da comunicação, demonstrando a diversidade dos movimentos e ações coletivas. (Cf. Bringel, 2011; Castells, 2013; Gohn e Bringel, 2012; Scherer -Warren, 2006). Esse cenário demanda atualização das interpretações sobre esses aspectos e de suas interações para aprofundar a reflexão acerca do momento atual dos movimentos sociais e ações coletivas (Abers e Von Bulow, 2010; Szwako; Dawbor; Carlos, 2017; Almeida, Ulate, 2017).

O ciclo global de protestos, que marcou a resistência neoliberal nos anos 90, trouxe o caráter internacional dos movimentos sociais e a necessidade de construção de um princípio que unificasse as demandas e apontasse para estratégias comuns para romper com o capitalismo, como elementos para a reflexão sobre a organização dos movimentos sociais de resistência da sociedade civil. Os movimentos altermundistas que se opuseram ao processo de globalização capitalista articulam singularidades de lutas locais com o global através da convergência de aspectos do neoliberalismo e suas consequências. A amplitude e convergência das resistências mundiais, que tiveram seu auge no Fórum Social Mundial, resultaram da mundialização capitalista que estendeu as consequências das políticas neoliberais em diversos países.

As lutas iniciadas em 2011, como as resistências da Primavera Árabe (Tunísia, Egito, Líbia, Síria), os Indignados (Espanha), Occuppy Wall Street (EUA), as Jornadas de Junho de 2013 e a luta dos Secundaristas (Brasil) e o movimento estudantil do Chile, marcam uma onda de mobilização e protestos sociais ocorrida em diversos países e nos provocam a pensar sobre questões como o papel da internet e dos meios de comunicação nas formas de mobilização, na ocupação de espaços públicos das cidades como estratégia de disputa política, na relação dos ativistas com as demandas colocadas por esses movimentos, no questionamento em relação aos partidos, sindicatos e espaços instituídos de participação social, bem como os limites da democracia e suas instituições. Ainda, apontam para uma forma de atuação e organização em rede, em uma constante articulação entre demandas e identidades, e para um discurso de horizontalidade e de práticas colaborativas.

Os aspectos citados retratam a diversidade da atuação política da sociedade civil nos últimos anos e diferenciam-se dos formatos de organização que foram institucionalizados em sindicatos, partidos políticos, conselhos, conferências, fóruns e entidades do terceiro setor, entre outros. São características que têm marcado não só os protestos e manifestações na última década, mas também a construção de outros espaços e tipos de ação coletiva como, por exemplo, os grupos autodenominados coletivos.

Na cidade de São Paulo, território dessa pesquisa, são inúmeros os grupos que se nomeiam coletivos, por vezes chamados de “coletivos urbanos”, e entre eles encontramos pluralidade de atuação temática e variados perfis dos membros que os compõem. Eles têm despertado atenção de pesquisadores pois indicam reunir aspectos que os diferenciam de outras formas de ação coletiva e que apontam para reflexão sobre questões conjunturais e macroestruturais da sociedade.

O objetivo deste artigo é analisar o conjunto de práticas e fazeres que caracteriza esses coletivos. Ao investigar alguns aspectos referentes aos coletivos que atuam em São Paulo, a partir dos dados fornecidos por um questionário respondido por grupos que assim se autodenominam, o presente artigo busca contribuir com o campo de estudo sobre movimentos sociais e ação coletiva na contemporaneidade apontando aspectos da diversidade das atuações e mobilizações políticas e agregando elementos ao fenômeno da emergência dos coletivos na cidade.

A denominação coletivo enquanto demarcador característico de um tipo de ação coletiva aparece, inicialmente, em pesquisas e publicações que abordam a atuação de grupos relacionados às áreas cultural e artística. Em publicações mais recentes, podemos encontrar os coletivos em abordagens para além do recorte cultural e artístico. Os exemplos de estudos até aqui mencionados não deixam de realizar uma análise das atuações e relações políticas dos coletivos, com a cidade, com o Estado ou com o mercado, entretanto não há uma reflexão orientada por teorias e paradigmas da ação coletiva, dos movimentos sociais, da participação e da sociedade civil.

Se algo é certo, é que há uma definição em construção do termo coletivo. As publicações mais antigas não apresentam uma definição conceitual e o tema aparece como um sinônimo para “grupo” (Cf. Gonçalves, 2010; Mesquita, 2003; Zatz, 2012). Já Aderaldo (2016) e Santos (2017), apresentam definições para coletivo que convergem em relação ao aspecto político de atuação e apontam para o caráter informal e “não fechados” de organização de ação coletiva. O elemento de maior fluidez e horizontalidade é destacado por Gohn e Medeiros (2015) no uso do termo “forma - coletivo”.

Nas duas últimas décadas, São Paulo tem vivido um processo de multiplicação de grupos que se reúnem para atuar politicamente na cidade e que se autodenominam coletivos. Eles têm despertado atenção de pesquisadores pois indicam reunir aspectos que os diferenciam de outras formas de ação coletiva e que apontam para reflexão sobre questões conjunturais e macroestruturais da sociedade. Neste artigo, coletivos serão considerados grupos de pessoas que compartilham ideias e valores, que reconhecem o grupo do qual fazem parte como seu espaço e meio de atuação em disputas políticas e que se autodenominam coletivo.

Analisaremos os seguintes elementos dos coletivos: (1) estruturas organizativas e práticas decisórias; (2) tipos de ações realizadas; (3) atuação em rede com parceiros; (4) relação com movimentos tradicionais, partidos políticos e espaços institucionais de participação social; (5) mobilização e (6) práticas relacionadas à internet e tecnologia. Para tanto, aplicamos um questionário online, entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018. O questionário foi respondido por membros dos coletivos e continha questões de perfil que dizem respeito apenas aos respondentes, como também questões referentes aos repertórios e práticas desses grupos.

No total, o questionário foi enviado para 35 membros de coletivos e foram obtidas 18 respostas. O critério de escolha dos grupos foi a autodenominação como coletivo. A ideia de analisar grupos com diferentes perfis políticos, áreas de atuação e estrutura organizativa, teve como objetivo buscar na heterogeneidade de suas identidades e práticas pontos em comum que poderiam demarcar sua escolha pela autodenominação como coletivo.

De maneira geral, o questionário abrangeu o perfil do respondente e perfil do grupo. O primeiro teve os seguintes aspectos: idade, gênero, raça/etnia, região de moradia, escolaridade, ocupação, se a principal fonte de renda é proveniente das ações do grupo e se participa de outro coletivo. O perfil do grupo abordou os seguintes elementos: ano de fundação, área temática e região de atuação, número de integrantes e média de idade, principais ações, representação em espaços institucionais de participação, uso das redes sociais, relação com a grande mídia, papel da internet e de tecnologias nas práticas políticas, periodicidade dos encontros, divisão de tarefas, processos decisórios, parcerias, financiamento e o motivo por se identificarem como coletivo.

É importante frisar que, para este artigo, a análise destes grupos não é exaustiva, nem pode ser generalizada para realidade de todos coletivos de São Paulo. No entanto, ela certamente contribui para mapear a diversidade do campo da ação coletiva, agregar elementos ao fenômeno da emergência dos coletivos na cidade, bem como interpretar as formas de atuação e mobilização política contemporânea e sua relação com os processos sociais mais amplos.

Nesta linha, uma expansão da pesquisa sobre os coletivos que ampliasse o alcance e a aproximação com o cotidiano do fazer político desses grupos, traria importante acúmulo para a atualização das interpretações sobre os movimentos sociais e as atuações políticas coletivas da sociedade civil na contemporaneidade.




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* Valiengo
Universidade Federal do ABC - UFABC. São Paulo, Brasil

* Jahnel De Oliveira
Universidade Federal do ABC - UFABC. São Paulo, Brasil