A pesquisa tem por objeto de investigação a condição das mulheres no mundo do xadrez. Seu propósito é analisar as relações sociais de gênero e as desigualdades presentes no universo do xadrez, assim como a posição ocupada por mulheres nas competições desta natureza. A esse objetivo geral da pesquisa, soma-se o intuito de explorar o ambiente esportivo como um campo de análise da prática social e de construção de feminilidades e masculinidades, desmistificando características supostamente inatas dos atletas.
Após realizar uma reunião da literatura que inclui as temáticas: 1) gênero e esporte e 2) gênero e xadrez, a pesquisa aproxima a etnografia desse universo, através da análise de uma competição profissional do esporte, pretendendo coletar dados e informações sobre a diferença de participação e performance entre os gêneros, além de investigar os comportamentos de um ambiente majoritariamente masculino e qual o lugar das mulheres nesse universo.
Trabalhando com referenciais construídos a partir de instrumentos de pesquisas como: levantamento bibliográfico e documental, observação e registro em diário de campo, entrevistas, questionários, formulários, dados audiovisuais e publicações em periódicos, a pesquisa de caráter qualitativo e quantitativo inclui também uma análise biográfica de dois destacados mestres de xadrez, de ambos os gêneros, a fim de compreender as diferentes posições a eles atribuídas e as dificuldades que enfrentam por suas distintas condições sociais.
Considerando que os esportes passam por um processo de generificação que lhes conferem uma identidade mais masculina ou feminina, o que influencia no julgamento dos atletas que os praticam, principalmente àqueles contrários ao predominante no campo, destaca-se que: 1) nos físicos há uma identificação mais clara dessas fronteiras – à medida em que julga-se que, por natureza, os homens deveriam dedicar-se aos esportes que exigem mais força e movimentos violentos e 2) nos que não precisam se valer da força física, as mulheres se adequariam melhor, pois nessas práticas esportivas poderiam mesmo exibir sua docibilidade, sensibilidade, suavidade de movimentos e fragilidade, principalmente em função da reprodução. No entanto, ao falar de feminilidade, entende-se não apenas a questão física, mas a emocional e racional da mesma forma, o que apresenta o xadrez como um frutífero campo de pesquisa.
Tratando-se, neste trabalho, do esporte não apenas como prática amadora e fonte de lazer, a própria profissionalização das atletas já transcende a noção generalizadora que entende a prática de competições como uma característica própria do ethos masculino e a maior participação das mulheres nesses espaços pode colaborar para a alteração dessa realidade. As que ousam dedicar-se integralmente ao esporte, construindo uma carreira e participando de uma cultura – repleta de leis e regularidades que não estão escritas em local algum – trazem suas trajetórias como argumentos questionadores da ideia de que, por razões biológicas, as mulheres seriam inferiores em suas capacidades físicas, intelectuais e emocionais.
Na atualidade, há uma grande diferença de participação de homens e mulheres no âmbito profissional do xadrez e, consequentemente, em seus resultados. Contrariando os argumentos de que tais discrepâncias possuem caráter congênito e, portanto, imutável, é importante considerar que o domínio do saber e do crescimento fora do espaço privado sempre foi destinado ao homem. Enfrentar essas discordâncias como possíveis produtos de uma cultura que molda os gêneros para que incorporem características antagônicas de masculinidade e feminilidade, é também refletir sobre os seguintes antagonismos: racional X emocional; força X fraqueza; agressividade X sensibilidade; dentre outros.
Além disso, em função de suas contribuições teórico-epistemológicas e da ideia de que os esportes e seus cenários muito podem revelar sobre as visões de mundo e as relações sociais entre os sujeitos, o campo enxadrístico ainda se apresenta como um ambiente generificado e generificador, podendo trazer uma ressignificação outra de tudo o que se pensa sobre mulheres no que diz respeito às obrigações a elas associadas, com o aumento da disputa e da inserção feminina. À medida em que as mulheres adentram espaços que historicamente não foram ocupadas por elas, trazem não só um questionamento à ordem vigente, mas a possibilidade de transgressão dessa ordem e da construção de um ambiente mais plural e igualitário.
Desta forma, as relações de gênero merecem especial atenção no xadrez, já que por tratar-se de um esporte não físico, em que o corpo não constitui o principal instrumento, e embora haja avanços com a criação de federações e organizações em prol da defesa do desporto para as mulheres, fortes barreiras e dificuldades de abrangência aparecem, ficando as enxadristas, muitas vezes, afastadas dos movimentos e invisibilizadas nas particularidades de seu campo esportivo – que a propósito, é o segundo mais praticado no mundo, perdendo apenas para o futebol.
Assim sendo, o trabalho em andamento apresenta resultados parciais que podem acrescentar nas investigações das ciências sociais sobre gênero e esporte, já que as mulheres enxadristas apresentam peculiaridades e desigualdades em suas representações, que muito dizem sobre a força e naturalização da hegemonia masculina em algumas práticas esportivas e a dificuldade encontrada para ultrapassá-las. Se adentrar esses espaços dominados pelo "masculino" ainda constitui-se um grande desafio para as mulheres, certamente estudá-lo a fim de entender como estão assentadas, no xadrez, as relações sociais de gênero e suas mais variadas constituições espaciais, sócio/esportivas e culturais pode ser uma útil ferramenta na tentativa de alçar um ambiente esportivo mais democrático, livre e aberto à participação feminina.