Com esse trabalho objetivo compreender o significado de uma escola profissionalizante, localizada em um bairro periférico da cidade de Fortaleza-Ceará, Brasil, na construção de projetos de futuro para jovens estudantes de 16 a 19 anos concluintes do ensino médio dos cursos de Redes de Computadores e Estética. O referido trabalho é resultado da minha pesquisa de Mestrado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Sociedade na Universidade Estadual do Ceará, intitulada “Entre oportunidades, sonhos e realidade: experiências de jovens estudantes em uma escola profissionalizante de Fortaleza”. A pesquisa de campo teve início em setembro de 2013 e se estendeu a fevereiro de 2015, contemplando as seguintes ferramentas metodológicas: observações na escola, conversas informais, acompanhamento na rede social Facebook e entrevistas com os estudantes.
A escola constituiu o ambiente desta pesquisa. Um local que acolhe em seu cotidiano muitos jovens, semelhantes, ao mesmo tempo em que diferentes entre si. Semelhantes por estarem vivenciando a mesma fase da vida em que acompanha gostos e transformações físicas similares. Mas por outro lado diferentes, uma vez que apresentam características de gênero, raça, classe social, contextos sociais diferentes. Pois não podemos dizer, por exemplo, que um jovem que sempre estudou em escola particular e morou toda sua vida em um bairro considerado de classe média seja igual a um jovem oriundo de escola pública e morador de um bairro periférico. A escola é uma só, mas envolve jovens diversos.
Não é novidade afirmar a importância da escola como instância formadora na vida dos sujeitos, mas nesse estudo destaco a atuação positiva da instituição pesquisada, por proporcionar uma dinâmica favorável ao processo ensino-aprendizagem que busca contemplar as várias dimensões humanas com reconhecimento das expressões juvenis, principalmente por se tratar de uma escola profissionalizante, a qual é projetada com foco para a formação profissional.
O conjunto de elementos que envolvem a dinâmica escolar - tempo integral de estudo, Projeto Professor Diretor de Turma, participação em projetos e grupos culturais, incentivo constante dos professores e núcleo gestor, laços afetivos construídos entre alunos e funcionários – são de fundamental importância para as experiências dos jovens na escola, possibilitando-os vivências que fortalecem a socialização e a elaboração de projetos de futuro e que se sobrepõem aos conhecimentos teórico-práticos apreendidos.
Diante dos inúmeros obstáculos que aguardam os jovens fora da escola, estão os de conseguirem se inserir na universidade e/ou no mercado de trabalho. Para os atores estudados a escola não representou o ponto de chegada, uma vez que não pretendiam contentar-se com a formação adquirida, mas sim, o marco inicial de uma jornada em busca da concretização dos seus sonhos. Dessa forma, reconheceram a escola como importante espaço de vivência e construção de sonhos.
A capacidade de sonhar, embora inata em todo indivíduo, está muito relacionada à vivência de cada sujeito, aos valores construídos em instituições sociais e comunitárias, como família, escola, igreja, Organizações não Governamentais (ONGs) etc. Diz respeito também às condições econômicas, sociais, culturais e as oportunidades vivenciadas, que podem ampliar ou reduzir os horizontes de cada um. Conforme destaca Pais (2003, p. 236), “os projectos de futuro (ou a ausência deles) têm muito a ver com as práticas quotidianas em que os jovens se envolvem, com os múltiplos contextos de socialização a que se encontram os sujeitos”.
Para Oliveira (2012, p. 97), “a escola é muito mais que apenas um espaço de socialização e de divulgação de saberes; ela é, antes de tudo, um espaço de reconstrução do ser social”. Ainda segundo o mesmo autor, ela constitui um espaço fundamental para a elaboração de uma identidade agregadora de várias dimensões, entre elas, políticas, afetivas, físico-intelectuais ou econômicas. Por isso, não cabe pensar a escola ou a educação profissional relacionadas apenas para uma dimensão da vida humana: o trabalho ou a formação de um agente econômico. Nesse contexto, foi possível observar que a escola pesquisada busca oferecer uma educação integrada, dispondo formação básica e técnica, mas não se restringindo a estas, uma vez que agrega em seu currículo e prática educacional elementos de formação humana e de preparação para a vida.
Nesse jogo de construção dos sonhos, a escola, inclusive a profissionalizante aparece como elemento fundamental, pois por ser em tempo integral favorece os laços de convivialidade entre os jovens e também possibilita a vivência de experiências únicas de aprendizagem com a formação técnica, o estágio, a participação em projetos científicos e/ou culturais. É possível considerar, então, que a escola profissionalizante estudada atua como um “ateliê dos sonhos” (LOBO, 2011) para os jovens pesquisados, uma vez que, proporciona experiências diversas de aprendizado e socialização que ultrapassam a aquisição de conhecimentos, constituindo uma experiência formadora para a vida e de grande importância na construção dos projetos de futuro dos jovens. Conforme pode ser observado nos depoimentos abaixo coletados durante as entrevistas:
Eu acho que quando entrei eu não tinha tanta maturidade pra pensar no futuro pra mim. Eu tinha meus desejos: “ah, futuramente eu quero fazer uma faculdade, me formar, ganhar meu dinheiro, ter minha casa”. Mas assim, não passavam só de pensamentos, não chegavam a ser nem planos, eram só mesmo pensamentos. Então eu acho que além de me dar coragem pra que eu transformasse esses pensamentos em planos pra uma vida, me deu também muita maturidade, porque quando você estuda num colégio assim, você aprende a conviver com diversas pessoas, principalmente começa a pensar no profissional. Então, eu não conhecia tanto o mercado de trabalho assim, eu não sabia das dificuldades que eram e a gente vai aprendendo no colégio, vai tomando maturidade tanto na questão da vida pessoal como profissional, social. Então, tudo a gente aprende pra viver a vida, fora do colégio, fora de casa, porque o mundo é completamente diferente daquilo que a gente ver na TV, do que os nossos pais nos falam, e nada melhor do que uma experiência de você próprio, a gente aprende a andar com as próprias pernas (Estudante A, Estética, 18 anos).
Eu acho que eu poderia simplificar em crescimento e transformação. [...] o que eu sou hoje eu devo muito à escola profissionalizante, tanto na pessoal como na profissional. Porque na escola eu realmente soube me focar mais do que eu queria, porque eu tinha um foco, só que o meu foco às vezes se desviava, eu me desviava do meu foco, e na escola profissionalizante a minha transformação pessoal e profissional mudou muito. Eu devo tudo isso à escola profissionalizante e às pessoas que me ajudaram, tanto os professores como meus próprios amigos da sala. Eu entrei lá eu não tinha certeza do que eu queria ser, eu acho que eu queria ser tudo (Estudante B, Redes de Computadores, 18 anos).
A escola ajudou a projetar o futuro, a dar um norte. Como apontado nos depoimentos acima, as jovens estudantes demonstraram que antes da escola tinham desejos, ideias do que desejavam ser, mas foi a experiência escolar que possibilitou amadurecer suas perspectivas de futuro, visualizá-las de modo mais concreto.
Diante do exposto, é possível afirmar que a escola pesquisada se apresenta como uma instância significativa para a compreensão e construção dos projetos de futuro dos jovens estudantes, pelo incentivo e as múltiplas oportunidades vivenciadas, disponibilizando aos sujeitos novos horizontes.
REFERÊNCIAS
LOBO, Tancredo. Sonhos como projetos de vida. Fortaleza: Boa Ventura, 2011.
OLIVEIRA, Ramon de. Por uma educação profissional democrática e emancipatória. In: ______ (org.). Jovens, Ensino Médio e Educação Profissional: políticas públicas em debate. Campinas, SP: Papirus, 2012. p. 83-104.
PAIS, José Machado. A transição dos Jovens para a vida adulta. In: ______. Culturas Juvenis. 2. ed. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003.