Grupos econômicos são constituídos por empresas que atuam em diversos ramos da atividade econômica. Embora possam apresentar-se como juridicamente independentes, essas empresas estão conectadas pelo controle de ativos, do capital e pela unicidade em seu comando e podem incluir outros princípios de solidariedade (étnica, familiar, etc.). Partindo dessa definição, no âmbito da presente análise, são considerados como grupos financeiros aqueles grupos econômicos que possuem uma empresa do setor financeiro como sua espinha dorsal.
De acordo com a literatura, grupos econômicos são uma expressão da concentração do capital e resultado histórico do seu desenvolvimento. São a forma de organização predominante no capitalismo moderno e seu poder econômico representa também poder político e influência sobre a sociedade e o Estado. Para além de uma questão puramente econômica, um grupo econômico é permeado por relações internas de força e uma diversificada rede de relações sociais.
O presente trabalho é resultado de uma pesquisa mais ampla intitulada “Grupos financeiros latino-americanos no século XXI: perfil econômico e sociopolítico comparado” que analisa cinco entre os maiores grupos financeiros com sede na América Latina (Grupos: Itaúsa, Grupo Saieh, Grupo Romero, Grupo Antioqueño e Grupo Banorte). Apresentamos aqui um recorte de tal estudo no qual fazemos uma análise comparativa entre dois grupos financeiros - Grupo Financiero Banorte (México) e Grupo Itaúsa (Brasil) -, explorando para tanto as suas conexões internas, com outros grupos e com agentes públicos e privados por meio de associações formadas nos diversos âmbitos da sociedade civil.
Os grupos selecionados para este trabalho se encontram entre os maiores de seus países, atuam em diversos países da América Latina e Caribe além dos Estados Unidos e países da Europa e controlam empresas atuantes em variados setores da atividade econômica incluindo algumas que estão entre as maiores de seus respectivos ramos.
O grupo Itaúsa (holding Itaúsa - Investimentos Itaú), formado a partir da união das famílias Setúbal, Villela e Moreira Salles, controla além do Banco Itaú Unibanco, empresas dos ramos de eletroeletrônico, materiais de construção e decoração, tecnologia de informação, madeira, móveis, papel, informática e química. Algumas das quais estão presentes na rede identificada pelo trabalho, são elas: Itaú Unibanco S.A. (setor financeiro), Itautec S.A. (informática) e do setor industrial contam duas empresas a Elekeiroz S.A. (química) e Duratex S.A. (material de construção e decoração).
Já o mexicano Grupo Financiero Banorte, controlado pelas famílias González Moreno e Hank Rhon, passou para controle privado no processo de privatização dos bancos ocorrido no México em 1992, e seu principal acionista é o grupo industrial Gruma, um dos maiores produtores de alimentos do mundo (farinha de milho e tortilhas). O Grupo Banorte atua também nos setores de comunicação e infraestrutura e entre as principais empresas ligadas ao grupo e identificadas na rede podemos destacar o Banco Mercantil do Norte e a Pensiones Banorte, S.A. (setor financeiro), além da Maxcom S.A.B. (comunicação).
Destacamos a necessidade imperativa de compreensão das características de atuação dos grupos financeiros na sua condição de lócus de poder. Mais do que isto, a análise da participação das empresas de um grupo econômico nas associações de representação de classe setoriais parece imprescindível para a compreensão das relações Inter burguesas no contexto de cada país.
O associativismo pode ser caracterizado reduzidamente da seguinte forma: empresas que normalmente competem entre si dentro do mesmo mercado e que devido as características desse mesmo mercado são constrangidas a formarem redes de atuação coordenadas entorno de interesses comuns. As organizações oriundas da sociedade civil constituem-se em um espaço aonde interagem interesses privados e órgãos estatais, tornando-se uma interface aonde formam-se redes amplas unindo diferentes frações da burguesia em relações sociais que as tornam capazes de articular diferentes capitais de acordo com um campo determinado de interesses. Como se pode observar no caso de grupos financeiros eles são múltiplos. Esses grupos assumem papel preponderante no capitalismo contemporâneo não somente pela sua capacidade de centralizar capital, mas também pelo fato de serem atores influentes em uma rede que reúne instituições públicas, civis e corporações oriundas dos mais diversos ramos.
Partimos aqui, do princípio de que agentes econômicos desenvolvem entorno de suas relações sociais, espaços políticos, possíveis de articular mobilizações e unir interesses que devido à concorrência aparecem como conflitantes, mas que demonstram a sua unidade na sua atuação através dessas organizações. Tais laços, entre empresas, Estado e sociedade civil, não surgem espontaneamente, mas são frutos do enraizamento existente entre economia e sociedade.
Para a consecução deste trabalho, foram adotados diversos procedimentos metodológicos de pesquisa. Inicialmente nos valemos de pesquisa documental e análise de dados secundários. A partir dos Relatórios Anuais e de Sustentabilidade da holding Itaú Unibanco, referentes aos anos de 2015 e 2016, foram identificadas as entidades (corporativas e outras) com as quais a empresa declarou possuir relações formais. Já no caso do Grupo Banorte os dados foram minerados no Directorio de Asociaciones e no Registro Nacional de Asociaciones mantidos pelo governo mexicano. Posteriormente consultamos os sites de cada uma das entidades da sociedade civil identificadas nos relatórios do grupo brasileiros e nos dois portais públicos mexicanos e por meio do uso das técnicas de web content mining e web scraping extraímos a relação dos associados dessas entidades.
Os dados foram sistematizados e analisados com software Ucinet6 (Borgatti, S.P., Everett, M.G. and Freeman, L.C. 2002) conjuntamente com o NetDraw. A partir dos dados gerados nas primeiras etapas, uma matriz do tipo 2-mode, foi confeccionada usando o software Microsoft Excel, além de uma matriz contendo os atributos de cada ator presente na rede. As redes de dois modos caracterizam-se por representarem relações entre entidades de categorias diferentes – “rede de dois modos é representada pela interação entre atores e entidades sociais como um único sistema social, como, por exemplo, as ligações entre pesquisadores e instituições (dois conjuntos de atores) em uma mesma rede. ” (TOMÁEL, M. I., MARTELETO, R. M., Redes sociais de dois modos: aspectos conceituais. Transinformação, 25(3), 245–253, 2013.)
A rede identificada por esse trabalho foi analisada a partir de seu aspecto dinâmico, em termos de sua forma, a partir das propriedades de centralidade dos nós. Ou seja, identificamos os atores centrais na rede, que são portadores de grande poder social, capazes de gerar instrumentos de mobilização que constantemente alimentam e redefinem as relações na rede. Sendo assim, a métrica considerada para análise será o grau de centralidade (degree centrality) ponderado, caracterizado pelo número de eventos centrais aos quais um nó está conectado, referindo-se à atividade de um ator dentro da rede, ou seja, ao número de outros atores com alto grau de centralidade aos quais um dado nó está conectado. Dessa forma identificam-se indicações sobre os atores (empresas e associações) responsáveis pela dinamização da rede ao ocuparem posições estratégicas e concentradoras de poder.
O trabalho foi capaz de observar muitas similaridades, mas também relevantes diferenças na atuação dos dois grupos financeiros. Embora ambas as redes sejam formadas por um grande número de atores (mais de dois mil em cada uma delas), no caso do Grupo Banorte ela é conformada por um número reduzido de organizações da sociedade civil e presença mais acentuada de associações de representação de classe. Já no caso do Grupo Itausa a rede é consideravelmente mais ampla (integrando também diversas ONGs, instituições de ensino, Think Tanks, entidades comunitárias de caráter religioso...). Trabalhamos então com a hipótese de que tal diferença se deve a determinadas características de atuação que são peculiares a cada grupo. O Itaúsa, por exemplo, está presente em uma diversidade maior de ramos da economia quando comparado ao Banorte, portanto é esperado que o grupo brasileiro possua uma necessidade de articulação sociopolítica mais abrangente.
Podemos observar também uma quantidade significativa de atores econômicos internacionais como órgãos multilaterais e companhias multinacionais em particular aquelas oriundas da China, que ocupam posições centrais e participam em associações de classe presentes nas redes de ambos os grupos.