Theodor Adorno elabora, quase na totalidade de suas obras, análises detidas da relação entre episódios do passado recente e o arcabouço de categorias e esquemas conceituais herdados da modernidade, do qual ainda nos utilizamos no esforço teórico de interpretação dos acontecimentos de nosso próprio tempo. Para ele, as propostas de liberdade e emancipação outrora erguidas pelo pensamento moderno, cujo ápice foi o Esclarecimento (Aufklärung), contraditoriamente se convertem em novas formas de ideologia e favorecem a permanência de um sistema econômico e político baseado na exploração, no embotamento da racionalidade que impossibilita o diálogo e na consequente perda do horizonte para a crítica social. Parte do trabalho aqui proposto envolverá a compreensão do vínculo, ressaltado por Adorno, entre alguns dos elementos da profunda crise política e institucional que marca o século XX – e que sustentaremos que ainda se mantém atual – e o programa epistemológico traçado para as ciências sociais na contemporaneidade.
Disso decorre que a transformação das condições materiais de vida na atualidade passa, obrigatoriamente, por uma radical autocrítica, ainda a ser empreendida, pelas ciências sociais. A crítica das formas de organização social e de seus desenvolvimentos históricos deve vir acompanhada da reflexão sobre um paradigma de racionalidade que se transformou em norma a partir da modernidade e que não se pode mais sustentar. Este paradigma teve sua origem, aponta Adorno, na filosofia moderna e seu entendimento de que nos encontramos em espaços repletos de corpos de estruturação mecânica, cujo funcionamento é regular e, portanto, padronizável e de que sua adequada compreensão exige a obediência a rigorosos critérios de análise de pensamento que abarquem essa realidade. Em outras palavras, Adorno observou que, uma vez comprovada a eficácia do método moderno para as ciências da natureza na modernidade, paulatinamente passamos a utilizar de semelhante raciocínio para compreender fenômenos de caráter político e social. Contudo, a normatização desse modelo de racionalidade limita o escopo interpretativo da realidade, levando a conclusões limitadas e pouco favoráveis para uma ciência que busca pensar a práxis.
Em contraposição a essa tendência, decorrerá do método – dialético – adorniano o entendimento de que conceitos e coisas não são meros dados quantificáveis e manipuláveis e a compreensão de que a realidade material e social também se compõe do compartilhamento intersubjetivo de valores, crenças, opiniões e intencionalidades distintas. Pensar é, sobretudo, o processo sustentado pela influência mútua entre sujeitos e suas visões de mundo. Assim, é possível afirmar que o projeto filosófico adorniano busca uma reconfiguração do paradigma crítico de racionalidade.
Coloca-se a questão de como representar, conceitualmente, conhecimentos que não se deixam reduzir ou esgotar pela análise lógico-conceitual da realidade. Por conseguinte, a estratégia adorniana é a elaboração de uma dialética negativa, contraposta à exigência de síntese presente na dialética positiva de Hegel – a partir da qual Adorno parte. Para Adorno, a dialética negativa permite considerar as tensões e contradições nos diversos momentos da experiência e promove o resgate do pensamento crítico. Sua função é elaborar um aparato teórico que não oculte, mas revele o caráter antagônico das diversas formas de organização social, ao invés de impor como regra a superação dialética do antagonismo e da contradição. Contudo, essa pretensão de Adorno esbarra na sua concepção da incontornabilidade do conceito para o conhecimento. Desse modo, surge a questão de como representar, conceitualmente, conhecimentos que não se deixam reduzir ou esgotar pela análise lógico-conceitual da realidade, de modo a não suprimir esse antagonismo através da imposição de um aparato conceitual que descarta formas específicas de experiência e vivência como, a princípio, inválidas, tão somente por não se encaixarem em um paradigma específico de racionalidade.
Adorno recusa, em suma, a onipotência do paradigma técnico e cientificista de conhecimento; para ele, esse pensamento não pode ser dialético. A verdadeira libertação e emancipação não pode se furtar a compreender que “a dialética se origina da experiência da sociedade antagônica, não do mero esquema conceitual. A história de uma época não conciliada não pode ser um desenvolvimento harmônico. Apenas a ideologia, que nega tal caráter antagônico, produz tal harmonia.” (ADORNO, 2013, p. 167). A onipotência do método é o mecanismo de supressão do contraditório; Adorno, porém, elabora uma teoria crítica cuja desconfiança de si mesma a permita visualizar, por meio da exposição da contradição, os antagonismos presentes na realidade, para realizar o desafio da superação real das relações de dominação. A dialética negativa é o pensamento que manifesta a tensão entre aquilo que foi apreendido pela razão e o que ficou de fora, o conceito e o além do conceito. Este não é excluído a princípio pelo pensamento, mas, ao contrário, é elemento constitutivo do próprio conceito, e permite a compreensão do todo social em constante transformação e contraditório em qualquer forma na qual se revele. Para Adorno, a razão moderna e seu caráter reducionista, seu impulso pelo controle e pela dominação perpetuam a barbárie que se instaurou sobre o ocidente. Assim, somente a compreensão – jamais a supressão – do caráter necessariamente contraditório do real, incluindo as relações entre indivíduos na totalidade social e seu modo de produção material e reprodução de valores e normas, permitirá a construção de um pensamento realmente transformador.