Um dos marcos fundamentais da experiência moderna é a construção de uma esfera pública burguesa, um espaço republicano que supõe a si mesmo como diferenciado da vida privada. Haveria ainda, se considerarmos contribuições como as de Hannah Arendt e Siegfried Krakauer, uma dimensão social. Se este parece ser um processo mais ou menos universal, ao menos no que chamamos de Ocidente, não é diferente na América. De um lado, emergem indivíduo, sociedade, subjetividade; de outro, secularização, ciência, nação, tudo a configurar, com tantos outros elementos, a Modernidade. Esta também tem seus artefatos e dispositivos, como meios de comunicação, formas artísticas diversas – e reprodutíveis –, a escola, a infância etc. Tem também uma mentalidade e uma política, no interior das quais se coloca o conceito e a utopia da revolução, processo que só é possível que se pense em um tempo para o qual o contemporâneo não é o ponto final da história, mas a possibilidade de superar a si mesmo a partir do movimento de suas contradições.
Uma das mais importantes reflexões desse processo é aquela que há pouco mais de cinquenta anos nos ofereceu Jürgen Habermas, com seu livro Mudança estrutural da esfera pública (Strukturwandel der Öffentlichkeit). Dez anos depois da publicação do livro de Habermas, surgiu um trabalho que lhe é uma resposta, ao tentar ampliar a reflexão e mesmo reorienta-la para pensar, em conjunto e contradição, um novo elemento a se somar à esfera burguesa: a proletária. Quando Oskar Negt e Alexander Kluge escreveram Esfera pública e experiência. Para a análise da organização das esferas burguesa e proletária (Öffentlichkeit und Erfahrung. Zur Organisationsanalyse von bürgerlicher und proletarischer Öffentlichkeit), os proletários estavam em grande medida, na Europa, incorporados ao sistema e com pouca força de luta, dadas as melhorias nas condições de vida pelo Estado de Bem-estar social. Mas não passava o mesmo na América Latina, onde, além dos trabalhadores das grandes fábricas – no Brasil, por exemplo, pós-industrialização da Era Vargas – encontrava-se também um contingente como que fora das relações de produção, os marginais ao sistema, os mesmos que Herbert Marcuse identificara nos Estados Unidos, como força de resistência, em seu One Dimensional Man (1964).
O Brasil, que não chegou a ter propriamente estado de bem-estar social, viu na década de setenta do século passado ampliar-se o movimento operário do ABC (região industrial pertencente à Grande São Paulo), de onde emergiu o presidente do sindicato dos metalúrgicos, Luiz Inácio da Silva, o Lula. Como se sabe, Lula, cujo apelido foi incorporado ao nome, foi candidato à Presidência da República três vezes antes de ser eleito, em 2002, para seu primeiro mandato. Quatro anos depois, foi reeleito e por duas vezes ainda foi responsável por levar sua sucessora, Dilma Rousseff, ao êxito eleitoral.
Se no primeiro mandato a ênfase de seu governo esteve fortemente vinculada a um programa macroeconômico ortodoxo e ao início das políticas de distribuição de rendas, o segundo se caracterizou pelo aprofundamento nessa direção, agora com mais vigor no crédito e financiamentos populares e na desoneração fiscal, facilitados pela alta das exportações de matérias-primas, em especial o aço. Do ponto de vista a sustentação política, Lula fez acordos com grupos os mais diversos, garantindo a base parlamentar necessária para que se configurasse seu presidencialismo de coalização.
Uma das marcas simbólicas dos governos de Lula foram as narrativas que criou para si, na disputa pela memória dos brasileiros. Não foi infrequente a evocação a Getúlio Vargas, principalmente depois da morte de Leonel Brizola (em 2004), que disputara com a filha de Vargas, Ivete, o espólio político do pai desta, logo depois de sua volta do exílio, já em momento de transição democrática (mas ainda sob ditadura), em 1979. De tradição trabalhista, Brizola ganhou a disputa pelo imaginário em torno do carismático e, por oito anos ditador, Vargas. Lula, cujo sindicalismo era o de oposição ao modelo de Vargas (com o atrelamento das organizações ao Estado), passa, com a morte de Brizola, a evocar uma linha de continuidade que, desde Getúlio, chega a si.
Com a possibilidade de uma erupção revolucionária fora do escopo do tempo presente (mas não a de golpe, como se tem visto) o modelo de conciliação de classes de Lula, apoiado em forte discurso carismático e avalizado por sua biografia de retirante nordestino e operário fabril, fez parecer que o caminho das forças de esquerda passava pelo lulismo, talvez o último impulso democrático na longa transição para a democracia, começada na segunda metade dos anos 1970 e estruturada, com muitas dificuldades, com a constituição democrática em 1988.
Cabe perguntar, então, pelos avanços na construção de uma esfera pública popular no Brasil contemporâneo, e não só nele, mas também nos países vizinhos, principalmente Argentina e Uruguai. Coloca-se uma problemática em, pelo menos, três dimensões: 1) na ordem política, os destinos de um governo carismático avalizado pela imagem de seu líder a criar e recriar narrativas sobre si; 2) no plano teórico interroga-se, a partir e em contraposição a importantes intérpretes do tempo, como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, os sentidos do populismo; 3) na dimensão histórica, trata-se de observar o processo protagonizado por Lula em seus enfretamentos conciliatórios, pensando seu lugar no presente – momento que, como se pode acompanhar, é de uma intolerável perseguição ao líder popular.
Para a consecução de seus objetivos, sem a pretensão de esgotar as potencialidades que oferecem, mas sim, muito mais, recolocar as problemáticas em gradiente mais refinado, o trabalho se ocupa de um conjunto amplo de fontes, em especial oriundas das disputas em torno da figura de Lula e os caminhos abertos, ou não, para a constituição e uma esfera pública popular. Raça e etnia, gênero e classe, conformam um móbile que, no entanto, se desdobra em questões como política e mídia, encolhimento das grandes visões de mundo, emergência de novos protagonistas, democratização e republicanismo em suas vicissitudes, preconceito e judicialização do espaço que pode ser público. Tudo isso é pensado na especificidade brasileira e latino-americana, mas sem que tal estratégia ignore o pensamento centro-europeu. Mais importante é considerar a simultaneidade global dos processos sociais, para não cair na armadilha de analisar nosso contexto sob a chave do atraso. É preciso que se faça a análise deste país e deste continente em seus lugares nos processos de modernização e globalização.