Este trabalho tem como objetivo analisar, a partir da obra do escritor uruguaio José Enrique Rodó (1871-1917), a construção do pensamento hispano-americano, e como as teorias acessadas por ele podem ser encaradas como mecanismos de conexão entre Europa e América originando uma possível interpretação intelectual da realidade americana em processo de construção identitária.
A forma predominante de expressão da geração de Rodó foi o ensaio, que na América Latina, emerge em torno de 1900, e foi o tipo de prosa que melhor correspondeu ao movimento chamado de modernismo. Ariel, obra mais conhecida do autor em questão, foi publicada em 1900, é vista pela crítica como um dos grandes expoentes do ensaísmo no contexto latino-americano. De acordo com Vitier (1945), o ensaio hispano-americano do início do Século XX representou a consciência crítica de muitos países. Os autores ensaístas, estão fazendo a discussão de tudo, e de uma vez: higiene, arte, comunicação e novela; escola pública e legislação trabalhista; códigos de reabilitação do índio etc., nesse sentido, ocupava um lugar essencial como enlace e articulação do campo literário com o campo intelectual, desse modo, os autores estavam em busca de uma definição de rumos para suas respectivas nações. O que podemos inferir dessas interpretações nesse momento, é que, muitos intérpretes, como Rodó, estavam formulando uma ideia de disciplina social, num momento em que a sociedade latino-americana passava por um crescente processo de modernização.
Conforme Mario Benedetti (1986), o destino do escritor latino-americano, salvo exceções, está assimilado ao seu povo. Os países deste continente têm a cultura como parte integrante de uma situação de dependência, mas ao mesmo tempo, luta para sair dela. A relação entre o escritor e a crítica é uma equação profissional, que pode vir a ser uma relação social, que tem a ver com a política, forças de repressão, respostas da história etc. Poderia se falar também em termos estritamente literários e formais, porém essa relação não ocorre na América Latina. Desta forma, Benedetti refere-se à ideia do fazer literário como uma espécie de estrutura histórica em construção, com forte comunicação com a realidade social e política.
De acordo com Aníbal Quijano (2007), desde o Século XVII foi elaborado e formalizado, nos principais centros hegemônicos do padrão mundial de poder, um modo de produzir conhecimento que dava conta das necessidades cognitivas do capitalismo: a medição, a quantificação, a externalização do cognoscível, respeito do conhecedor, visando o controle das relações das pessoas com a natureza. Esse modo de conhecimento foi, devido seu caráter e pela sua origem, eurocêntrico, denominado racional, e foi imposto e admitido como o conjunto do mundo capitalista como a única racionalidade válida como emblema da modernidade. A Europa e os europeus se apresentavam como sendo o nível mais avançado no caminho linear, unidirecional e contínuo da espécie. Se consolidou assim, junto com essa ideia outro princípio da colonialidade/modernidade eurocêntrica: uma concepção de humanidade que a população do mundo se diferencia em inferiores e superiores, irracionais e racionais, primitivos e civilizados, tradicionais e modernos.
Por muito tempo, o pensamento hispano-americano não teve o mesmo status que o europeu, além disso, muitos intelectuais, assim como Rodó, não figuram da dicotomia civilização/barbárie. O ambiente intelectual finessecular sob o qual escreveu Rodó, contribuiu de maneira intensa na configuração de seu pensamento; o engajamento em formar uma nação a partir de sua realidade local, complexa e heterogênea o conduziu à busca de paradigmas ideológicos, jurídicos e educacionais na Europa Moderna. Como afirmou Real de Azúa (1976), foi o momento em que as metas da sociedade ocidental, os símbolos da modernidade (ciência, progresso, razão, justiça e liberdade) insurgem e seus devotos já não reconhecem mais o rosto dos seus antigos deuses.
Essas peças europeias aparecem no texto rodoniano, o que define como uma “literatura de circunstância”, isto é, ligada aos problemas e às urgências concretas de um meio sociocultural central e também como suas elites intelectuais as viam. Seu pensamento estaria na fronteira entre a literatura e a filosofia, e muito conectado às necessidades do fim do Século. Nesse sentido, as nações periféricas estavam aos olhos do centro, numa condição “atrasada” e “anormal”. Quando a América Latina internaliza essa condição de inferioridade, na forma de um sentimento de exclusão do “mundo civilizado”, ou de inserção nele sob a condição subalterna, surge toda uma reflexão, como aquela realizada por Rodó, que tenta “unir forças” elaborando a ideia de indivisibilidade continental. A herança positivista presente em Rodó tem como ponto importante essa concepção de retorno ao passado para pensar o futuro de seus países.
Eduardo Devés –Valdes (2012) aponta que a disjuntiva do pensamento periférico “ser como o centro” versus “sermos nós mesmos”, é a chave para entender esse pensamento, sendo uma das grandes dificuldades a de que nem toda intelectualidade assume essa disjuntiva periférica. No caso de Rodó, percebemos que essa disjuntiva é um dos elementos chave em sua obra Ariel, que tentou conciliar as antinomias em seu programa pedagógico traçado nesse representativo texto. Rodó tinha consciência do desenvolvimento histórico da América, porém também configura o intelectual que se mostra dividido entre dois mundos, o novo e o velho, América e Europa, mas que se propõe encarar os dilemas no presente, tentando oferecer uma feição coesa ao continente.
Rodó nos mostra que a possibilidade e o fato histórico de que cada tipo de homem, mesmo o homem latino-americano, tenha sido capaz de oferecer à realidade um sentido próprio e original, mesmo que a partir de fragmentos provenientes de diversos lugares, tornou essa realidade “digestível”, pois inscreveu a manifestação que o pensamento uruguaio/latino-americano, tem direito a existir como um tipo de humano, capaz de mostrar suas angústias e inquietações e não simplesmente como entidade geográfica ou jurídica.