Esta pesquisa propõe analisar as possibilidades do pensamento decolonial latino-americano em se tornar pensamento crítico no interior da disciplina de Relações Internacionais, abordando as contribuições produzidas a partir de enfoques pós-coloniais desenvolvidas desde a nossa região. Portanto, se examinará como essas propostas poderiam influenciar na formação do pensamento internacional que emerge da América Latina no início do século XXI.
O exposto anteriormente enquadra-se na discussão sobre o estado da produção teórica e acadêmica da disciplina, especialmente na teoria das Relações Internacionais. Neste sentido, há uma vertente de intelectuais que criticam a natureza dominante ou hegemônica das propostas de origem anglo-saxônicas nas abordagens teóricas e metodológicas, assim como a abundância de centros acadêmicos de pesquisa nesses países, os quais acabariam dominando a produção no interior deste campo acadêmico.
Assim, o que se propõe é examinar a história dos debates teóricos, metodológicos e epistemológicos que ocorrem dentro de este âmbito de estudos, buscando incorporar as vozes que têm sido tradicionalmente silenciadas dos principais debates da disciplina. De esta maneira, se discute que essas vozes foram isoladas principalmente devido à prioridade atribuída aos temas considerados mais relevantes para as grandes potências do sistema internacional que geralmente ditam as regras e premissas que compõem as relações internacionais.
Neste sentido, nas últimas décadas, surgiram enfoques que passaram a questionar essas visões consideradas hegemônicas, argumentando que elas não refletiriam necessariamente as realidades políticas, econômicas e sociais de grande parte das nações, especialmente as nações periféricas. Nesse sentido, podemos destacar o surgimento de outras perspectivas, como o pós-colonialismo, que propõe oferecer novas alternativas às teorias tradicionais e dominantes, discutindo o caráter eurocêntrico (mais precisamente anglo-saxão, compreendendo assim aos Estados Unidos), tanto em o exercício do poder na política mundial, como na produção de conhecimento na disciplina.
Portanto, destaca-se o surgimento de versões alternativas advindas de abordagens e debates teóricos contemporâneos, mas que são abordados principalmente em outros campos das ciências sociais. Essas perspectivas expressariam uma visão crítica de objetos, sujeitos de estudos e das teorias positivistas que normalmente dominariam as ciências sociais, destacando a necessidade de emancipação; buscariam propor abordagens que transcenderiam o positivismo; e no caso das Relações Internacionais, questionariam as premissas consideradas como verdades universais na política internacional.
Assim, sugere-se que as contribuições produzidas pelos estudos sobre a descolonização, especialmente os de produção latino-americana que integram as perspectivas pós-coloniais, quando aplicadas na disciplina das Relações Internacionais, procurariam reinterpretar as antigas práticas coloniais empregadas pelos grandes impérios a partir do pressuposto que algumas delas e permaneceriam em vigor ou teriam sido transformados em novas práticas, evidenciando novas formas de dominação e colonialismo presentes na política internacional.
De esta forma, a perspectiva em questão tentaria conferir maior legitimidade a temas que não são tradicionalmente abordados pelas teorias clássicas que predominam no campo internacional. Da mesma forma, estimulariam a criação de espaços que possibilitem atribuir maior visibilidade à realidade e aos problemas de algumas nações periféricas, destacando principalmente a questão da herança colonial. Isso porque este enfoque sugere que os elos de poder e dominação presentes na era colonial nas relações como a raça, classe ou gênero não teriam sido totalmente eliminados com a independência dessas nações. Portanto, essas relações de poder e dominação haveriam transcendido no tempo, além disso, não teriam sido adequadamente abordadas pelas teorias tradicionais, o que tornaria essencial colocar como elemento importante a revisão e reinterpretação do período colonial e as continuidades nas relações de poder e dominação no período atual, a partir dessa perspectiva.
Assim, esta pesquisa sugere a importância de estimular a construção do campo das Relações Internacionais a partir de diferentes propostas que poderiam ser mais amplias, levando em consideração questões, problemas e opiniões que surgem em outras regiões do mundo fora da região hegemônica de poder, a qual tradicionalmente propaga seus ideais, proposições e interpretações de suas realidades para o resto do mundo.
De este modo, trata-se de questionar se a produção pós-colonial, especialmente em sua vertente decolonial de origem latino-americana, cujo maior desenvolvimento se deu em outros campos das ciências sociais, poderia servir de insumos para a produção de conceitos, marcos teóricos, metodológicos, epistemológicos, além de outras formas de interpretações da realidade internacional, questionando também se essas abordagens contribuiriam efetivamente para a diversificação da disciplina através da produção que emerge contemporaneamente desde a nossa região. Além disso, busca-se evidenciar outras formas de poder e relações de domínio não abordadas pelas teorias tradicionais, e como a produção decolonial latino-americana poderia ser uma ferramenta útil para analisar a dinâmica internacional e a inserção contemporânea de nossa região nas questões globais em princípios do século XXI, apesar do seu estado atual de marginalização no campo das Relações Internacionais.
Assim, se buscará argumentar que a produção decolonial pode ser considerada um pensamento latino-americano próprio e crítico que contribui para a disciplina, uma vez que foi desenvolvido a partir do pensamento periférico, ou seja, do dilema de “ser-como-o- centro" ou "ser-nós-mesmos", ou seja, em imitar ou distanciar-se dos países que compõem o centro do poder internacional. Assim, o pensamento descolonial latino-americano se destacaria como modelo diferenciador e de criação de identidade.
Esta pesquisa será realizada a partir do método de análise qualitativa, abordando primeiramente a produção teórica tradicional do campo das Relações Internacionais, com a posterior análise bibliográfica dos principais textos produzidos pelos enfoques decoloniais na América Latina, como o grupo Modernidade / Colonialidade; os principais autores indigenistas e indianistas; e a mais recente produção de Sumak Kawsay, indagando sobre a possibilidade de utilizá-los como referenciais interpretativas no disciplina. Finalmente, serão analisados os impactos dessas abordagens na formulação do pensamento internacional que emerge contemporaneamente na região.