O presente trabalho se propõe a investigar de que modo a mercantilização da terra e o uso crescente da habitação como ativo financeiro globalizado afetam o exercício do direito à moradia adequada no contexto do Programa Minha Casa, Minha Vida (Brasil). A financeirização da moradia, em linhas gerais, envolve atores, mercados e práticas financeiras, modificando as economias, os Estados e, principalmente, os grupos familiares. A força ideológica da “casa própria” e da expansão do crédito juntamente com a inclusão de consumidores de média e baixa rendas nos circuitos financeiros e a tomada do setor habitacional pelas finanças globais inauguram uma nova fase de acumulação de capital. O excedente capitalista, por sua vez, busca campos de investimento com o objetivo de converter setores em ativos financeiros, alimentando a ganância dos incorporadores. O mercado de hipotecas, neste ínterim, foi um dos veículos importantes por conectar os sistemas domésticos de habitação aos mercados globais. Também exerceram papel de influência os empréstimos interbancários e a disponibilidade do crédito em geral. A transformação do sentido e do papel econômico da moradia, alicerçada na hegemonia do livre mercado, também está relacionada, no final da década de 70, às políticas de desmanche dos componentes institucionais básicos que compunham o Estado de bem-estar social. O que se apresenta é um esfacelamento das políticas de habitação pública e social, a desestabilização da segurança da posse e a transmutação da casa em ativo financeiro. A cidade é, portanto, reajustada de acordo com pressupostos neoliberais. São formuladas políticas que permitem a um pequeno número de particulares o controle da maior parte da vida social. A consequência é a diminuição do Estado e a transferência de poder decisório da esfera pública para as tiranias privadas. As configurações de poder sociopolítico e espacial, já contaminadas por estas propostas neoliberais, são responsáveis por privatizar ou destruir o estoque de moradia pública e diminuir as verbas destinadas aos programas habitacionais. Se o mercado pode atuar, o Estado sai de cena pretensiosamente. A problemática já explicitada referente à financeirização da terra afeta profundamente o exercício do direito à moradia adequada. A habitação perde sentido sociocultural, deixando de ser um bem social ou meio de distribuição de recursos para se tornar um meio de acesso à riqueza. A nova estratégia urbana perpassa, então, reduzir os investimentos em moradia. Para tanto, os governos, inclusive o brasileiro, renunciam ao papel de provedores de habitação de custo acessível e transformam-se em meros facilitadores através de hipotecas e esquemas de microfinanciamento. No Brasil, o maior exemplo de mercantilização da terra é o Programa Minha Casa, Minha Vida - PMCMV, lançado em 2009 e alçado à categoria de único programa federal vigente no setor habitacional. Acontece que, no contexto do PMCMV, o protagonismo do mercado privado propiciou a criação de conjuntos habitacionais extensos, localizados em áreas menos valorizadas, cuja terra é barata. Constata-se, portanto, que o PMCMV vem exercendo um papel ativo na perpetuação da segregação em razão da renda e na reiteração da periferia enquanto lugar dos desvalidos nas cidades brasileiras. Sob a ótica capitalista, estas são consequências do modelo que determinou a formulação do programa, imbricado por caracteres que condicionam a moradia aos interesses mercadológicos. A estrutura pensada não expressa a busca pela integração ao solo urbano das populações de baixa renda, mas ratifica a marginalização dos vulneráveis. Não há nenhuma preocupação em situar as unidades habitacionais em espaços dentro da malha urbana. Aumenta-se, portanto, o fosso entre os que têm acesso aos serviços urbanos em base permanente e aqueles que, apesar das mesmas necessidades, não estão em situação de satisfazê-las, devido ao acesso precário ou insuficiente a estes serviços. O PMCMV é a prova de que a moradia adequada não está relacionada a um título de propriedade. O processo de integração urbana vai além dele, pois requer o exercício do direito à cidade (transporte coletivo, saneamento, lazer). Se o programa brasileiro atinge uma parte da população que historicamente era desprezada pelas iniciativas habitacionais, não chegou a alterar o lugar tradicionalmente ocupado por ela na urbe, reproduzindo o chamado padrão periférico. Por conseguinte, o PMCMV também não contribui na qualificação de suas áreas de implantação. Com abordagem qualitativa e viés exploratório e descritivo, a pesquisa apresenta como objetivo geral refletir acerca da privatização da terra e da moradia bem como a luta pelo espaço. Para tanto, autores como Raquel Rolnik, David Harvey, Noam Chomsky e Milton Santos servirão de fundamentação teórica. O objetivo específico é assinalar o enorme impacto que as políticas habitacionais têm sobre a estruturação das cidades e sobre a vida das pessoas. Quando os cidadãos se tornam meros consumidores da lógica do mercado de capitais e o Estado se torna o instrumento facilitador do “desenvolvimento”, uma nova geografia da pobreza e da vulnerabilidade social é traçada, baseada na opressão/humilhação do ser extramercado.