Em 1968, Lefebvre define, em Direito à cidade, os cidadãos como “principais protagonistas” da cidade construída – o ponto da vida colectiva; e assume que somos nós quem tem o direito de fazer as nossas cidades (Harvey, 2012), através de acções diárias à micro-escala. Contemporâneos ao filósofo e sociólogo francês, o grupo Internacional Situacionista, liderado por Guy Debord, defendia que pequenas iniciativas artísticas deveriam contribuir para a construção da sociedade, abolindo mesmo o papel da arte, tornando-se esta a vida quotidiana.
Espaços públicos e espaços privados pertencentes à esfera pública (Costa e Lopes, 2015) são por natureza os palcos do quotidiano. Revelando-se arenas privilegiadas de demonstração de poder, culto, comércio, convivialidade e representações sociais (Miles, 1997). E, conforme diversos autores [Jacobs, 1961; Costa e Lopes, 2015] têm salientado, um dos elementos mais preponderantes para a vitalidade urbana, onde é importante a existência de uma diversidade de acontecimentos que transformem a cidade num organismo vivo e vibrante.
Nos ambientes urbanos encontram-se uma multiplicidade de práticas prestes a transbordar de possibilidades alternativas (Harvey, 2012). Com especial ênfase após o grande crescimento das cidades no pós-guerra que permitiu um aumento significativo das trocas sociais, mobilidade individual e atitudes diversas e contra-cultura (Bourriaud, 2002).
Desde o final dos anos 90, as actividades criativas têm sido alvo de reflexão em diversas áreas disciplinares devido ao seu importante papel na transformação e revitalização das cidades e da sua economia - com diversas áreas abandonadas durante o período pós-industrial um pouco por todo o mundo a serem revitalizadas com esse mote.
Vários autores [Scott, 2000, Costa, 2007; Landry, 2000] têm descrito a importância deste sector económico, bem como a sua relevância para o planeamento urbano. Também já foram estudadas e discutidas [Costa el al, 2010, Hospers, 2003, Scott, 2014] as raízes da criatividade e as razões para o seu desenvolvimento, vitalidade e sustentabilidade em determinadas zonas da cidade – e os mecanismos inerentes a este tipo de dinâmicas, muito associados a processos de liminaridade [Arantes, 1997], onde os conflitos de uso e os processos de gentrificação são uma constante [Costa e Lopes, 2015].
Contudo a transformação dos territórios através da fixação dos agentes culturais, revela-se nos últimos anos, altamente instrumentalizada, perdendo as características informais e efémeras que marcaram os anos 90. Caracterizando-se por uma forte estratégia de marketing e valoração económica dos territórios.
Ao nível da pesquisa académica o estudo das dinâmicas criativas tem-se tradicionalmente centrado nos típicos “bairros criativos e boémios”, altamente turistificados e gentrificados. Antigos núcleos urbanos transformados em elementos do espectáculo, produtos de consumo para turistas. Conforme previa Lefebvre e Nietzsche, e nos relembra Fortuna, na introdução da edição Portuguesa do livro O direito à cidade (2012). Contudo que destino para estes territórios, que tanto se estuda e debate. Se a gentrificação se relevou um processo gradual de nobilitação dos territórios, em grande parte abandonados durante o processo de periferização das cidades. A recente onda de turistificação e especulação imobiliária tem provocado alterações de forma mais acelerada. A marca “cidade,” aliada ao capital simbólico, transformou-se num grande negócio.
“Sub-produto da circulação de mercadorias a circulação humana considerada como um consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distracção de ir ver o que se tornou banal” (Debord, 1972, pp. 108). Com isto, Debord alerta-nos para realidades com as quais já se deparam cidades como Barcelona, um dos locais com mais turismo do mundo, e, onde começam a existir os maiores índices de insatisfação perante a experiência.
Num recente debate promovido pela Trienal de Arquitectura de Lisboa sobre a turistificação da cidade, Pedro Bingre do Amaral, fala-nos sobre o crescente interesse de grandes grupos económicos no mercado da especulação imobiliária perante a oscilação de investimentos como os da banca ou da bolsa. Dinâmicas contemporâneas que alteram de forma rápida as características sociais, económicas e físicas destes territórios.
Com a entrada de novos agentes económicos com acção directa sobre o território aumenta de forma considerável o “tradicional” fluxo de transformação das cidades. Torna-se assim extremamente pertinente interrogar e discutir o seu futuro. E, de que forma o planeamento pode contribuir para um equilíbrio entre os diferentes interesses socioeconómicos. Este artigo pretende cruzar e pensar as recentes estratégias de resiliência na cidade de Lisboa e perceber como a transformação do “tradicional centro” da cidade tem provado alterações nos territórios limítrofes.
Interrogamos assim os processos associados ao “acesso” ao território Lisboeta em três campos: acesso à cidade, acesso aos espaços da esfera pública e acesso à cultura. A cidade de Lisboa tem assistido a transformações aceleradas nas suas dinâmicas. Os seus habitantes vêm-se forçados a procurar outros espaços da cidade e da área metropolitana para se fixarem.
Assim, e, perante um período de grande pressão sobre os “centros históricos” interessa pensar a validade dos instrumentos de planeamento associados às indústrias criativas em contextos periféricos. Retirando pressão de locais que estão sub-lotados, e onde é necessário pensar estratégias de vitalidade e resiliência. E, onde a arte se pode assumir como um bom instrumento de reivindicação.
Contudo estratégias de descentralização são extremamente complexas juntos dos actores políticos, visto que todos querem ter o maior número possível de “acontecimentos” no competitivo jogo do turismo ou do mercado imobiliário. Com isto, e, a partir da discussão dos “antigos centros” partimos para o estudo das periferias e do potencial endógeno que apresentam.
As periferias sofreram um aumento populacional exponencial na segunda metade do século XX, período marcado pelo pós-guerra, processos de descolonização, êxodo rural, industrialização, inovações tecnológicas, etc. Neste período a maioria da população muda-se dos centros, dos campos, das ex-colónias e de outras geografias, para os novos aglomerados urbanos. Fenómeno que marcará os territórios até à contemporaneidade, com apenas algumas dinâmicas inversas de regresso aos “antigos centros”. Conforme foi o caso das indústrias criativas que encontraram nestes locais a centralidade, a identidade e o espaço para o desenvolvimento das suas actividades.
É nas periferias das grandes urbes que se aglomera a maioria da população e com isso grande parte da vida quotidiana. Alguns sectores das indústrias criativas, como o cinema, a fotografia ou a música, tem-se assumindo ao longo dos últimos anos já não a partir dos centros “tradicionais” mas precisamente embebidos nestas novas centralidades periféricas. Aproveitando o manancial de experiências que estes territórios disponibilizam. Quer falemos em termos de in-puts criativos quer falamos em lógicas de co-criação de conhecimento.
Perante a diversidade populacional que se encontra nestes territórios existe inúmeros saberes que se articulados entre a população e os agentes criativos podem trazer resultados artísticos, sociais e económicos para ambas as partes.
Os novos agentes culturais aumentam a massa crítica do ambiente criativo. Revelando-se extremamente importantes na re-vitalização de identidades e da economia de zonas altamente desprezadas do discurso político nos últimos anos. Contudo devem ser tomadas precauções para que os fenómenos de expulsão que se assiste nas áreas centrais da cidade não se repitam. Colocando em causa os ambientes culturais endógenos e as suas dinâmicas quotidianas.
Com isto, concluímos que este artigo pretende: - partindo da reflexão de casos “centrais” e do seu confronto com espaços “periféricos”, analisar a potencialidade da cultura para revitalizar espaços expectantes das cidades contemporâneas; estratégias de resiliência dos espaços com maior pressão; e, a importância destes processos num contexto de reestruturação económica em que a sua utilidade e função são repensadas.
Autores:
Ricardo Venâncio Lopes
Pedro Costa