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Resumen de ponencia
Manipulação, Modulação em rede e concentração midiática

*Joyce Ariane De Souza
*Renato Rovai
*Sergio Amadeu Da Silveira



Nas últimas décadas do século XX, as relações sociais passaram a figurar também em ambientes digitais e os rastros oriundos dessas ações se transformaram em elementos cruciais para controle e disputas econômicas, sociais e culturais. Esses rastros digitais são como pegadas na neve (GALLOWAY, 2009) que passaram a ser fundamentais na sociedade de controle (DELEUZE, 2013). Shoshana Zuboff (2016) nomeia esse cenário socioeconômico de capitalismo de vigilância.
A sociedade informacional embalada pela ordem neoliberal reconfigurou as comunicações em sentidos diversos. Ampliou a multiplicidade de vozes e possibilidades de fala, simultaneamente organizou a mais ampla e profunda rede de controle em que as pessoas têm em seu cotidiano e em seus movimentos diários constantemente vigiadas. Os dados das populações dados são ativamente coletados, armazenados e processados por grandes corporações que operam algoritmos de inteligência artificial com a finalidade de modular os comportamentos e conduzir o consumo e a política global.
Visando enfrentar a forte concorrência, reduzir custos e criar estratégias mais lucrativas, empresas visualizaram nas possibilidades de rastreamento e controle apresentados pelas tecnologias digitais, formas de se aproximarem de seus clientes ou futuros consumidores para atingir seus objetivos mercadológicos. A busca de informações referentes aos indivíduos se tornou fundamental para criação de serviços e produtos ou aprimoramento dos já existentes. Com isso, empresas fidelizam cada vez mais seus consumidores e os tornam refém dessa ampla rastreabilidade.
Observando o cenário da economia digital percebemos que a revolução informacional nem de longe desconcentrou o poder econômico. Em 2016, a soma do faturamento da Apple, Google, Amazon e Facebook foi de US$ 467,5 bilhões. Isso representa um quarto da atividade econômica do Brasil no mesmo ano, o equivalente a 26% do PIB brasileiro.
A então comissária de política do consumidor da União Europeia, Meglena Kuneva, afirmou que “os dados pessoais são o novo petróleo e a nova moeda do mundo digital”. Dados pessoais são a matéria-prima para a dinâmica de modulação dos consumidores, tecnologia fundamental para a atual fase do capitalismo. O pesquisador Nick Srnicek nomeou esse sistema de capitalismo de plataforma, enfatizando a primazia da coleta e análise dos dados pessoais como elemento essencial da economia informacional.
As tecnologias cibernéticas permitem comunicar e controlar, simultaneamente. Na internet, a interação é feita com base no controle, ou seja, para trocar conteúdos os dispositivos precisam ter uma posição inequívoca na rede. Desse modo, um computador, servidor de rede, recebe a informação de cada dispositivo que se conectou, quais aplicações acessou e por quanto tempo. Enfim, sobre essas informações de controle o mercado criou modelos de negócios de captura de dados e metadados com vistas à identificação de usuários.
A mesa discutirá o atual estágio das comunicações organizado pelo capitalismo de vigilância, pela intensificação da interatividade, pela expansão das tecnologias de controle, pela consolidação da economia de dados pessoais, com forte tendência à concentração de mídias e de plataformas de entretenimento. A partir de diferentes perspectivas serão apresentados os principais elementos contenciosos e de disputas comunicacionais nas redes. Também serão apresentadas as profundas mudanças no jornalismo operadas na internet.
A apresentação ainda mostrará que as corporações da mídia de massa enfrentam na internet as plataformas de relacionamento e entretenimento. O monopólio da mídia busca uma nova aliança com o oligopólio da internet, os chamados white sharks (Google, Facebook, Amazon, Apple). Todavia, no caso específico do Brasil, a rede permitiu o surgimento de blogs e núcleos comunicativos vinculados ao discurso contra hegemônico e aos movimentos sociais. Os barões da mídia e os novos agrupamentos neofascistas disputam a opinião em rede e contam com o grande capital para redefinir o desenho e os fluxos da esfera pública interconectada.




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* Souza
Universidade Federal do ABC - UFABC. São Paulo, Brasil

* Rovai
Revista Fórum. Santos, Brasil

* Silveira
Universidade Federal do ABC - UFABC. São Paulo, Brasil