Neste painel discutiremos como a crítica feminista pós-colonial contribui para a emancipação de mulheres e homens a partir da construção das Ecologias Feministas de Saberes que pretente nos tornar capazes de pensar, sentir e agir (des) construindo conhecimentos e práticas que são insubmissas/os a um único saber. Baseia-se na relação entre feminismos, educação, direitos humanos e na ideia da paz como instrumento que liberta e emancipa. Desse modo, os movimentos de mulheres e feministas, em várias partes do mundo, tem trazido experiências e narrativas de resistências construídas em vários contextos de aprendizagem e de construção do conhecimento que traduzem a necessidade de se reinventar a relação entre as pessoas e destas com o mundo e a natureza. Entendemos que o feminismo e a educação são ferramentas importante no processo de construção de uma nova forma de ver a realidade e as pessoas. As relações de gênero e, especificamente, a condição de desumanidade e violência com que vem sendo tratada as mulheres em todo o mundo, tem sido um desafio para os Estudos Feministas, seja qual for o modo de olhar essas relações. De alguma forma, temos sempre um jeito de ver, definir e categorizar o que produzimos tanto em teoria quanto na prática. Estes estudos têm feito reflexões sobre como nos tornamos “mulheres” e “homens” e sobre a forma como incorporamos diferentes olhares em nossos corpos, mentes e afetos. Questionam, ainda, os conhecimentos nortecêntricos que dominaram/dominam a Ciência moderna e pós-moderna até os dias atuais. Assim, a crítica feminista pós-colonial à produção do conhecimento eurocentrada pode contribuir para a construção de um conceito ampliado e não-sexista de educação. Propomos apresentar experiências de estudos e pesquisas desenvolvidas por mulheres feministas, militantes, pesquisadoras e profissionais que se preocupam com a construção de um outro mundo possível no qual o colonialismo, o patriarcado e o capitalismo não sejam a mola mestra das relações. Assim, destacaremos a Educação Popular como uma experiência que valoriza a produção coletiva do conhecimento, a participação ativa de todos/as no processo, resultando no protagonismo em torno da transformação da realidade, da Associação de Produção “Mulheres Perseverantes”/Brasil (Freire, 2005). Apresentaremos uma cartografia feminista da educação pela paz na Colômbia, com o intuito de discutir os diferentes processos de sua implantação e seus efeitos sobre a população. Assim, também, se analizará a jurisprudencia da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH - Equador), que trata de casos emblemáticos em torno do feminicídio/femicídio, com a finalidade de visibilizar o discurso judicial do mais alto tribunal de direitos humanos e determinar como um discurso comprometido pode influenciar a emancipacão e/o gerar resistencias às violencias patriarcais e e contra as mulheres. E, por fim, pretendemos numa cartografia feminista das Linha Abissal, a partir das experiências de mulheres reclusas e carcereiras do Mato Grosso, Brasil, discutir tendo como base a sociologia das ausências, como a militarização, o uso da força bélica, utilizado como processo ordinário de saber-poder, reconfigura e converte o espaço-tempo prisional na desumanização do feminino; e, por outro lado, numa sociologia das emergências, apresentar como essas mulheres, ainda que, apesar das violencias inscritas nas instituições e cultura carcerária, movem, corrompem, subvertem as Linhas Abissais, ao demonstrarem-se autoras de um pensamento pós-abissal caminhando sobre a linha e reivindicando justiça social e cognitiva. Assim, o modo como nos tornamos “mulheres” e “homens” diz muito sobre como uma sociedade está organizada e sobre como pensa a educação e educa seus seres humanos, que as vezes se tornam não-humanos porque violentam, oprimem e subjugam as capacidades individuais e coletivas que nos fazem sentir ou não pertencentes a essa mesma sociedade. Historicamente, através de uma educação colonial, capitalista e patriarcal fomos levados a construir uma imagem diferenciada das relações, da natureza, da economia, do trabalho e até mesmo da educação. Isto nos levou/leva a sermos “mulheres” e “homens” com resquícios machistas e homofóbicos, porque o colonialismo, seja na sua forma política ou epistêmica, continua a agir como se os corpos das “mulheres” e dos “homens”, tal como a terra e os continentes, fossem espaços e subjetividades vazios que podem ser alienados, ocupados e explorados (CUNHA, 2017). Acreditamos que reconstruir as relações através da Educação Popular porque esta ao fazer-se, faz seu próprio caminhar e, como assegura Freire, “ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar”. Ao caminhar, pode-se encontrar no caminho o que tanto se deseja e, nesse caso, “a alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria” do caminhar (FREIRE, 1997; 2000).