Este trabalho resulta das análises empreendidas durante o desenvolvimento da Pesquisa “Políticas Educacionais no Contexto da Situação de Pobreza e Extrema Pobreza no Estado do Tocantins: quem são os alunos pobres no planejamento da educação”, desenvolvida através da Iniciativa Educação, Pobreza e Desigualdade Social – EPDS, pelo Núcleo de Pesquisa em Educação, Desigualdade Social e Políticas Públicas – NEPED, da Universidade Federal do Tocantins - UFT. Nele, analisamos como a pobreza e a desigualdade social são tratados no Plano Estadual de Educação do Tocantins/Brasil, bem como os avanços, limites e perspectivas deste instrumento, enquanto eixo estruturante das políticas educacionais no Estado. Para a análise das metas e estratégias relacionadas ao enfrentamento das desigualdades sociais e educacionais tomamos como referências concretas o Plano Nacional e Educação – PNE e o Plano de Educação do Estado do Tocantins – PEE/TO e os dados socioeconômicos e educacionais do Estado. Partimos do pressuposto que a produção da pobreza e da desigualdade social tem enraizamentos sociais, políticos e econômicos profundos e complexos. As desigualdades são de várias ordens e formas e vão desde as condições de vida, passando pela questão das formas precárias de trabalho e de sobrevivência, até as desigualdades de raça, cor e gênero. Contudo, as políticas sociais, historicamente, têm partido de uma visão moralista da pobreza e da fome, implementando políticas compensatórias de carências morais, de valores, de atitudes, com avanço na “imagem do Estado e da escola pública como moralizadores dos coletivos marginais” (ARROYO, 2010). Os avanços, limites e perspectivas de enfrentamento à pobreza e as desigualdades sociais no campo educacional são analisados a partir de uma leitura crítica sobre o Estado e as políticas públicas no contexto do capitalismo e de suas crises cíclicas. A simultânea recorrência à teoria marxista e à adoção do materialismo histórico dialético permite que ao longo do trabalho se empreenda a crítica às formas de sustentação da sociedade capitalista, ao mesmo tempo em que se buscam as possibilidades de sua ultrapassagem (MARX, 1987, 1988; ENGELS, 1988, 2008; GRAMSCI, 1980, 2007). Nesse sentido, as reflexões desenvolvidas partem do princípio de que a análise das políticas educacionais, suas possibilidades, limites, qualidade e extensão, não pode, pois, prescindir da consideração da base material da sociedade, de sua forma de organização e funcionamento, de suas contradições e dos antagonismos de classes nela presentes. Desse modo, à luz do materialismo histórico dialético e do desenvolvimento de pesquisas de caráter bibliográfico e documental, analisamos como é tratada a relação educação, pobreza e desigualdade social, e quem são os sujeitos pobres e desiguais no planejamento educacional, expresso no âmbito do PEE-TO, buscando ainda identificar como são apresentados os grupos sociais considerados pobres e desiguais nesse documento. Na pesquisa bibliográfica realizou-se leitura e síntese de referencial teórico sobre a relação entre educação, pobreza e desigualdade social no Brasil e também de referenciais teóricos que partindo de uma compreensão crítica das políticas públicas, discutem a relevância do planejamento educacional e seus possíveis efeitos no combate às desigualdades sócio educacionais no contexto atual (DOURADO, 2016; FERNANDES, GOUVEIA, 2017). Para a pesquisa documental, foi produzida uma guia de documentação e leitura para análise do PEE-TO (2015-2025), com o intuito de identificar nesse documento as metas e estratégias que mais diretamente tratam de ações para o enfrentamento das desigualdades sociais e educacionais, a que estão submetidas as crianças, adolescentes e jovens pobres, estudantes da educação básica. Observa-se que são contempladas nas estratégias relacionadas às metas do PEE medidas que dizem respeito à superação das desigualdades educacionais, principalmente para os grupos sociais que historicamente vivenciam a situação de pobreza e desigualdade social: populações do campo, povos indígenas, comunidades quilombolas, beneficiários de programas de transferência de renda (Bolsa Família), itinerantes, alunos em situação de vulnerabilidade social. Evidencia-se no trabalho o papel desempenhado pelo Estado no processo de expansão do capital, bem como suas consequências para a classe trabalhadora. No Estado do Tocantins, considerado como a última fronteira agrícola do País, essas contradições se expressam por um lado, no avanço do agronegócio e, por outro, na precarização das condições de trabalho e na exclusão social de parcela significativa da população. É neste contexto que as desigualdades sociais e a situação de pobreza de grande parte dos estudantes que adentram a escola coloca novos desafios às políticas educacionais e à sua materialização nas escolas públicas, pressupondo uma alteração do significado da organização do trabalho pedagógico da escola, bem como ampliação dos objetivos e das finalidades da educação no sentido de propiciar a inclusão das crianças e jovens em situação de pobreza e extrema pobreza. As considerações finais do trabalho apontam que a superação das desigualdades sociais e educacionais no Estado do Tocantins, perpassam pelo esforço coletivo do Estado e da sociedade organizada, especialmente dos movimentos sociais da educação, pela efetividade do Plano Estadual de Educação. Apontam ainda, avanços no que diz respeito a inclusão da temática da pobreza e desigualdades sociais como elementos que repercutem nos resultados da educação escolar e o reconhecimento da necessidade de ações articuladas no âmbito dos entes federados para reduzir as históricas desigualdades educacionais, e, como limites reais à materialização do Plano Estadual de Educação apontam a forma atual do regime de colaboração e financiamento da educação e, de modo especial, os limites do próprio cenário político e econômico, decorrentes das políticas de ajuste fiscal adotadas pelo Estado brasileiro a partir de 2015, bem como a necessidade da definição clara das concepções e proposições sobre as metas e estratégias, reforçando a necessidade de ampla mobilização em torno da luta política em contraposição às proposições e concepções que têm marcado, hegemonicamente, a ação do Congresso Nacional e do Poder Executivo Federal e Estadual, marcadamente caracterizadas por uma política regressiva de ajustes, que traz efeitos perversos para o acesso democrático à educação de qualidade, ao exercício da cidadania e ao combate à pobreza e à desigualdade social.