A literatura brasileira produzida no século XX tinha como um de suas propostas pensar a formação do povo brasileiro. Outras produções das humanidades se ocuparam da mesma tarefa. Muitos intelectuais – em sua maioria homens, brancos, de classe média, moradores dos grandes centros urbanos - desenharam o que seriam traços da cultura nacional ou o entendimento do que é ser brasileiro. Grandes narrativas acerca da formação do povo brasileiro foram pensadas e acolhidas por gerações de pesquisadores da academia. Por décadas, o meio acadêmico acolheu sem muito questionamento a noção de boa convivência entre os atores sociais que participam do jogos de poder.
Minorias sociais, que outrora eram excluídas ou possuíam destaque secundário, passaram a ganhar espaço e protagonismo na literatura do século passado. Obras tais Macunaíma (1928), O Quinze (1930), Menino de Engenho (1932), Vidas Secas (1938) e Grande sertão: veredas (1956) são exemplos do esforço de escritores que se comprometeram a falar sobre os diversos povos e grupos que compõem o cenário brasileiro, especialmente o campesino, indígena ou periférico.
Ao pensar a literatura do século XX, devemos levar em conta que as vozes que estavam sendo utilizadas nos romances acima listados não falavam por si. Com isso, gostaríamos de enfatizar que os escritores da literatura nacional, em grande parte, habitavam os centros urbanos e circulavam pelos meios intelectuais da classe média.
O movimento atual da literatura brasileira inicia um fenômeno no qual vozes dissidentes comecem a reivindicar seu direito de contar sua própria história e começam a ocupar espaços anteriormente negados: cadeiras de universidades, anais de conferências acadêmicas, prateleiras de livrarias. Infelizmente, ainda é tímido o número de autores periféricos que trazem suas demandas para o espaço da literatura. Ainda não temos uma grande gama de produções artísticas e políticas assinadas por indígenas, povos ancestrais, negros e negras, pessoas gays, pessoas trans, moradores da periferia, compositores e compositoras de Rap.
A literatura escrita por povos indígenas é uma ferramenta política de resistência e atua de forma a aclamar existência. Eliane Potiguara, indígena, acadêmica e ativista exalta em seus textos o sentimento de ser uma mulher indígena. Muito além do imaginário do canibal ou bom selvagem, a obra Metade Cara, Metade Máscara (2004) atua como uma reconstrução do entendimento da sociedade brasileira.
O presente trabalho tem por objetivo utilizar os conceitos do sociólogo Jessé Souza (2017) para explicar a dinâmica de poder da sociedade brasileira e a consequente marginalização e invisibilidade política de grupos sociais representados por negros e indígenas. Temos como proposta repensar as grandes narrativas de explicação da união de três matrizes sociais e de uma possível convivência harmônica entre a cultura dos povos indígenas, a cultura trazida pelos imigrantes nus, ou seja, os escravos africanos e a cultura imposta pelo colono europeu. Utilizaremos os poemas de Eliane Potiguara para exemplificar o grito de vozes periféricas que foram historicamente submetidas ao silenciamento e reescrever o local da mulher indígena na sociedade brasileira.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Mário de. Macunaíma: Heroi sem nenhum caráter. São Paulo: Agir, 1928.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 7. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1985.
HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e
Guacira Lopes Louro. 7. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
POTIGUARA, Eliane. Metade Cara, Metade Máscara. São Paulo: Global, 2004.
QUEIROZ, Rachel. O Quinze. 93ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1930.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 1938.
REGO, José Lins do. Menino de engenho. Primeira edição. Rio de Janeiro: Adersen-Editores, 1932.
RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas.Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1956.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato.Rio de Janeiro: Leya. 2017.