O objeto de análise do presente trabalho é a expansão do agronegócio canavieiro no Brasil que surgiu, durante os governos neodesenvolvimentistas de Lula e Dilma, como parte de um novo padrão de acumulação do capital, com as novas perspectivas de crescimento decorrentes de um conjunto de fatores, dentre os quais se destacam: o aparecimento dos carros flex-fuel; o alto preço e escassez do petróleo; as exigências dos protocolos e acordos ambientais em reduzir a emissão de CO2 na atmosfera; e as novas demandas dos países por combustíveis limpos e renováveis. Essa conjuntura favorável não desencadeou apenas a expansão recente do agronegócio canavieiro no Brasil, mas também engendrou a sua reestruturação produtiva, o que o colocou em destaque no cenário econômico nacional e internacional. Assim, amparado pelas políticas neodesenvolvimentistas de fomento ao agronegócio, o setor passou a ser defendido como um modelo sustentável de desenvolvimento econômico, tanto porque se modernizou e desenvolveu novas tecnologias geradoras de energia limpa e renovável, como também, porque vem ocupando a liderança nos índices das exportações brasileiras nos últimos anos. Todavia, o seu desenvolvimento é contraditório e dependente. Pois, ao mesmo tempo em que ele opera formas moderníssimas de produção, baseadas na automação industrial e na engenharia genética, verifica-se a presença de condições precárias de trabalho, bem como a degradação e destruição ambiental, provocada tanto por formas deletérias de exploração dos recursos naturais como pelo uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos. Ademais, é possível perceber que o agronegócio, ao se estruturar no latifúndio, na monocultura e na superexploração do trabalho, reproduz elementos que caracterizam uma economia de tipo colonial, considerada atrasada e subdesenvolvida. Por meio de uma ampla análise de dados e informações coletadas, e pesquisa empírica qualitativa direta, buscou-se apreender as condições e relações de trabalho praticadas no interior do agronegócio canavieiro, seus dilemas e contradições atuais como modelo sustentável de desenvolvimento econômico. Segundo nossos estudos, a atual expansão do setor no Brasil, instaurou novas formas de exploração e controle sobre a força de trabalho, o que garantiu, por um lado, uma maior acumulação, especialmente do capital estrangeiro, que invadiu o setor com a mundialização do capital, mas, por outro, ao intensificar a exploração e degradar as condições de trabalho, trouxe com ela a morte e o adoecimento dos trabalhadores. Isso nos permite dizer que, em nome da lógica destrutiva da expansão e acumulação incessante do capital, o agronegócio opera como um “moinho satânico” que tritura e corrói não apenas as condições de vida e trabalho, mas o corpo e a physis do trabalhador. Os trabalhadores migrantes, oriundos das regiões norte e nordeste, que deixam suas terras e famílias, para trabalharem no corte da cana nas usinas do Estado de São Paulo, são submetidos a longas e intensas jornadas de trabalho nas quais são obrigados a produzirem diariamente uma média que varia entre 12 e 15 toneladas de cana cortada. Essa média exigida pelas usinas é o mínimo que os trabalhadores têm de cortar para manterem-se empregados. Mas, como o pagamento é por produção, a lógica da concorrência se estabelece, levando-os a um esforço no corte da cana que ultrapassa os limites da sua condição física, ocasionando doenças, acidentes do trabalho ou até mesmo a morte por excesso de trabalho. Portanto, concluímos que a posição de destaque ocupada atualmente pelo Brasil no cenário internacional, como um dos maiores produtores de agrocombustíveis e commodities do mundo, se estrutura, fundamentalmente, na degradação ambiental, provocada pelo uso de agrotóxicos e superexploração do trabalho, praticada pelos usineiros nos eitos dos canaviais, e na presença do capital estrangeiro, que impõe ao Brasil as estruturas históricas da dependência, subordinando o país aos interesses estrangeiros e instaurando – por meio do agronegócio – um novo regime de exploração neocolonial.