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Resumen de ponencia
Autonomia ou morte: A relação entre movimentos autônomos, Anarquismo e suas contribuições para a prática e análise contemporânea.

*Gabriela Barchechen Luiz
*Mayara Dos Santos Maya



Muito tem se falado sobre o avanço da direita e consequentemente o recuo da esquerda na América ‘Latina’. Não se trata mais da mesma conjuntura de outrora, em que havia de fato uma ruptura internacional com o capitalismo em curso, mas do ataque da direita direcionado aos setores progressistas que durante as últimas décadas foram forças hegemônicas nos governos latino-americanos. No caso do Brasil, para além da política neodesenvolvimentista e da repressão às mobilizações populares, há um fator que se destaca: A burocratização dos movimentos sociais. É contra isso que o grito de autonomia se eleva.
Muitos movimentos se ergueram nos últimos anos reivindicando sua auto-organização como peça indispensável para sua existência. Nesse sentido buscamos, a partir da experiência recente de mobilizações populares no Brasil, analisar como sua reinvindicação por autonomia se estabelece, se de fato é basilar para a sua construção, e como o Anarquismo se relaciona de maneira dialética com os movimentos autônomos atuais. Para isso teremos como foco as ocupações secundaristas de 2016 que se levantaram em resistência à Reforma do Ensino Médio e contra a “PEC do teto”. A relação entre teoria e prática parece trazer novos contornos ao Anarquismo, que retoma sua inserção social, ao passo que se distancia daquele fundamentado na Europa do século XIX, atualiza seu programa segundo o contexto. Mais que perguntar o que há de influência anarquista nos movimentos, nos interessa olhar como o Anarquismo carrega as influências daqueles que se colocam em movimento. Que contribuições essa relação traz para pensar novas formas de luta e organização?
Algumas ideias fundamentais foram pinçadas para a construção de nossa análise. Trata-se de levar em conta que o pensamento crítico latino-americano não está em crise, como postulado por outros intelectuais, mas em efervescência. E suas contribuições teórico-políticas se dão para além dos espaços mais institucionalizados, como a Academia, encontram-se nos debates dos movimentos e coletivos, nas assembleias de povos em resistência, etc. Estes conhecimentos de “mundos em movimento”, estão trazendo um avanço de pensamento ao reconstituir seus mundos frente às graves crises ecológicas e sociais que enfrentamos, demonstrando muito mais esforço para pensar essas questões que as instituições e intelectuais. (ESCOBAR ARTURO, 2016.)
Assim, é necessário ampliar o que é considerado como pensamento crítico, incluindo a ele duas vertentes que tem emergido como grande fonte de produção crítica e surgem das lutas "desde abaixo" junto aquelas que estão sintonizadas com as dinâmicas da Terra. A estas Escobar chama de "pensamento autônomo" e "pensamento da Terra" respectivamente. Em nossa análise, a reflexão terá como enfoque o “pensamento autônomo”, emergido de processos autônomos, que se cristalizam com o zapatismo e estão presentes em todo o continente. Movimentos que enfatizam a retomada da visão de comunidade, tendo como pilar a autonomia. Deste modo é possível dizer que a autonomia é uma prática teórico-política dos movimentos étnico-territoriais. O objetivo da autonomia é a realização do comum, entendida como a criação das condições para a autocriação contínuas das comunidades. Mas, e o que ocorre no cenário urbano? Como os movimentos inseridos na cidade dialogam – e se dialogam - com essa prática? Traçar um diálogo entre estes espaços a partir do ‘pensamento autônomo’ é uma alternativa que pode potencializar a análise e a prática.
Colocar a chave, não apenas das respostas como também das perguntas, nas mãos dos movimentos sociais e organizações dos povos foi algo proposto e debatido no interior da tradição socialista logo em seu nascimento. Trata-se da principal diferenciação entre marxistas e anarquistas, e decorre dessa diferença fundamental o título atribuído de socialismo científico ao marxismo e socialismo utópico para o anarquismo. Ao defender o federalismo em contrapartida ao Estado, o anarquismo coloca como princípio organizativo a autonomia local e a associação das comunidades construindo um corpo político ‘de baixo para cima’. Deixa de lado o horizonte da disputa estatal por acreditar que nada seria menos estratégico à superação do capitalismo do que o fortalecimento do dito Estado moderno.
Bakunin acreditava que a Ciência não poderia ditar os rumos do movimento, e que apenas os trabalhadores de todo mundo é que guiariam ao caminho da superação do capitalismo. Ao refletir criticamente sobre a ciência, ele não queria descarta-la totalmente, mas alertava para o fato de que a contradição entre pensamento e vida; e o deslocamento dos intelectuais do cotidiano torna a produção do conhecimento ineficaz para as lutas. Há muito o que explorar nesses embates, cabe reconhecer a impotência da ciência burguesa para superar o sistema que a sustenta e a si mesma. Nesse sentindo de distanciamento via também a burocratização dos movimentos, que passam a construir seus caminhos por mais tempo em gabinetes do que em bairros, a exemplo da União Nacional dos Estudantes. Um governo progressista, com seus avanços e contradições, tende mais a aumentar a dependência dos movimentos à personalidades e instituições políticas do que fortalecer suas bases. Poderíamos dizer então, que o que está em crise é na verdade a Esquerda Institucional, bem como toda política ‘tradicional’?
Contudo, não pretendemos fazer uma defesa do anarquismo pura e simplesmente. Pretendemos olhar com sinceridade para suas contribuições teóricas marginais à Academia, e sua prática inúmeras vezes invisibilizada e distorcida. A este olhar é preciso reconhecer as limitações históricas e o desenvolvimento contemporâneo, que no continente latino ganha outros contornos a partir da Federação Anarquista Uruguaia. Esta foi responsável pela elaboração de uma leitura mais contextualizada do anarquismo. Mas certamente não podemos dizer que uma organização apenas foi responsável pelo momento de “descolonialização”. Múltiplos debates se entrelaçam e influenciam mutuamente o desafio de superar as velhas limitações prático-teóricas. Desde o zapatismo no México ao Curdistão revolucionário em sua adoção do confederalismo democrático, observamos movimentos que não nascem no seio da militância anarquista e não se autodenominam como anarquistas, mas, dialogam diretamente com os postulados da autonomia e a democracia de base. Desse modo, são propagandeados pela militância como exemplos reais do que desejam construir. Outros diálogos começam a tomar centralidade, como no trabalho de Bookchin - influência direta na mudança de estrutura revolucionária adotada pelo PKK no Curdistão - a ecologia social emerge reconectando política e espaço-natureza-ambiente. Kom’boa, ex-pantera negra, em seu livro “Anarquismo e Revolução Negra” traz as críticas e possibilidades de uma interlocução entre Movimento Negro e Anarquismo partindo da atual conjuntura nos EUA.
Em meio a esse debate, para compreender como o movimento secundarista, que emerge em 2016 nas escolas metropolitanas de Curitiba e depois se estende a grande parte do território paranaense, reivindica sua autonomia frente a entidades de representação estudantil burocratizadas e aos partidos. Um estopim que tomou a proporção de mais de mil escolas ocupadas no Brasil, sendo mais 800 escolas apenas no Paraná, tornando-se assim o maior movimento de ocupações do país. Ações como os bloqueios de rodovias impulsionadas por estudantes, unificaram a luta em diferentes capitais. A maior resistência contra as medidas federais de congelamento de investimentos públicos foi construída principalmente por esse movimento, que agregava também universitários, sindicatos, etc.
O desafio na conjuntura completamente instável do país é olhar para as pistas que podem alavancar a força daqueles que se
movimentam. É pensar que se no médio prazo o impeachtment de Dilma, a prisão de Lula e a crescente repressão instituída aos de baixo significa um recuo da esquerda, a longo prazo aponta para a reorganização desta. Com isso abrem-se novos caminhos, trazendo a disputa de novas formas de luta e organização. Cabe colocar que a análise será feita por duas militantes do movimento estudantil que construíram os processos ativamente, afim de amarrar pensamento e ação.
Como apontamentos antecipamos: para propor uma alternativa aos desafios colocados hoje, não é possível pensar a Esquerda sem ouvir as múltiplas vozes do “pensamento autônomo”. Se desejamos de fato superar a condição do avanço neoliberal que nos assola, necessitamos estar atentos ao que vem ‘desde abaixo’ (e pela terra), apontar para um horizonte onde a reestruturação vá muito além de uma nova sigla partidária. A quebra com a burocracia, com a hierarquia no sentido estatal são demandas urgentes. Como se ouve cantar nos protestos por aqui “O poder do povo vai criar um mundo novo!”. O caráter de superação/transformação do sistema-mundo atual está nas formas de organização que os processos políticos criam.
Referências Bibliográficas:
BIEHL, Janet e Boockhin, Murray. La Políticas de la Ecología Social. Municipalismo Libertario. Virus Editorial, Barcelona: 2009.
Bakunin: Obras seletas 2. Seleção e tradução: Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Intermezzo, 2017.
Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo. Confederalismo Democrático: Organizando uma sociedade sem Estado. In: Şoreşa. Rojavayê: revolução, uma palavra feminina. Biblioteca Terra Livre, São Paulo: 2016. Pp 77-103.
ESCOBAR, Arturo. Desde abajo, por la izquierda y con la Tierra: La diferencia de Abya Yala/Afro/Latino-América. In: Rescatar la esperanza: más allá del neoliberalismo y el progresismo. [Place of publication not identified]: Entrepueblos, 2016. Pp 334-369.
KOM’BOA, Lorenzo. Anarquismo e Revolução Negra. Sunguilar, local não identificado: 2015.
RUGAI, Ricardo Ramos. Um partido anarquista: o anarquismo uruguaio e a trajetória da FAU. São Paulo: Ascaso, 2012.





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* Barchechen Luiz
Universidade Federal do Paraná UFPR. Curitiba, Brasil

* Maya
Universidade Federal do Paraná UFPR. Curitiba, Brasil