O trabalho em tela análise a atuação dos novos movimentos sociais no Estado do Piauí do surgimento aos dias de hoje. Tomamos por movimento social ações coletivas. No debate sobre teoria e prática das ações coletivas se convencionou dividir o objeto em dois grupos: numa abordagem clássica de perspectiva marxista, “velhos” movimentos sociais (movimento operário) e na abordagem contemporâneas de viés teórico culturalista em novos movimentos sociais, movimento ambiental, estudantil, de mulheres, entre outros (MELUCCI, 2001; LACLAU, 1986; TOURAINE, 1989; BORJA, 1975; CASTELLS, 1983). Com o fim do regime político militar pela pressão social, em fins dos anos de 1970, eclodem no Brasil os novos movimentos sociais (clubes de mães, associações de bairros, conselhos comunitários, movimento contra o custo de vida, movimentos ambientais, Comunidades Eclesiais de Bases – CEBs, grupos de jovens) e iniciam reuniões públicas, greves, mobilizações, reinvindicação de serviços públicos e denúncias contra descaso do poder público a situação de pobreza de parte expressiva da população. Posteriormente, no início dos nãos 80, lutas pontuais se transformam em manifestações públicas pela redemocratização do Estado (na campanha pelas eleições diretas já! mobilizações pela Assembleia Nacional Constituinte) e reinvindicação de direitos espalham-se pelo país numa eclosão dos novos movimentos sociais (TELES, 1987; SADER, 1988; DOIMO, 1995; DAGNINO, 2004). No Piauí, emergem novos movimentos sociais, mas não sem antes o terreno ser preparado com atuação dos movimentos da ação católica no início dos anos de 1960 do século XX, a exemplo da Juventude Estudantil Católica (JEC), Juventude Universitária Católica (JUC), Juventude Operária Católica (JOC) Juventude Agrária Católica (JAC) e Ação Operária Católica (ACO). Esses movimentos inauguram um novo tempo no sentido da construção de sujeitos sociais coletivos afinados com as expectativas de mudança de setores da população piauiense (MEDEIROS, 1996; CARVALHO, 2006). O apoio de setores da Igreja Católica novamente foi fundamental ao surgimento dos novos movimentos sociais no Estado. Pesquisadores indicam o bairro Parque Piauí, localizado na periferia da capital Teresina o ponto nascedouro desses sujeitos, na segunda metade dos anos 70, com o trabalho de pastoral de padres italianos em Teresina, que apoiam atividades dos moradores do bairro contra a carestia, na ótica da teologia da libertação, na organização de CEBs e de grupos pastorais, especialmente grupos de jovens. Esse trabalho no Parque Piauí se espalha para outros bairros da cidade e para outras cidades no Estado: Picos, Esperantina, Campo Maior, Pimenteiras, Valença e tantas outras. Nessa época o déficit habitacional de Teresina pressiona o crescimento de vilas e favelas na periferia pela corrida da população do interior para a capital. O poder público tenta remediar essa situação com urbanização e construção de conjuntos habitacionais carentes de infraestrutura e distante do centro da cidade. Isto tudo faz o contexto das lutas sociais mais dinâmico. Para se ter ideia desse processo, em 1960 Teresina tinha 142.691 (cento quarenta e dois mil, seiscentos noventa e um) habitantes, trinta anos depois, em 1991, a população da capital era 598.323 (quinhentos noventa e oito mil, trezentos e vinte e três) habitantes (VIEIRA e FAÇNHA, 2016), mais que quadruplica e a cidade não apresenta planejamento capaz de reverter a precarização da periferia. É nesse contexto que surge os Conselhos Comunitários, Associações de Moradores de Bairros na periferia de Teresina, Centros de Assessoria e Educação Popular, mais tarde denominados de Organização Não-governamental (ONG) que assessoram e organizam os movimentos sociais e as CEBs na capital e no interior do Estado. Em 1986 foram criadas em Teresina duas Federações de movimentos populares urbanos: Federação de Associações de Moradores e Conselhos Comunitários (FAMCC) e Federação das Associações de Moradores do Estado do Piauí (FAMEPI). É criado, em 1982, o Centro Piauiense de Ação Cultural (CEPAC) que dedica-se à assessoria a movimentos populares urbanos, movimento sindical (urbano e rural) e a produção de material didático de educação popular. No bairro Parque Piauí é criado o Centro de Estudos Alternativos do Parque Piauí (CEA). Na cidade de Esperantina é criado em 1984 o Centro de Educação Popular Esperantinense (CEPES) para assessorar CEBs e movimentos sociais em parte dos municípios do norte do Estado. Mais tarde são criados o Centro de Assessoria a Movimentos Populares (CAMP), em Paranaíba, o Centro de Educação Popular de Valença (CEPAV), em Valença, o Centro Manoel Otavio, em União, e o Centro Mandacaru (1991), em Pedro II. Também no Piauí, nesse processo, ocorrer renovação sindical urbano e rural. Vários sindicatos urbanos tem direções renovadas e mudança na postura sindical e sindicato de trabalhadores rurais. É criado o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Estado em 1985. O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) surge no Piauí no final dos anos 80 para organizar mulheres extrativistas de coco babaçu (SILVA, 2014). Na área urbana o Movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) surge no Piauí no final dos anos 80, na luta das pessoas LGBT por política de saúde para a AIDS e contra o preconceito da sociedade. Na década de 90 ele se fortalece, conquistam confiança de setores do poder público e estrutura-se após a criação do Grupo Matizes, em 2002. A partir do trabalho dessa ONG e de outros grupos, em diálogo com o poder público municipal e Estadual o movimento consegue apoio à criação de políticas e garantia dos direitos das pessoas LGBT. Assim, é criado em 2003, na Secretaria de Assistência Social do Estado a Coordenação de Livre Orientação Sexual para ajudar na criação de políticas públicas direcionadas a esse público. O movimento estudantil no Piauí se organiza em vários centros acadêmicos e grêmios desde dos anos 80. Nos primeiros meses do ano de 2011, segue no mês de agosto e em janeiro de 2012 um conjunto de manifestações contra a má qualidade do transporte coletivo e o alto preço da tarifa de ônibus na capital. No pico das manifestações, denominadas de “semana dos indignados”, “movimento pela melhoria do transporte coletivo” ou “manifestações dos estudantes” conseguiu reunir mais de 20 mil pessoas, entre estudantes universitários, secundaristas, trabalhadores, sindicalistas e populares. (NETO, 2016). A pujança dos novos movimentos sociais no Piauí, nas décadas de 80 e 90, desde a democratização do Estado, os fez sujeitos sociais legítimos, criativos, atuantes na defesa de direitos de cidadania e conquista de direitos sociais. Geraram processos organizativos, lideranças conscientes e plurais no fortalecimento das identidades coletivas. Porém, esses sujeitos chegam aos anos 2000 em meio a uma crise identitária. No Piauí, a crise dos sujeitos é reflexo da fadiga desses atores em âmbito nacional e coincidi com governos do Partido dos Trabalhadores em âmbito nacional e Estadual. Tomamos por crise o processo de diminuição (perda) do poder de mobilização social, em consequência da fragmentação dos sujeitos coletivos, com óbices as lutas, sua organização interna e consequente diminuição de legitimidade. No Piauí, a crise nos novos movimentos sociais inicia antes dos governos petistas no estado, mas evolui justamente na época desses governos, num processo de relação estado movimentos sociais com baixa autonomia e independência. Desde os anos 90, no Brasil, nos governos do PT, assim como Piauí, aos poucos os movimentos sociais urbanos e rurais, sindicais e populares na participação social, paulatinamente avançam na transição da estratégia de mobilização e enfrentamento para atuação colaboracionista (CARLOS, 2011; GUIMARÂES, 2015; MIGUEL, 2017). Essa estratégia apresenta avanço e limites. Por exemplo, a abertura do Estado à participação de movimentos sociais em conselhos setoriais, em orçamentos participativos e conferências públicas, em tese espaços participativos e deliberativos, os movimentos sentiram-se instados a colaborar na proposição, fiscalização e controle de políticas públicas nas três esferas da federação. Expressiva parte desses atores, inclusive ONGs, nas últimas duas décadas, investiram tempo, pessoal e debates nesses espaços públicos partilhados, deixando em segundo plano a organização interna e seu fortalecimento. Além disso, no Piauí, em várias prefeituras, gabinetes parlamentares, secretarias de Estado de governos e órgãos públicos diversos estiveram e estão lideranças de movimentos sociais populares e sindicais (urbanos e rurais) na execução da gestão pública. O governo, sempre menor que o estado, e este, via de regra é constituído na correlação de forças político-econômicas e sociais antagônicas, no caso do Piauí, estrategicamente o governo se relaciona com os movimentos sociais na perspectiva de atenuar a pressão social sobre si. Mas, o problema não é ocupar espaços e cargos públicos, é, sobretudo, ocupa-los de forma irreflexiva, fortalecendo relação dúbia entre estado e socialidade. Em resumo, a crise nos novos movimentos sociais no Piauí relaciona-se a quatro fatores distintos e completares: incapacidade de renovação de lideranças e baixa criatividade nas lutas sociais; vínculo de lideranças com cargos públicos e assessoria parlamentar; relação de parceria ambígua entre estado movimento social e; dificuldade em acompanhar e discernir as mudanças da sociedade. É justamente nesse contexto de crise dos novos movimentos sociais que ocorre uma onde explosiva de manifestações conservadoras no Brasil e desagua no impeachment da Presidente Dilma Rousseff (2015) e na prisão do ex-presidente Lula em 2018.