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Resumen de ponencia
Trabalho exercido e trabalho projetado: sentidos e significados do trabalho para os jovens

*Mariana Garcia



Essa pesquisa tem como objetivo compreender os significados e sentidos atribuídos ao trabalho por jovens, tanto com relação ao trabalho concreto que realizam como em sua dimensão abstrata. O percurso metodológico foi através de entrevistas com jovens trabalhadores telefônicos e metalúrgicos, sindicalizados e não sindicalizados da Região Metropolitana de Porto Alegre (Brasil), conformando um total de 16 entrevistas.
Duas características diferem os trabalhadores metalúrgicos e os telefônicos entrevistados. Enquanto a trajetória profissional dos telefônicos é mais fragmentada, transitando entre empregos em diferentes áreas, os metalúrgicos têm no geral mais tempo de serviço na área da metalurgia e maior tempo de inserção na empresa atual. Além disso, a maioria dos trabalhadores metalúrgicos passou por cursos técnicos relacionados às áreas de atuação, enquanto os telefônicos não afirmam terem passado por nenhum tipo de formação específica para a função que desempenham.
Neste artigo iremos trazer a definição do conceito de trabalho, mostrando como essa está relacionada a dimensões sociais e históricas, e como este se constitui na sociedade capitalista, abordando também os conceitos de trabalho concreto e abstrato. Em seguida, serão debatidas as definições sobre sentidos, significados e centralidade do trabalho, juntamente com a discussão acerca da identidade de trabalhador. Por fim serão apresentados dados quantitativos da Agenda Juventude Brasil (2015) sobre a juventude e dados qualitativos advindos do trabalho de campo da pesquisa.
Em um contexto de relações de trabalho precarizadas e fragmentadas, o trabalho continua exercendo uma dimensão central? Especialmente para os jovens, que se encontram em piores condições no mercado de trabalho, quais os sentidos e significados que os jovens atribuem ao trabalho?
Desde o período de reestruturação produtiva, nos anos 1980 e 1990, há uma fragmentação, complexificação e maior heterogeneidade do trabalho. Nesse contexto, há movimentos contraditórios de qualificação em algumas funções e desqualificação do trabalho em outras. Nesse sentido, Antunes (2009) argumenta como por mais que o trabalhador não identifique o valor de uso do seu trabalho, este não perde sua centralidade enquanto valor de troca.
Após discussões sobre o fim do trabalho e de sua centralidade (OFFE, 1989), estudos recentes (TOLFO; PICCINI, 2007) tem demonstrado a manutenção de um papel central do trabalho para os trabalhadores, e isto ocorre não apenas para trabalhadores que exercem funções intelectualizadas mas também para aqueles que realizam atividades precárias. Corrochano e Abramo (2016) e Guimarães (2006) salientam como o trabalho segue sendo uma dimensão central na vida dos jovens, representando diversos sentidos e significados em suas vidas. Baseada em estudos recentes Guimarães (2006) argumenta que mesmo tendo ocorrido processo de precarização das relações de trabalho isso não gerou uma perda, e sim uma mudança na significação do trabalho para os jovens, (GUIMARÃES, 2006).
Assim, quais esses novos sentidos e significados atribuídos ao trabalho? Dubar (2012) argumenta como atualmente para muitos trabalhadores mesmo que o trabalho não represente uma “obrigação”, “tortura” algo negativo, tão pouco representa algo prazeroso, positivo. Para ele isso ocorre por uma falta de identificação com a atividade que realizam. Nesse sentido, o caráter instrumental do trabalho se destaca.
O argumento central de Dubar (2006, 2012) com relação à identidade profissional é que a “valorização do trabalho exercido” está relacionado com a “construção da identidade através do trabalho”. Por isso a ligação entre os sentidos e significados atribuídos ao trabalho e a identificação com o trabalho realizado. Entretanto, afirma que o trabalho enquanto algo que o trabalhador se reconhece, se identifica com outros que exercem as mesmas atividades, na qual se constitui como indivíduo e coletivo, está em crise.
Os dados obtidos nessa pesquisa corroboram com esse argumento, ao se pensar o trabalho em si que realizam os jovens, em seu aspecto concreto, a dimensão da “sobrevivência, necessidade” aparece com maior intensidade, como será mostrado no artigo. Entre os entrevistados há um entendimento de que a sociedade em que vivemos atualmente é necessário o dinheiro para garantir a sobrevivência e o trabalho aparece como a fonte para obter esse recurso financeiro. Seguindo uma lógica de que para estar inserido socialmente é preciso ter dinheiro e o trabalho é o meio para obtê-lo.
Quando o trabalho aparece como fonte de auto-realização, algo com sentido pessoal, é na forma de uma projeção de carreira, que ainda não se realizou. Parte do sentido do trabalho para o jovem não está no trabalho que realizam, mas no trabalho que almejam alcançar, buscando trabalhos que lhes deem reconhecimento social, que gostem, que tenham possibilidade de crescimento.
Entre os entrevistados, apenas um entrevistado afirmou estar satisfeito com seu trabalho e não ter perspectiva de mudança de emprego. Todos os outros entrevistados queriam trocar de emprego, mesmo aqueles que afirmavam gostar das atividades que exerciam. Essas mudanças eram motivadas pela valorização tanto financeira como social do trabalho, por melhores condições de trabalho e por gostarem da atividade em si que iriam exercitar.
Podemos compreender assim que o trabalho se apresenta como um elemento importante e entendido como uma forma de realização, mesmo que o trabalho concreto que exerçam não tenha esse papel. Observamos assim que há uma valoração do trabalho enquanto valor de uso, quando se refere há algo que se identifiquem na produção, que vejam a utilidade da sua produção, ver o resultado do seu trabalho expresso em algo.
Há poucas diferenças nos sentidos atribuídos ao trabalho pelas duas categorias analisadas, havendo um desejo de mudança profissional na grande maioria dos entrevistados. O que se destaca é que o trabalho concreto que realizam exerce um papel centralmente instrumental, ligado à satisfação financeira. Entretanto, há uma valorização do trabalho projetado, os jovens enxergam nas futuras experiências profissionais a auto-realização através do trabalho. Assim, os jovens buscam trabalhos que sejam reconhecidos, que vejam possibilidade de aprendizado e crescimento. Essa transferência do trabalho como algo instrumental, que garante o sustento para algo ligado a auto-realização passa por diferentes perspectivas seja pelo estudo, pelo empreendimento, por aprender um ofício.




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* Garcia
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas. Universidade Federal de Rio Grande do Sul - PPS/UFRGS. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil