Em embarcações insalubres advindas da África, diferentes tribos foram trazidas para compor o denominado processo de colonização das Américas e contribuir para a fortuna dos conquistadores, bem como para a formação do povo brasileiro. Sob a égide do império escravocrata, a escravidão foi considerada a base da economia colonial brasileira.
Com base nos teóricos Dussel (1993) e Quijano (2005), o chamado “novo mundo”, considerado imaturo e incivilizado, foi marcado pela exploração dos negros e comunidades indígenas a partir da imposição de um status de inferioridade dito “natural”, assumido a partir da denominação "subalternidade”, somada à estética de destruição e acumulação fundadas no consumo destrutivo da natureza e exploração dessa mão de obra escrava. A resistência à desumanização no período escravocrata encontrou forte contribuição nas experiências quilombolas, formadas principalmente a partir de comunidades de escravos fugitivos vivendo em comunhão ao meio ambiente. As comunidades encontraram-se em múltiplas estruturas socioeconômicas de organização, entretanto o vínculo à terra aprimorou de maneira específica a faceta campesina. Inclusive, esses povoados foram até invadidos para suprir crises de escassez das grandes capitais. Tais invasões eram recorrentes durante o império escravocrata e, mesmo após o formal procedimento de abolição da escravatura, essa forma de resistência cultural e manifestação de luta continuou a sofrer marginalização, principalmente no que tange ao acesso à terra. Nesse sentido, a tese do “bem viver” propõe a reconstrução das sociedades sustentada sob a convivência harmoniosa entre os seres humanos e com a natureza a partir do reconhecimento dos diversos valores culturais. Para isso, é necessário o reconhecimento de identidades por meio dos territórios culturais. De acordo com a teoria da “racionalidade ambiental” de Leff (2014), pode-se observar que o processo de degradação ambiental que afeta as condições de sustentabilidade está intimamente ligado ao desprezo da lógica econômica à cultura e à natureza. Assim, contrapondo-se a essa lógica, a cultura e a natureza são pilares fundamentais para rompimento da racionalidade econômica. Desse modo, deve-se dar espaço a esse povo, em movimentos de resistência, buscando a legitimidade de novos direitos étnicos e culturais os quais vinculam-se às práticas de uso sustentável. Recentemente foram concentrados esforços para defesa da constitucionalidade do decreto brasileiro que regulariza a demarcação das comunidades remanescentes de quilombos. O ato normativo, além de propor a demarcação de terras, almeja a promoção de programas sociais para contribuir com a qualidade de vida desse povo, com apoio ao desenvolvimento produtivo local e autonomia econômica, baseado na identidade cultural e nos recursos naturais presentes no território, tencionando a sustentabilidade ambiental, cultural, econômica e política das comunidades, que tem como aspectos socioeconômicos principais a agricultura e a pesca. Assim como os indígenas, os quilombolas possuem uma relação de historicidade, ancestralidade e subsistência com a terra, bem como o trabalho agrícola que possui uma forma particular de relacionamento com a natureza e técnicas próprias. Nesse sentido, o presente trabalho volta-se à questão do desenvolvimento sustentável a partir das comunidades remanescentes de quilombos, apresentando um recorte descolonial e trazendo como referencial teórico as obras de autores como Quijano (2005), Leff (2014), Dussel (1993), Gomes (2015) e Acosta (2017). Os referidos aportes teóricos apontam para uma análise da exploração para expansão do capital, através da mão de obra negra e indígena e como esta exploração contribuiu para a degradação da natureza. Far-se-á pesquisa bibliográfica explicativa com metodologia indutiva. O trabalho trará como objetivo geral observar o desenvolvimento sustentável alicerçado na proteção da identidade e memória quilombola edificada na reapropriação quilombola da natureza. Isto posto, os objetivos específicos serão observar os conceitos do “bem viver” e ancestralidade existentes nas Comunidades Remanescentes de Quilombos; inferir o intersecção da cultura e natureza ao campesinato quilombola e identificar a formação sustentável dos campesinatos quilombolas como forma alternativa ao desenvolvimento. Nessa proposta, ao observar a união entre as comunidades tradicionais e a natureza, ambos explorados durante a colonização das Américas, buscar-se-á romper com os ideais coloniais de acumulação e desenvolvimento, bem como atrelar as proposições do “bem viver” ao desenvolvimento sustentável.