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Resumen de ponencia
A estratificação social a partir das condições de vida: Um complemento a estratificação por ocupação

*André Soares



A estratificação social a partir das condições de vida: Um complemento a estratificação por ocupação

Esta é uma pesquisa que pretende analisar as condições de vida de determinada classe social, examinando as desigualdades dessas condições a partir do fator mobilidade social. Portanto, tendo a mobilidade social intergeracional ascendente como variável independente, observaremos parte das desigualdades internas de uma determinada classe. É uma análise sobre um determinado aspecto das classes em um contexto espacial da região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, notando o fenômeno na vida de chefes de família nascidos entre 1967 e 1978.
Para além de colaborar com as discussões a respeito dos métodos que identificam, caracterizam e classificam mobilidade, desigualdade e estratificação, pretendemos sobretudo, compreender de que forma e até que ponto a constatação da mobilidade social implica na melhora do modo de viver. Para isso, nos utilizaremos da análise comparativa das condições de vida dos indivíduos que se moveram no estrato social de forma ascendente com as daqueles que herdaram a posição social que os anteriores passaram a alcançar.

Condições de Vida

Antes de prosseguir no aprofundamento da proposta de pesquisa, é importante deixar claro de que forma trataremos o conceito de condições de vida neste trabalho. Na literatura não encontramos um consenso sobre o conceito de condições de vida, mas adotaremos aqui de forma geral o entendimento de que as condições de vida se tratam da possibilidade de obtenção de diversos bens e resultados socialmente valorizados (RIBEIRO, 2003), ou ainda, um nível de atendimento das necessidades materiais básicas para sobrevivência e reprodução social da comunidade (JANNUZZI, 2001). De forma mais definida e para fins práticos deste trabalho a ser desenvolvido, iremos nos ater as condições de saúde, moradia e educação formal oferecida aos filhos.
Dessa forma, trataremos o termo condições de vida como o conjunto de condições referente as temáticas da saúde, moradia e educação formal, uma escolha justificada por partimos do principio que são itens compreendidos como de fundamental importância em qualquer parte do estrato social de classes. Observaremos esse conjunto de condições ora sob o aspecto da qualidade, sendo este o principal aspecto, ora sob o aspecto da estabilidade dessa condição, ou seja, tentando mensurar a capacidade do indivíduo em manter a condição vivida.
Sobre a saúde nos interessa saber de que forma é vivenciado o uso dos serviços médicos e hospitalares, tendo estes de forma geral, o propósito de manter o corpo saudável, bem como o de tratar doenças. Especificamente sobre a moradia em si, questionaremos o tipo de posse do morador sobre a moradia, mas trataremos também sobre as condições do local, de modo geral, sobre aquilo que se refere a infraestrutura. Sobre a educação formal oferecida aos filhos, utilizaremos como referencia de qualidade as avaliações do governo e institutos que mensuram a qualidade da educação formal. Sendo assim uma forma de mensurar o que se compreende como uma boa condição educacional ou não.
Em suma, trataremos as condições de vida como um conjunto específico de condições. Qualificando e caracterizando estas condições vivenciadas pelo indivíduo.

Modelo de estratificação por Classe a ser utilizado

A estratificação por classe a ser utilizada especificamente nesta pesquisa será baseada em uma correlação entre certa divisão sócio-ocupacional e a identidade de classe desenvolvida na pesquisa de SALATA (2016) . Utilizaremos nominalmente a classificação utilizada por pelo autor, a saber: Classe Alta, Classe Média Alta, Classe Média, Classe Média Baixa, Classe Trabalhadora e Classe Baixa, estabelecendo correspondência com a divisão sócio-ocupacional desenvolvida pelo Observatório das Metrópoles, a saber: Dirigentes, Profissionais de Nível Superior, Pequenos Empregadores, Ocupações Médias, Trabalhadores do Secundário, Trabalhadores do Terciário Especializado, Trabalhadores do Terciário Não Especializado e Trabalhadores Agrícolas

Hipóteses e justificativas

Estas observações nos apontam a classe média como um bom terreno para testar nossa hipótese e examinar as relações entre classe e condições de vida. Entende-se a classe média como uma classe relativamente homogênea no que se refere as condições socioeconômicas, de fácil reconhecimento de identidade pela literatura, com categorias claras de pertencimento e de padrões de vida minimamente satisfatórias. Nessa linha, partimos da hipótese que as condições de vida dessa classe, em tese, estruturada de forma similar, na realidade encontra desigualdades internas acentuadas em relação as condições de vida quando percebidas a partir do viés da mobilidade social.
Abordando os termos e conceitos explicitados até o momento, descreverei novamente a hipótese e objetivos.
Queremos testar a hipótese de que indivíduos da classe média tradicional, ou simplesmente classe média (No estrato que utilizaremos a partir de SALATA) não compartilham iguais condições de vida (Saúde, Moradia e Educação oferecida ao filhos), mesmo que estruturalmente compartilhem a mesma faixa de renda, escolaridade e ocupação. Mas pelo contrario, acreditamos que ocupam posições opostas no que se refere a qualidade dessas condições a depender do fator mobilidade social. Dito de outra forma, acreditamos que, de maneira geral aqueles que se moveram de um estrato inferior para a classe média, vivem condições acentuadamente inferiores quando comparados aos indivíduos que herdaram a posição social de seus pais (pais de classe média).
Patrimônio, capital social e cultural acumulado são vantagens indiscutíveis em relação a quem vivenciou uma estrutura social, em alguma medida, precária durante algum tempo e somente depois passou a fazer parte de uma estrutura social mais privilegiada, por isso partiremos de pressupostos a fim de isolar os efeitos do patrimônio e diferentes capitais acumulados por gerações anteriores.
Além do desejo por um bom serviço de saúde e uma boa moradia em local estruturado compreenderem questões básicas do bem viver, a qualidade da educação oferecida ou alcançada pelos filhos ainda pode apontar, mesmo que discretamente, como a condição de vida é transferida a próxima geração. Apontando indiretamente o efeito da mobilidade social sob uma terceira geração. Como utilizamos categorias consideradas como básicas (moradia, saúde e educação), se nem nisso ha uma equidade, talvez a mobilidade social não se traduza minimanete em melhores condições.

Metodologia

Ainda baseado na analise de identidade de classe feita por SALATA, estabelecemos as características do indivíduo médio da classe média como alguém que ocupa uma destas posições socio-ocupacionais: Dirigentes, Profissionais de Nível Superior, Pequenos Empregadores, Ocupações Médias e ainda, que apresenta renda alta (a ser definida) e 12 ou mais anos de estudo. Ou seja, o individuo pesquisado deve atender além da faixa de idade estipulada (39/40 a 50/51), determinado tipo de ocupação, determina faixa de renda e um mínimo de anos de estudo.
Estabelecido o "tipo ideal" da classe média valido para está pesquisa, nosso filtro se dará não só pela idade, mas também pela chefia de família com filhos em idade escolar (Se fazendo necessário por conta da analise de condições de educação formal oferecida). Ao mesmo tempo, reconhecendo a subjetividade das classes, entre as categorias de renda, ocupação e escolaridade estipuladas, nos basta o enquadramento da renda somada ao atendimento de uma das outras duas categorias.
O número de questionários, a forma de aplicação e as questões a serem desenvolvidas ainda não estão definidas neste momento da pesquisa.
A partir da coleta de dados, faremos as inferências necessárias, além de confirmar ou refutar a hipótese.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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_______ A Distinção: Crítica social do julgamento. 2006, São Paulo: Zahar.

JANNUZZI, Paulo. Indicadores Sociais no Brasil. 2001, Campinas- SP, Editora Alínea

RIBEIRO, Carlos Antonio C. Estrutura de classe e mobilidade social no Brasil. 2007, Bauru: EDUSC

RIBEIRO, Carlos Antonio Costa; SCALON, Celi. Mobilidade de Classe no Brasil em Perspectiva Comparada. 2001, Rio de Janeiro

RIBEIRO, Luiz César de Queiroz; RIBEIRO, Marcelo Gomes. Análise Social do Espaço Urbano-Metropolitano: Fundamentos teórico-metodológicos e descrição dos procedimentos técnicos. 2011, Rio de Janeiro, Institutos Nacionais de ciência e Tecnologia - CNPQ Observatório das Metrópoles

SANTOS, Angela Moulin S. P; SANT’ANNA, Maria Josefina G (Orgs). Transformações territoriais no Rio de Janeiro do século XXI. 2014, Rio de Janeiro: Gramma.

SECRETARIA DE ASSUNTOS ESTRATEGICOS. Comissão para definição da classe média no Brasil. 2009, Brasília.

SOBRINHO, Guilherme G. F. Xavier. “Classe C” e sua alardeada ascensão: nova? Classe? Média?. 2011, Porto Alegre: Indic. Econ. FEE, v. 38, n. 4, pp. 67-80.

SOUZA, Jessé. Os Batalhadores brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora. 2010, Belo Horizonte: UFMG

SALATA, André . Quem é Classe Média no Brasil? Um Estudo sobre Identidades de Classe, 2015, Rio de Janeiro: DADOS – Revista de Ciências Sociais. vol. 58, no 1,

___________ A Classe Média brasileira: Posição social e identidade de classe, 2016. Rio de Janeiro, Letra Capital.

SALATA, André; SCALON, Celi. Do Meio à Classe Média: como a “nova classe média” e a “classe média tradicional” percebem sua posição social, 2015, São Leopoldo. Ciências Sociais Unisinos, Vol. 51, N. 3, p. 375-386.

_________________ Desigualdades, estratificação e justiça social. Civitas, 2016 Porto Alegre. V.16, N. 2 p. 179-188.

SOARES, André. Um “novo lugar” para uma “nova classe”: Mobilidade, identidade e consumo. O caso do bairro de Campo Grande, Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, UERJ. 2014. p 63.




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* Soares
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS - UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PPCIS - UERJ. Rio de Janeiro, Brasil