Esta apresentação tem por fim expor reflexões preliminares do projeto de pesquisa de doutorado em curso que visa compreender como a produção de territórios segregados na região metropolitana de São Paulo afeta as mulheres. Tem como base a leitura da extensa bibliografia sobre o surgimento e reprodução das periferias na América Latina, buscando entender quais os mecanismo que operam hoje nesta produção. Confronto esta bibliografia no sentido de problematizar o eixo principal sobre o qual ela se estrutura, o marcador social de classe. Parto da hipótese de que raça e gênero também estão articulados na produção de territórios segregados. Assim, neste contexto, as mulheres além de serem afetadas de modo específico, assumem o protagonismo do cuidado, tecendo redes que entrelaçam mundo privado e público, onde família, vizinhança, ativismo, Estado são acionados como forma de mitigar os efeitos da pobreza, desigualdade e de outras violências sociais. Tenho buscado compreender como as mulheres são produzidas na periferia, além de produzirem-se a si mesma e ao próprio território.
A pesquisa
Neide é uma mulher de 58 anos de idade, autodeclarada parda e nascida em Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Veio para São Paulo com a família quando era ainda criança, com nove anos de idade. “Era um frio, uma pobreza...”, disse ela na conversa que tivemos por mais de duas horas em sua casa. Neide mora com a filha de 30 anos e com a neta de 5 em um conjunto habitacional no distrito do Jardim São Luiz, periferia da zona sul da cidade. Como muitas moradoras da região com a mesma faixa etária, começou a trabalhar ainda criança, logo que chegou à metrópole. O trabalho era de empregada doméstica em “casa de família”, profissão que manteve até há alguns anos, quando conseguiu montar seu próprio negócio, uma lanchonete em seu bairro. Teve seis filhos: o mais velho, Alex, fruto de um estupro de seu primeiro namorado – acontecimento este que insistiu em enfatizar - e que foi assassinado pela polícia há cerca de 10 anos; o segundo, o Elber, cujo homicídio ocorreu há 3 anos; o terceiro, Jader, que apesar de ter uma carreira profissional promissora na área de marketing, é dependente químico e constantemente é internado em clínicas de reabilitação; o quarto, Denis, que hoje está preso por roubo; o quinto, Edson, que mora na região, mas sem condições de cuidar de sua filha delegou a responsabilidade à sua mãe e irmã; e a caçula, Evelyn, que é hoje provedora financeira da casa cujo rendimento é oriundo de seu trabalho em uma loja de utilidades na região. Neide encontra-se severamente adoentada e sem condições de trabalhar. Como ela mesma afirma, depois da morte do segundo filho e da prisão do terceiro, sua vida desabou.
A história de Neide e de sua família poderia ser entendida como uma infeliz tragédia por reunir tantas mortes e prisões em um mesmo núcleo familiar. No entanto, tais trajetórias não são incomuns em territórios periféricos. Durante minha pesquisa de mestrado e em decorrência de meu ativismo de mais de 5 anos na região da periferia da zona sul da cidade, tive contato com diversas famílias com histórias semelhantes. Eram frequentes os relatos destes familiares – em sua esmagadora maioria mulheres: mães, irmãs e avós – sobre mortes, prisões, envolvimento com o tráfico ou dependência química, por parte de parentes, quase sempre do sexo masculino. Estas narrativas revelam um cotidiano marcado pela presença de múltiplas violências, com destaque, àquela perpetrada por setores do Estado.
Tais histórias são frequentemente partilhadas em reuniões, atos-show, saraus, círculos de mulheres, debates, dentre outras atividades que tem como objetivo fortalecer a denúncia do Genocídio do povo negro, pobre e periférico e agregar mais moradores à luta. Inicialmente nesta pesquisa, tinha por fim estudar tais discursos que se articulam em torno desta ideia. No entanto, a presença esmagadora de mulheres nestes espaços de luta, sendo protagonistas de um ativismo que busca enfrentar uma violência que afeta sobretudo homens, vem me fazendo deslocar o olhar para observar a condição das mulheres no contexto periférico: seu cotidiano, as forma como são afetadas elas mesmas por essa violência e como resistem a ela. Tanto em minha experiência profissional e de ativismo, quanto no meu trabalho de campo, observo que as mulheres são a maioria não apenas no cotidiano do ativismo, mas também no cotidiano das políticas sociais: técnicas em serviços de assistência social, educadoras, psicólogas, assistentes sociais, etc. Ao mesmo tempo que começo a me envolver com a história dessas famílias, observo como são as mulheres a base de sustentação destes núcleos familiares, tanto no que se refere ao aspecto financeiro, como também – e sobretudo – na dimensão do cuidado.
Neste sentido, tenho percebido nesta pesquisa que a produção destes territórios segregados afeta a vida das mulheres de modo muito específico, modo este que está articulado à questões de gênero, raça e classe social, fazendo com que essas assumam o papel do cuidado em um contexto de reprodução de diversas violências sociais. Assim, é no privado que os efeitos dessas violências são suportados e vividos, sendo as mulheres as articuladores de redes de cuidado que mitigam tais efeitos.
A bibliografia atual que analisa os processos sociais que produzem a periferia, vem identificando novas formas de produção desses territórios que estão associadas aos modos de acumulação do capital na cidade de São Paulo. Identificam a intensificação da desigualdade e ações do Estado no sentido de gerir e controlar a pobreza. Autores com Gabriel Feltran (2008) e Vera Telles (2013) vem demonstrando em suas pesquisas como o recrudescimento da violência por parte da polícia e o aumento do encarceramento em massa se constituíram como forma de controlar a pobreza em territórios segregados.
No entanto essa bibliografia pouco reflete sobre esse processo em termos raciais e de gênero. O eixo central das análises continua sendo classe social e a reprodução do capitalismo. Assim, tenho problematizado essa bibliografia apoiando-me nos estudos sobre interseccionalidade para entender como raça, gênero e classe se articulam na reprodução das violências sociais no cotidiano e entender como as mulheres se constituem e resistem neste contexto.
Em seu livro Life in Debt, a antropóloga Clara Han oferece uma chave valiosa de investigação para pensar sobre as mulheres em regiões periféricas de grandes centros urbanos da América Latina. Segundo a autora, nestes contextos marcados por arranjos institucionais e de mercado que reforçam as desigualdades sociais, são as mulheres que dão sustentações às relações cotidianas que mitigam os efeitos destas opressões.
Analisando o contexto chileno, ela demonstra como a abertura democrática, após o regime ditatorial (1973-1990), não representou uma reconciliação com o passado, ao contrário, significou uma quebra performativa com a ditadura. Isto é, embora o discurso político tenha buscado se distanciar da violência do passado, mantiveram-se os arranjos institucionais de Estado e mercado, permanecendo intactas as políticas neoliberais que sustentam os altos índices de desigualdade no país.
A autora destaca a força do parentesco, amizade e vizinhança “em um mundo em que a instabilidade forja padrões, doença e a penetrante economia endividada são aspectos da vida cotidiana” (Han, 2012, p.4). Argumenta que tais formas de interconexão de relações domésticas, amenizam a precariedade econômica. E é nesta dimensão, do cotidiano e da relações domésticas – onde o público é vivido e suportado – que ela destaca o papel das mulheres.
Os caminhos que a autora escolheu para construir sua análise, ofereceram uma maneira de formular questões de minha investigação que até o momento não tinha sido capaz apenas com a leitura da bibliografia sobre a periferia de São Paulo. Além disso vem apresentando um potente suporte metodológico que é a etnografia do cotidiano de famílias, com foco na movimentação das mulheres.
Assim, venho acompanhando famílias moradoras da periferia da região sul de São Paulo que tiveram alguns de seus membros mortos ou presos e pretendo demonstrar como mães, irmãs, esposas, avós, tias, articulam-se em redes que engendram o mundo público e privado – parentesco, vizinhança, políticas sociais, grupos ativistas, igreja ou qualquer possibilidade de apoio disponível – para enfrentar as violências que afetam suas famílias. Neste sentido, a discussão sobre família também tem sido de especial relevância no que se refere à responsabilização destas a respeito da condição e enfrentamento da pobreza e onde as mulheres assumem lugar específico no sentido do cuidado.
Por fim, estas reflexões, ainda muito preliminares, vem demonstrando como as mulheres são produzidas de modo específico nestes territórios a partir de sua condição racial e de classe. No entanto essa produção não é passiva, elas também produzem-se a si mesmas nestes processos de cuidado e resistência, contribuindo assim para a produção também do próprio território.