Resumen de ponencia
Céu azul e pé na areia: uma análise de como um espaço de educação não formal do Recife propicia às crianças de classe média o ganho de capital cultural
*Júlia Figueredo Benzaquen
*Mayara Yane Pereira Gonçalves Da Silva
Este trabalho foi desenvolvido como forma de conclusão de curso de bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e procura investigar como espaços de educação não formal contribuem na aquisição de capital cultural, através do ato de brincar livre. A ideia da pesquisa surgiu da percepção de que alguns pais da classe média recifense estavam pagando para os seus filhos brincarem. Num contexto onde as crianças dessa classe se restringem ao espaço domiciliar e que o mundo tecnológico, com tablets, celulares e videogames, se fazem muito presente é interessante perceber o surgimento de espaços de educação não formal que reproduzem quintais, nos quais as crianças podem brincar livremente, evitando essa exposição exagerada ao mundo tecnológico. Para refletir sobre isso foi preciso entender o conceito de classe social, o de capital cultural, o de educação não formal e o do brincar livre. Utilizamos então as teorias cunhadas por Jesse Souza,
pesquisador brasileiro que estuda a desigualdade no país, onde o mesmo afirma que a classe é constituída também por aparatos éticos, morais, educacionais, enfim, ideológicos. Ele divide a sociedade brasileira em quatro classes sociais que se interligam, entre outras causas, pela apropriação desigual dos diferentes capitais, são elas: os endinheirados, a classe média, os batalhadores e a ralé. Trouxemos também os conceitos de capital cunhados por Pierre Bourdieu, onde o mesmo vê o espaço social como um campo de lutas no qual os indivíduos elaboram estratégias que permitem manter ou melhorar sua posição social, estas estratégias estão relacionadas com os diferentes tipos de capital. O autor traz o conceito de “capital” nos seus escritos para referir-se não apenas a forma econômica, como a forma cultural e social. Fazendo uma discussão acerca da estratificação social no Brasil através das teorias desenvolvidas por Jesse de Souza, e de como se dá a aquisição de capital cultural e social pelas diferentes classes sociais através das teorias desenvolvidas por Pierre Bourdieu, investigamos, através de observações não participantes e realização de entrevistas com famílias da classe média Recifense, de que forma as suas crianças são induzidas, desde pequenas, a aquisição dos diferentes tipos de capital através do ato de brincar. Acredita-se que a família pode ser considerada como responsável pela transmissão de um patrimônio econômico e cultural, uma vez que é nela que a identidade social do indivíduo é construída. E as instituições de educação não formal apresentam-se como auxiliadoras neste processo de construção da identidade do sujeito. Buscamos então aprofundar-nos sob as teorias que tratam dos benefícios do brincar livre e investigar até que ponto este ato traz algum benefício para as crianças. A partir disso, assumimos enquanto hipóteses do trabalho que o ato de brincar é de fundamental importância, tanto para o desenvolvimento cognitivo, emocional e artístico da criança, quanto para a aquisição de capital cultural e/ou social e que este espaço de educação não formal age como um facilitador de tais ganhos. Em contra partida, analisamos também famílias pertencentes à uma classe social mais baixa e cujos filhos não frequentam espaços de educação não formal, a fim de entender como se dá a aquisição de capital através do ato de brincar destas crianças. Consideramos este trabalho de fundamental importância para contribuir acerca dos estudos sobre a desigualdade social no Brasil e, mais especificamente, na cidade do Recife, onde o estudo é realizado.
Através do presente trabalho confirmamos a teoria de que as classes mais altas utilizam seus privilégios de possuir tempo e dinheiro para ascender socialmente, enquanto as classes mais baixas dedicam maior parte do seu tempo ao trabalho, o que acaba por contribuir para a manutenção da estratificação social.
Trazendo a tona as questões referentes a falácia da meritocracia, este trabalho busca também fazer discussão acerca da problemática da estratificação social, onde confirmamos, através deste estudo, a teoria de que as classes mais altas utilizam seus privilégios de possuir tempo e dinheiro para ascender socialmente, enquanto as classes mais baixas dedicam maior parte do seu tempo ao trabalho, o que acaba por contribuir para a manutenção da estratificação social.