Este artigo tem como campo a Polícia Militar do Distrito Federal. Localizado no Brasil, o Distrito Federal é uma das 27 unidades federativas do Brasil, onde está localizada a capital do Brasil, Brasília sede do Governo Federal. No Distrito Federal, foram feitas entrevistas com policiais de diversos Batalhões localizados nessas regiões administrativas.
Nas últimas décadas estudos e debates sobre a Policia Militar brasileira têm sido feitos a fim de compreender não somente a violência policial no país, bem como políticas de segurança pública destinadas a resolução de problemas com a segurança no Brasil. Pesquisas com foco na relação entre polícia e sociedade, polícia e Estado, trabalho policial, aumento da violência no Brasil e o seu papel da diminuição do crime são alguns exemplos.
Algumas pesquisas apontam para o racismo institucional na Polícia Militar brasileira, tendo como base e justificativa o índice de violência policial nas comunidades e periferias do país, levando em conta os altos índices de morte da juventude negra e encarceramento da mesma. Outros estudos apontam que a suspeição policial tem cor, idade até mesmo forma de andar e de se vestir. Silva (2009) aponta que o perfil de suspeição policial está vinculado a figura do jovem, homem negro e pobre.
O conceito de estigma de Goffman (1982) pode explicar muito bem essa estereotipação dos sujeitos negros enquanto os suspeitados da polícia. O estigma, segundo o autor, aponta para a relação entre atributos e estereótipos que têm sua origem na construção social dos significados por meio da interação social. Esse constructo leva a formação de identidades sociais fruto da criação de categorias sobre tal indivíduo pela sociedade externa a ele. Essas categorias são geralmente padrões criados entre aquilo que é considerado certo e/ou normal. O indivíduo que foge da “normalidade” prevista por essa construção social do certo e/ou normal, é taxado enquanto uma identidade negativa para a sociedade.
A negritude tem um longo histórico de preconceitos atribuídos a cor de sua pele. Neuza de Souza Santos (1983) pontua que por muito tempo a categoria negro esteve associada a sujeira, pobreza, feiura e todos adjetivos negativos de subalternidade. Ou seja, a identidade da pessoa negra deteriorada pela carga do racismo ainda presente na sociedade.
Sendo assim, não é de se estranhar que esses estereótipos façam parte do imaginário policial e/ou de suas práticas rotineiras de abordagens dos jovens negros. Mas, o que as várias pesquisas sobre o perfil policial dizem é que mais da metade da Polícia Militar brasileira é negra. Os dados da SENASP (2009) apontam que numa estimativa nacional 58,1% das/os policiais militares praça são negras/os e, oficiais são cerca de 47%. Um contingente alto de negras/os na Polícia Militar. Isso significa que ocupar posição na Polícia Militar, não exclui a possibilidade de que essas e esses policiais contribuam para a repercussão do racismo por meio do trabalho policial. (Davis, 2009)
A/o policial negra/o transita entre esses dois espaços, o de negro sem a farda – como o suspeito - e o de policial, aquele que identifica o suspeito. Ou seja, a/o policial negra/o transita entre a posição de suspeito e a posição de quem aborda o suspeito. Por isso, se questiona: de onde vieram essas/es policiais negra/os? Qual sua trajetória de vida antes e depois de se tornarem policiais? Existem vivências em comum entre jovens negros suspeitados e policiais negra/os? Essas perguntas foram importantes para constatar não somente a trajetória de vida das/os policiais, mas para compreensão de seu imaginário acerca do jovem negro da periferia.
Portanto, a partir dessa relação entre suspeito e policial negra/o pretendeu-se discutir a trajetória de vida de policiais autodeclaradas/os negras/os do Distrito Federal, a fim de identificar o caminho trilhado por elas/es até o momento de encontro com a profissão policial. Ou seja, quais seriam as implicações de ser negra/o e ser policial; os processos que o levaram a entrar para a polícia e qual seu lugar de origem. Entre os entrevistados estão presentes 5 policiais masculinos e uma policial feminina da Polícia Militar do Distrito Federal. Por meio de entrevistas semiestruturadas foi possível observar que a maioria das/os policiais entrevistados vieram de regiões periféricas do Distrito Federal; além de que entrar na polícia foi um meio de ascensão social para as/os mesmas/os; e mais, a sua convivência com a comunidade onde vivem mudou bastante em decorrência da nova profissão em que assumem hoje, a de policial. Ou seja, observou-se que existem implicações entre ser negro e estar policial militar no Distrito Federal.
A partir desses resultados é possível perceber que as histórias de vida de policiais negra/o(s) se cruzam com a dos jovens negros suspeitados, desde sua origem até experiências vivenciadas por eles como por exemplo a abordagem policial (conhecido como baculejo). Compreendeu-se também, que a escolha pela profissão aconteceu por falta de oportunidade ou escolha, não por vocação a profissão policial. E por fim, observou-se que apesar da profissão policial carregar status e poder, ela não inibiu da vida dessa/e(s) policiais a relação com o racismo.
Referência bibliográficas
DAVIS, Angela Y. A democracia da abolição: para além do império, das prisões e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
SENASP. Pesquisa Perfil das Instituições de Segurança Pública 2013 (ano base- 2012). 2014.
SENASP. Relatório Descritivo. Perfil das organizações de Segurança Pública. Perfil das Organizações Estaduais e Municipais de Segurança Pública. 2006.
SILVA, Gilvan Gomes. A lógica da Polícia Militar do Distrito Federal na Construção do Suspeito. Dissertação de Mestrado em Sociologia, UnB, 2009.
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro ou As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social. Rio de Janeiro. Edições Graal, 1983.