A sociedade foi moldada ao longo de toda a história da humanidade até a idade contemporânea através de diversas nuances. Uma das principais características que podemos utilizar para definir seus diferentes períodos é o processo produtivo encontrado em cada um desses. Aqueles que adotaram a agricultura como modo de se fixar a um único espaço demarcado, encontraram facilidades que foram essenciais para o surgimento das primeiras grandes civilizações, assim como a influência da era industrial na definição do espaço urbano e como ele se configurou em prol da absorção de excedentes jamais vistos na história. Portanto, o processo histórico no qual o capitalismo ascendeu como regime econômico, político e social possui, segundo a visão tradicionalmente aceita, a revolução industrial como seu mito fundador. O exponencial crescimento demográfico resultou em verdadeiros formigueiros ao redor das fábricas, no entanto, os moldes de exploração tornavam a vida da maior parte da nascente sociedade urbano-industrial permeada por má condições de saúde e habitação. Observando a gênese dos grandes centros urbanos em conjunto com o capitalismo, vários autores teorizaram acerca de como decorreu essa imposição do sistema sobre a sociedade, seus espaços e corpos como elementos urbanos. No entanto, dentro dessas bases teóricas consagradas é de fácil percepção a ausência de um lugar para o feminino que cruze a narrativa hegemônica sobre o capitalismo e seus centros urbanos.
Analisando as raízes históricas de tal ausência feminina, um resgate histórico ao período anterior ao fim do feudalismo no qual a divisão sexual do trabalho ainda não havia sido estabelecida pelos moldes das transformações urbanas iniciadas no século XVIII, um evento em específico pode ser apontado como responsável pela supressão da participação feminina marcada por sua força, seus saberes e sua resistência, que é presente até os tempos recentes, a conhecida “caça as bruxas”, movimento liderado pela igreja católica e aristocracias feudais presente nos livros de história e demais registros como uma tentativa de aniquilar aquelas mulheres que detinham magia e a utilizavam para o mal, segundo as crenças medievais. A "caça as bruxas" pode ser entendida como a base para a estrutura da exploração capitalista, uma vez que o sequestro da autonomia das mulheres inaugurou uma hierarquização da divisão sexual do trabalho, a partir de uma separação entre a produção e a reprodução. O resultado foi o confinamento daquelas que tiveram permissão para sobreviver aos cuidados do lar e a reprodução obediente, associando essas atividades a capacidade e dom natural da mulher dentro da sociedade. Por outro lado, aos homens foi dado o papel exclusivo de trabalhar fora de casa e o recebimento de dinheiro como recompensa e portanto o controle das cidades, espaço essencial para o desenvolvimento desse sistema.
Em acordo com as origens históricas da ausência feminina, é de fácil percepção que o campo teórico é constituído a partir de um saber privilegiado que permeia todo o conhecimento produzido até os dias de hoje. A suposta universalidade criada para a produção científica ignora a necessidade de ampla consciência coletiva para que o conhecimento seja reflexo de uma produção condizente com a realidade de todos os sujeitos sociais e que carregue representatividade. As mulheres têm assistido a sua exclusão ao protagonismo epistemológico através de diversos processos nos quais a sua identidade é apropriada assim como suas ideias. Além disso, é fato que o favorecimento de biografias, a seletividade das memórias históricas e a alteração das narrativas têm contribuído para esse processo.
Assim, dentro da ciência urbanística não poderia ser diferente. A grande maioria do que se têm escrito sobre as cidades possui como preceitos teóricos a análise do sujeito privilegiado que produz conhecimento, acreditando-se que é um sujeito universal e transparente. Como resultado observamos que existem poucas publicações e estudos dentro do urbanismo moderno que seja de autoria de mulheres. E mesmo aquelas que por outra via são, utilizam como ponto de partida consagrados manuais urbanísticos escritos por homens e que contém a perspectiva masculina posta como universal. Até mesmo as teorias que definem as relações entre mulheres e cidades são atingidas por essa problemática. A consequência natural analisada é extraída a partir da observação dos espaços urbanos. A teoria se reflete na prática e portanto as cidades não são pensadas para as mulheres gerando um enfrentamento diário para as mesmas em suas vivências e necessidades.
A cidade de São Paulo e região adjacente pode ser utilizada como um exemplo para análise de como o espaço urbano é percebido pelas mulheres e como diversos fatores contribuem para que ele seja limitado do ponto de vista feminino. A partir da tradução do reflexo epistemológico da construção das cidades dentro do sistema capitalista, a ausência da autonomia decisória das mulheres quanto aos lugares designados a seus corpos nas áreas urbanas possui como motivador aspectos que tangem principalmente a segurança, mas também restrição em relação a mobilidade (mulheres com filhas e filhos, mulheres grávidas), conforto e lazer.
É possível perceber que o direito à cidade para as mulheres esbarra nas restrições ao fluxo contínuo de seus corpos e maneiras de se estar no espaço público. Em resposta a tais restrições vêm crescendo a cada dia os movimentos de mulheres que reúnem a necessidade das mesmas de emancipação nos mais diversos quesitos, e, dentre eles, a retomada da cidade como um espaço feito de mulheres e para as mulheres. Além da desconstrução dos sujeitos de conhecimento do urbanismo moderno, em um processo epistemológico de superação de uma perspectiva parcial privilegiada narrada do ponto de vista masculino, a faceta prática da emancipação feminina encontra nas ruas das cidades o seu local de ação. Dessa maneira, assim como os espaços urbanos são reflexos de um arranjo teórico e prático que obedece as bases fundamentais do capitalismo, que necessitam da exploração e da exclusão de determinados grupos sociais, esse artigo buscou demonstrar que as cidades também devem ser cultivadas como local de debate e disputa. É através da apropriação dos saberes, da construção coletiva e do uso das cidades que as mulheres e demais sujeitos marginais conseguirão subverter essa dinâmica social.
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